E se os computadores passassem a gerir o nosso dinheiro?

  • ECO
  • 11 Fevereiro 2017

Sistemas de inteligência artificial devem tornar-se numa nova espécie de corretores financeiros que guiem os investidores no mercado. Porque os humanos são demasiado falíveis e o mundo mais exigente.

Os seres humanos são muito emotivos, cometem demasiados erros por isso e não compreendem suficientemente bem o mercado de investimentos e ações, portanto deviam ser os computadores a geri-lo. Quem o diz é Babak Hodjat, um dos fundadores da startup Sentient Technologies que, ao longo dos últimos dez anos, tem estado a desenvolver um sistema de inteligência artificial que quer revolucionar o mundo dos investimentos.

“Os seres humanos são demasiado sensíveis, consciente ou inconscientemente”, disse Hodjat à agência Bloomberg. “Está muito bem documentado que nós, humanos, cometemos erros. Para mim, é mais assustador confiar na intuição humana e nas justificações que encontramos para os erros que cometemos do que confiar apenas no que os dados e estatísticas nos dizem”. Por isso, o cientista computacional, autor de 21 patentes e precursor, por exemplo, do sistema Siri da Apple, tem estado a desenvolver uma alternativa mais viável.

Esta tecnologia criada pela Sentient é capaz de cruzar biliões de dados, avaliar tendências e adaptá-las para ajudar os investidores a tomarem decisões no mercado de ações. Foi criada por um grupo de veteranos da indústria tecnológica, provenientes de empresas como a Apple, a Amazon, a Google ou a Microsoft. As joias da coroa de Sillicon Valley já tinham sido responsáveis por ensinarem computadores a conduzir carros, a vencerem os melhores jogadores de póquer do mundo ou a traduzirem a linguagem humana para assistentes de smartphones.

E a Sentient já está no centro das atenções do mundo financeiro e das comunidades ligadas aos sistemas de inteligência artificial. A companhia, que atualmente só gere os seus próprios investimentos, já conta com investimento de cerca de 143 milhões de dólares de várias entidades, entre elas a sociedade de capital de risco do homem mais rico de Hong Kong, Li Ka-shing, e do maior grupo empresarial privado da Índia, o Tata Group.

Passar de traduções para apostas na bolsa

Ao longo da sua carreira, Babak Hodjat tinha estado mais concentrado na parte da tradução de linguagens humanas, desenvolvendo tecnologias para assistentes digitais em smartphones. Muitos dos seus colaboradores na companhia de que fazia parte antes, a Dejima, acabaram por criar o programa Siri para a Apple. E Hodjat não tinha no mercado financeiro o seu maior interesse, mas começou a ver que este é um dos campos mais promissores para estas novas tecnologias. A enorme quantidade de dados publicamente disponíveis para análise, aliados a computadores mais fortes e capazes de encontrar padrões e tendências entre eles, torna a área financeira ideal para as inteligências artificiais atuarem.

Nello Cristianini, professor destas tecnologias inovadoras na Universidade de Bristol e consultor na Sentient, é da mesma opinião. “A negociação financeira é uma das dez áreas em que as inteligências artificiais podem fazer a diferença. Um algorítimo pode olhar para os dados, tomar decisões sobre negócios, avaliá-las e repeti-las – e as pessoas podem ser completamente autónomas nas decisões que tomem”.

Como é que o sistema, afinal, funciona?

A Sentient tem milhares de máquinas a operarem em simultâneo, em todo o mundo, para criarem o que são, essencialmente, triliões de especuladores virtuais, a que chama “genes”. Estes “genes” não passam de algoritmos em computadores, mas são postos à prova por se lhes atribuírem somas monetárias hipotéticas, que eles poderão trocar em situações simuladas a partir de dados já arquivados. Os “genes” que não conseguirem ter sucesso morrem logo à partida, enquanto os que conseguirem ir fazendo dinheiro vão sendo reagrupados uns com os outros para criarem uma nova geração, uma espécie de grupo dos apostadores mais bem-sucedidos. E graças aos avanços nas capacidades desses computadores, a Sentient consegue “encolher” milhares de dias passados em negócios em poucos minutos.

Um gene que negoceie bem é posto à prova durante alguns dias e depois é usado em apostas reais. Os funcionários da Sentient definem-lhes objetivos a alcançar, níveis de risco e um limite temporal dentro dos quais podem funcionar, e depois “deixam as máquinas fazerem o seu trabalho”. O sistema funciona automaticamente à medida que ganha mais experiência.

Mas Hodjat avança que se “o inferno se instalar” há um “botão vermelho” que os supervisores da máquina podem ativar para salvarem o mundo.

Os hedge funds já confiavam na inteligência artificial

Primeiro, a Sentient desenvolveu a inteligência artificial. Agora, criou o primeiro hedge fund (fundo de cobertura de risco) gerido completamente por ela, e espera conseguir bater os maiores especialistas de Wall Street em termos de aconselhamento de investimento.

Mas não é novidade que os hedge funds já recorriam aos conselhos dos computadores. Alguns dos maiores — o Bridgewater Associates, o Point72 ou a Renaissance Technologies — já usavam sistemas de inteligência artificial para terem novas ideias, mas não os deixavam controlar todas as operações, como a Sentient está a fazer agora.

Porém, e por muito impressionante que a tecnologia da Sentient pareça, ainda é difícil saber se resulta. A companhia avança que o novo sistema está a superar as referências internas, mas não revela do que estas tratam. E como o sistema ainda não dá lucro, a empresa está a pensar em atrair investidores externos ao longo deste ano. Jeff Holman, um veterano de Wall Street que se lhes juntou no ano passado, disse que a companhia está muito limitada naquilo que pode ir revelando sobre as suas técnicas devido às restrições impostas pela Comissão de Títulos e Câmbio dos Estados Unidos. Mas adianta que “a plataforma é sólida” e diferente de todas as outras estratégias que viu antes.

Mas nada de tomar decisões precipitadas. Anthony Ledford, o principal cientista do hedge fund Man AHL de Londres, que vale 19 mil milhões de libras, chama a atenção para o perigo de ter demasiada fé nos sistemas de inteligência artificial que ainda não estão suficientemente estudados. Embora o Man AHL também esteja a apostar em estratégias desenvolvidas unicamente por sistemas computacionais, Ledford avisa que ainda é demasiado cedo para declarar que é um êxito. “Há muita expectativa e esperança, mas quando perguntamos realmente às pessoas quantas centenas de milhões de dólares estão a conseguir, muitas delas não têm resultados assim tão bons”.

Ainda há muito para perceber sobre como os sistemas de inteligência artificial podem cooperar com os hedge funds. Tristan Fletcher, que escreveu a sua tese de doutoramento sobre a ação das máquinas nos mercados financeiros, e que trabalha para um hedge fund, diz que os investidores podem mostrar-se relutantes em confiar completamente o destino do seu dinheiro a um computador. “Sei como os investidores conseguem ser conservadores e não conheço um único que confiasse o seu dinheiro a um sistema completamente informático”.

E remata: “As máquinas não são remédio para tudo. São precisas pessoas que realmente pensem por trás delas”.

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