Vara: “Campos e Cunha não disse a verdade na Comissão de Inquérito” da CGD

Armando Vara, arguido da operação Marquês por fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção passiva, acusou ex-ministro das Finanças de mentir na Assembleia da República.

Armando Vara acusa esta segunda-feira Campos e Cunha de mentir na comissão de inquérito sobre a gestão da CGD, na qual esteve no dia 5 de janeiro. Em entrevista ao jornal i, Vara garante que almoçou com o ex-ministro das Finanças de José Sócrates no CCB para ser contratado para a administração da CGD. E não recusa ir ao Parlamento para responder às questões dos deputados.

“É óbvio que ele me chamou porque estava a pensar mexer na Caixa Geral de Depósitos”, adianta, referindo que não tem dúvidas de que havia insatisfação em Campos e Cunha face à então administração da CGD. Estava, por isso, a querer mudá-la. “Perguntou-me ainda se não me importava de fazer um paper com ideias que pudessem ser relevantes para o futuro da instituição. Mas, como dez dias depois já não era ministro, não cheguei sequer a enviar”, revelou Armando Vara.

A certa altura falou-se da Caixa, ele perguntou-me como estavam as coisas no banco, disse que gostava de ouvir a minha opinião, porque estava a pensar mudar a governance e criar uma holding.

Armando Vara

Ex-vice-presidente da CGD

O encontro, garante, foi um encontro entre amigos, apesar de também ter entendido o almoço como uma “sondagem” para que assumisse funções na CGD no futuro. “Senti-o destabilizado porque tinha escrito um texto sobre a sustentabilidade dos investimentos públicos e achava que havia uma conspiração na comunicação social sobre ele porque estava tudo a criticá-lo”, conta Armando Vara sobre o ambiente do almoço.

Mas não se ficou por aqui, revelando mais pormenores do encontro: “A certa altura falou-se da Caixa, ele perguntou-me como estavam as coisas no banco, disse que gostava de ouvir a minha opinião, porque estava a pensar mudar a governance e criar uma holding, uma coisa assim do género”.

Na Comissão de Inquérito à Caixa Geral de Depósitos, Campos e Cunha afirmou que “o que era exigido era a demissão da equipa da administração, tendo sido sugeridos os nomes de Santos Ferreira e António Vara”. O ex-ministro das Finanças estava contra essa exigência uma vez que tinha confiança em Vítor Martins, então gestor da CGD, que tinha na equipa o agora governador do Banco de Portugal, Carlos Costa.

Quem exigia a mudança de administração? O então chefe do Governo José Sócrates: “A relação com a CGD não teve um período de maturidade suficiente, porque estive apenas quatro meses no Governo. Desde o início, como ministro das Finanças, fui pressionado pelo primeiro-ministro [José Sócrates] para demitir o presidente da CGD e a administração da CGD”, acusou Campos e Cunha, reforçando que recusou seguir as orientações.

Esta mesma pressão já foi negada por José Sócrates. No dia seguinte a Campos e Cunha ter estado na comissão, o ex-primeiro-ministro desmentiu essa acusação. “Há anos que o Dr. Campos e Cunha aproveita os quatro meses da sua passagem pelo Governo para atacar os seus antigos colegas. Considero tal comportamento desprezível e sempre o ignorei por não querer quebrar a regra que sigo de não comentar a vida interna do Governo a que presidi”, começou por referir na nota enviada à imprensa.

Esclareço que nunca fiz qualquer pressão para demitir a administração daquele banco.

José Sócrates

Ex-primeiro-ministro

Hoje sinto que tenho o dever de o desmentir: as suas declarações a propósito da Caixa Geral de Depósitos são falsas e sem nenhuma correspondência com a verdade”, assinalou o antigo governante. E reforçou: “Esclareço que nunca fiz qualquer pressão para demitir a administração daquele banco. Esclareço ainda que a vontade de substituir a referida administração sempre me foi manifestada pelo então ministro das Finanças que, ao contrário do que agora é afirmado, na altura considerava que não estava à altura da missão do banco”.

Em 2012, a Comissão de Mercado e Valores Imobiliários condenou Armando Vara a uma multa de 50 mil euros por “negligência”. Em causa estava a atuação de Vara enquanto vice-presidente da CGD uma vez que não impediu, mesmo sabendo dos factos, um conjunto de ilicitudes realizadas na rede comercial do banco público.

Em 2014, Vara foi condenado a cinco anos de prisão efetiva no âmbito do caso Face Oculta. Em causa estavam três crimes de tráfico de influência de que estava acusado. Além disso, o ex-ministro teve de pagar uma caução de 300 mil euros em 2015 para ser libertado no âmbito do caso Operação Marquês, nomeadamente o empreendimento Vale do Lobo, um empréstimo da CGD. Vara é arguido por fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção passiva.

Editado por Paulo Moutinho

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