• Entrevista por:
  • Margarida Peixoto e Paula Nunes

Fitch: “A história do défice ainda não é nada”

A saída do procedimento por défices excessivos "não é um dado adquirido" para Federico Barriga, diretor de soberanos da Fitch. Para já, a agência de rating está de olhos postos na banca e na dívida.

Federico Barriga é claro: Portugal tem dois problemas — o endividamento excessivo e um sistema financeiro fragilizado. Juntos significam que a economia fica estrangulada, com pouca capacidade para crescer. Sem antecipar a decisão sobre a notação de crédito que a Fitch divulgará na próxima semana, o diretor do departamento de soberanos da agência deixa algumas pistas. Enquanto a dívida não começar a descer e a banca não estiver estabilizada, dificilmente o risco de investimento no país diminui de forma significativa.

Federico Barriga

Como avalia a economia portuguesa? Está no bom caminho para sair da crise?

A taxa de crescimento em 2016 foi mais ou menos o que já tínhamos previsto. Nunca esperámos que a economia crescesse mais do que 1,5%. A nossa última previsão foi um crescimento de 1,2%, mais ou menos o que pode ser o número final. Para uma economia que vem de uma crise tão grande isto é um crescimento muito fraco. Temos dito ao longo de várias avaliações: um dos desafios é Portugal alcançar um crescimento maior e sustentável. Isto é importante, não queremos ter crescimento fraco com desequilíbrios externos. Não é surpresa que a primeira metade do ano passado foi uma grande desilusão, entretanto vimos alguma melhoria. No geral, esperamos uma melhoria moderada, mas não muito substancial.

A segunda metade do ano passado foi um ponto de viragem?

Sim. Isso aparece nos números. Desde que o Orçamento foi apresentado, começámos a ver mais melhorias, também na confiança — a última review que tivemos foi em agosto, quando os dados não eram muito bons. Olhamos agora para a zona euro. É muito importante para Portugal e os últimos dados são positivos. Há um momentum. Os riscos são mais moderados. Não vemos nenhum choque significativo para os países da zona euro — há toda uma ansiedade em torno dos ciclos políticos, que são importantes, mas para Portugal penso que é menos. Mantemos o mesmo outlook.

A razão pela qual [a banca] é um fator importante para o rating é a influência que tem nas contas públicas. Temos vindo a olhar para isto no passado e há ainda alguma incerteza no futuro, por isso continua a ser um fator.

Federico Barriga

Diretor do departamento de risco soberano da Fitch

Disse que o sistema bancário é chave para o rating. Porque está a pesar no crescimento, ou porque pode ter impacto nas finanças públicas?

Obviamente os dois. Em qualquer país o setor bancário tem incidência no cenário macroeconómico. Na Europa, e não só, desde a crise financeira, o setor bancário teve um grande impacto nas finanças públicas. E Portugal não é, obviamente, uma exceção. A razão pela qual é um fator importante para o rating é a influência que tem nas contas públicas. Temos vindo a olhar para isto no passado e há ainda alguma incerteza no futuro, por isso continua a ser um fator. Tem um impacto muito menor num país como a Irlanda, por exemplo, onde o setor financeiro já não tem uma ligação direta com as contas públicas. Mas em Portugal ainda há esta incerteza.

Federico Barriga

Prevê-se que Portugal saia do Procedimento por Défices Excessivos (PDE). E a Fitch esperava um défice pior para 2016 do que aquele que parece ser agora estimado pelo Governo. Faz diferença para o rating?

É verdade que é um número melhor do que o que previmos há seis meses, ainda precisamos dos valores finais, mas as estimativas do Governo apontam para um desempenho melhor. Mas não olhamos apenas para um ano quando avaliamos o rating. No caso de Portugal, para onde olhamos além do défice, é para a dívida.

Estão preocupados com a dívida portuguesa?

No ano passado a dívida aumentou outra vez, por causa do financiamento para a CGD.

