Moody’s: “Objetivo deve ser assegurar a viabilidade do Novo Banco”

  • Margarida Peixoto
  • 7 Fevereiro 2017

Para Pepa Mori, a analista da agência de 'rating' Moody's, o fundamental não é saber quem fica com o Novo Banco, mas sim o que vai fazer com ele. A "chave da equação" é manter o banco viável, diz.

Pepa Mori, analista da Moody’s, avisa que a retoma económica e a recuperação da banca estão ligados, como num “círculo vicioso”.Paula Nunes / ECO 7 fevereiro, 2017

Pepa Mori é a analista da Moody’s que acompanha o sistema financeiro português de perto. Está preocupada com os níveis de rentabilidade dos bancos e expectante sobre as soluções que serão encontradas para o Novo Banco, bem como para o problema do malparado que ainda prejudica o sistema financeiro português. E deixa uma mensagem: o que importa não é saber quem será o futuro dono do Novo Banco, mas sim o que o novo dono vai fazer com ele.

Como avalia o sistema financeiro português?

Publicámos a nossa última avaliação do sistema financeiro português no final de outubro de 2016. Dissemos que temos um outlook estável para os próximos 12 a 18 meses. Essa perspetiva mantém-se. O que isto significa é que vemos algumas tendências de estabilização nos fundamentais dos bancos portugueses, apesar de se manterem em níveis baixos. A boa notícia é que estamos numa tendência de estabilização, depois de anos em que vimos uma deterioração em curso em todos os fatores financeiros que avaliámos. A nossa principal preocupação continua a ser no risco dos ativos, porque ainda há um nível de ativos problemáticos muito elevado, bem como na rentabilidade, por causa das pressões ainda constantes. É semelhante ao que se passa no panorama europeu: o ambiente de taxa de juro muito baixa, mais o crescimento muito modesto do crédito significa que as receitas estão pressionadas.

A Fitch frisou na semana passada que se o Governo resgatar outro banco, isso será negativo para o rating. Concorda?

Só posso falar pelo impacto nos ratings dos bancos, não sobre o rating soberano. Para os bancos, talvez possamos olhar para o que aconteceu no passado e extrapolar sobre o que pode ser o risco. O Novo Banco foi recapitalizado no Natal de 2015, com a decisão inesperada de impor perdas em alguma dívida sénior. Isso criou alguma perturbação no mercado que teve efeitos por todo o setor, sobretudo no que estava relacionado com o acesso a mercado e a possibilidade de levantar capital ou fundos. Sempre que haja uma decisão inesperada, isso cria riscos e também contágio para o resto do sistema. Mas teremos primeiro de especificar o que se entende por resgate. Se for feita alguma coisa inesperada com impacto na dívida sénior, isso cria claramente um risco. Mas devemos primeiro especificar que tipo de situação. No nosso caso, não vamos analisar antes de se concretizar.

Precisamos de saber sobretudo qual será o futuro do banco [Novo Banco] e penso que o objetivo deve ser assegurar a viabilidade do banco. Essa é a chave da equação.

Pepa Mori

Analista da Moody's para o sistema financeiro português

Isso quer dizer que uma decisão de nacionalização não é necessariamente má para o sistema financeiro.

Penso que o que é importante no caso do Novo Banco, mas também no caso da totalidade do sistema financeiro, é recordar que foi criado como um banco de transição, com um período de existência limitado. Agora o seu prazo foi alargado por um ano, mas o que precisamos de saber é qual será a estratégia de médio prazo para o banco. Qual será o resultado e não necessariamente quem será o dono do banco. Queremos saber qual será a estratégia futura para o banco e para os clientes e credores. É por isso que não estou a dizer que qualquer tipo de solução será numa direção ou noutra. Precisamos de saber sobretudo qual será o futuro do banco e penso que o objetivo deve ser assegurar a viabilidade do banco. Essa é a chave da equação. Agora temos de esperar pelo resultado do processo de venda e quem é o comprador no final.

Se Portugal resolver o problema do Novo Banco e da CGD, está tudo resolvido no sistema financeiro?

Nunca se sabe o que pode acontecer. Resolver estas duas questões é importante, no final de contas, estes são dois bancos muito grandes e que juntos representam quase metade do sistema. Claro que significa abordar dois problemas relevantes que estão neste momento a afetar o sistema financeiro português. Mas é difícil dizer se, com isto, todos os problemas estarão resolvidos porque temos preocupações específicas com os fundamentos chave do sistema financeiro, independentemente das idiossincrasias destes dois bancos.

Concorda com a ideia de que o sistema financeiro português parece estar à espera da retoma do crescimento, ao mesmo tempo que a economia parece esperar pela retoma da banca?

Sim, como um círculo vicioso. É difícil responder porque a menos que a atividade económica recupere, é muito difícil vermos o crédito a retomar. Mas novamente: sem a retoma do crédito, é muito difícil que a economia retome também.

Parece um nó...

Sim, estão completamente unidos. E nem sempre se consegue resolver apenas com crescimento. Temos esse exemplo em Espanha: vemos uma retoma na concessão de novo crédito, mas o saldo global dos empréstimos está quase estagnado. Ter um crescimento decente não quer dizer que isso nos leve a uma concessão de crédito a níveis saudáveis.

A mensagem que estamos a passar é que estamos preocupados com o elevado stock de empréstimos problemáticos que os bancos têm nos seus balanços.

Pepa Mori

Analista da Moody's para o sistema financeiro português

Como avaliaria a criação de um bad bank para resolver de forma sistémica o problema da banca nacional?

Não temos a resposta. Não nos cabe dizer qual é a solução ótima. A mensagem que estamos a passar é que estamos preocupados com o elevado stock de empréstimos problemáticos que os bancos têm nos seus balanços. E isso quer dizer que levará algum tempo até serem capazes de reduzir o stock de dívida problemática e isso afeta a rentabilidade dos bancos. Dito isto, temos de esperar para ver se alguma solução deste tipo é adotada e como é articulada. Já vimos muitos exemplos muito diferentes na Europa, com diferentes graus de sucesso, por isso teremos de esperar.

“Estamos à espera de ver os detalhes. Não é só a recapitalização que é muito importante que se materialize, é também o plano estratégico que vai ser aplicado”, diz Pepa Mori, sobre a Caixa.7 feveiro, 2017
Os atrasos na definição da gestão da CGD prejudicaram a Caixa e o resto do sistema financeiro?

Para nós, o que é importante é que haja este acordo com a Comissão Europeia para recapitalizar a Caixa e um plano estratégico para ser implementado. Isto é chave para nós. E o facto de haver um calendário para a recapitalização, que estamos à espera que se materialize. Claro que vamos monitorizar quaisquer questões de governance ou de gestão, mas o que é chave é o facto de haver esta luz verde das autoridades europeias.

Então desde que Portugal se mantenha dentro do calendário, está tudo bem.

Estamos à espera de ver os detalhes. Não é só a recapitalização que é muito importante que se materialize, é também o plano estratégico que vai ser aplicado com a recapitalização.

Do que estão à espera de saber sobre o plano estratégico?

É do que estamos à espera, de ter mais informação sobre as implicações desse plano de reestruturação.

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