Vítor Bento: Crise foi mal resolvida por Bruxelas

  • ECO
  • 25 Janeiro 2017

Sem a política monetária do BCE, o economista Vítor Bento defende que Portugal poderia estar no mesmo cenário que em 2011.

Vítor Bento, economista e atual chairman da SIBS, reconhece ao Governo de António Costa o mérito pelas suas vitórias em “conciliar o radicalismo da componente mais à esquerda da coligação com as exigências que todos apelidamos de ‘Bruxelas'”, mas critica a falta de convicção para “pôr as contas públicas em ordem”. Em entrevista ao Público, afirmou ainda que as autoridades europeias fizeram uma má gestão e resolução da crise económico-financeira, o que deixou Portugal com uma recuperação fraca e muito dependente do Banco Central Europeu (BCE).

O economista começou por valorizar o lado positivo do Executivo de António Costa, que conseguiu superar várias “improbabilidades” fazendo aprovar dois Orçamentos do Estado. No entanto, tem críticas a fazer. “Não me parece que haja convicção suficiente para pôr as contas públicas em ordem. As coisas vão sendo feitas um pouco circunstancialmente, com a pressão de Bruxelas, mas não há a convicção de que temos de reformar o Estado e de que temos de tornar o Estado sustentável”, afirmou ao Público.

Outra preocupação de Vítor Bento foi a má gestão da crise pelas autoridades europeias, o que “limitou muito a margem de manobra” de Portugal e “acentuou muito o aspeto austeritário do ajustamento”.

“Tratámos uma infeção com anti-inflamatórios, aliviaram-se as inflamações, mas o germe da infeção mantém-se”, afirmou o economista, explicitando que seria provável que, sem a intervenção do BCE, Portugal estaria próximo da situação vivida em 2011. “Dificilmente as taxas conseguiriam estar no nível em que estão, e a tensão que isso criava, quer direta quer indiretamente, seria grande”, explicou. “A crise da zona euro foi muito mal gerida e agravou mais os problemas do que os resolveu”.

Uma das grandes falhas que sinalizou na recuperação económica portuguesa foi a falta de procura externa, que permitiu as recuperações de 1978 e 1983. “Desta vez, porque, por um lado, não se tinha o instrumento para desvalorizar e criar um choque de procura externa e, por outro lado, porque todos os países da zona euro entraram em austeridade ao mesmo tempo, cortaram o próprio crescimento da procura externa, que seria a compensação necessária para esse ajustamento”, afirmou.

Para Portugal, mesmo com as contradições que hoje existem, a saída unilateral da zona euro arriscava-se a ser um caminho, não digo suicida, porque as sociedades não morrem, mas muito traumático.

Vítor Bento

Presidente da SIBS

Mas a falta de mecanismos de desvalorização que critica não significa que defenda uma saída da zona euro. “Para Portugal, mesmo com as contradições que hoje existem, a saída unilateral da zona euro arriscava-se a ser um caminho, não digo suicida, porque as sociedades não morrem, mas muito traumático“, afirma.

E a possibilidade de uma restruturação da dívida? “Não há uma resposta linear”, respondeu Vítor Bento. É preciso saber convencer os interlocutores portugueses de que Portugal mudou, e está preparado para não permitir que a dívida volte a acumular-se ao mesmo ritmo. “Se não fizermos isso, qualquer ideia posta em cima da mesa de reestruturação da dívida é equivalente ao comerciante de carros de segunda mão que põe o contador a zero para enganar o cliente”, comparou.

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