A história do défice ainda não é nada. Na verdade, a saída do PDE só vai ser decidida depois de se ter alguma ideia do impacto da CGD nas finanças públicas. Nem diria que para nós isso é um dado adquirido.

Federico Barriga

Diretor do departamento de risco soberano da Fitch

Outra vez o sistema financeiro...

Exatamente. Por isso, temos dito nos últimos relatórios que precisamos de ver uma diminuição no stock de dívida. Isso é chave, é o primeiro elemento que sublinhamos sempre. Até ao momento, ainda não vimos nada disso acontecer. A história do défice ainda não é nada. Na verdade, a saída do PDE só vai ser decidida depois de se ter alguma ideia do impacto da CGD nas finanças públicas. Nem diria que para nós isso é um dado adquirido. Só consideraremos isto como um fator quando a Comissão disser que Portugal saiu.

Qualquer alteração significativa nos custos de financiamento pode provocar stress. Temos isto em conta.

Federico Barriga

Diretor do departamento de risco soberano da Fitch

Está preocupado com a taxa de juro da dívida portuguesa? Os números são adequados para a economia portuguesa?

Não posso falar pelo que o mercado faz. Claramente, Portugal tem um spread muito maior do que países como a Itália ou Espanha. O que posso dizer é que os riscos de financiamento ainda são um fator para o rating. Não comentamos cada movimento do mercado, mas no passado, especialmente, tem sido uma consideração chave para o rating, saber se um país tem acesso ao mercado. A abordagem mais de longo prazo é: para a sustentabilidade das finanças públicas, qualquer alteração significativa nos custos de financiamento pode provocar stress. Temos isto em conta.

Mas está preocupado com os 4%? Ou têm uma influência grande de fatores externos?

É difícil dizer. Obviamente que a perceção de risco é muito mais elevada e há muitos fatores que contribuem para isto. O foco do nosso rating não é seguir o mercado de obrigações, porque se olharmos para países como Itália ou Espanha, os juros desceram muito mais do que o que seria de esperar pelo desempenho da economia. E os ratings não melhoraram em linha com os juros. É útil como uma referência, mas não é um dos fatores chave para onde olhamos.

[A taxa de juro da dívida soberana] é útil como uma referência, mas não é um dos fatores chave para onde olhamos.

Federico Barriga

Diretor do departamento de risco soberano da Fitch

Ainda está preocupado com desequilíbrios estruturais em Portugal?

Sim. E penso que temos vindo a sublinhar em cada relatório que precisamos de ver melhorias. Um dos desequilíbrios estruturais é o nível de dívida da economia, não estou a falar só de dívida pública, mas também do que está a acontecer no setor empresarial e com as famílias. Reformas estruturais noutras áreas são um pouco mais difíceis de avaliar porque levam muito tempo a materializar-se.

Federico Barriga

Vê melhorias desde 2011, na sequência do programa de ajustamento?

Sim, o maior progresso foi do lado das finanças públicas, no défice. O défice desceu muito. Nos fluxos houve muitas melhorias, mas no stock, no volume, foi muito menor. No que toca a reformas no lado do crescimento, temos alguns dados que apontam para mais exportações. E não está só melhor no sentido em que estamos a exportar mais, mas também no sentido da qualidade das exportações, que melhorou. As empresas estão a ganhar competitividade. Mas no nível do crescimento global, Portugal não está a convergir. Não está a convergir de todo para a média europeia. Há questões de legislação, mas também de outras limitações estruturais, como por exemplo a perda de população, que leva tempo a reverter.

Para além do sistema financeiro, que outros setores precisam de reformas estruturais?

Neste momento o enfoque está claramente no setor bancário. É claro pelas discussões que ouvimos, pelos jornais. Mas não damos conselho político. Quando olhámos para o Orçamento, vimos algumas medidas para melhorar a eficiência e coisas que tiveram algum efeito no passado, mas só poderemos avaliar quando houver alguma informação. Não podemos fazer grande avaliação de coisas que ainda não aconteceram.

  • Margarida Peixoto
  • Grande Repórter
  • Paula Nunes
  • Fotojornalista

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