FMI: Banca pode fechar mercados a Portugal

Portugal tem reembolsado antecipadamente o FMI. E a capacidade para pagar o resto da dívida é "adequada", mas a dinâmica da dívida pública deixa o país "vulnerável a choques". Um dos riscos é a banca.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) confia na capacidade de Portugal pagar o que lhe deve, isto depois dos sucessivos reembolsos antecipados que têm sido feitos. No entanto, continua alertar para o risco de perda de acesso aos mercados. O “cocktail” entre fraco crescimento, elevadas necessidades de financiamento e uma banca problemática pode impossibilitar a captação de financiamento nos mercados.

Enquanto a capacidade de Portugal reembolsar [o que ainda deve ao FMI] deverá ser “adequada”, no cenário base de uma “gradual redução da política acomodatícia” do BCE. Mas mesmo neste cenário, há riscos. “Este cenário está vulnerável a surpresas negativas, tais como a rápida deterioração das perspetivas macroeconómicas ou risco externos que podem fazer disparar o spread da dívida” portuguesa face aos restantes parceiros europeus.

"As compras de dívida do BCE no mercado secundário foram mais do dobro dos valores emitidos em 2016. No final do ano passado, a detenção de dívida portuguesa pelo BCE aumentou para quase um terço do total.”

FMI

O FMI dá especial destaque ao potencial impacto da banca. “Uma surpresa negativa vinda do setor financeiro poderá ser particularmente penalizadora“, alerta o fundo liderado por Christine Lagarde. “Enquanto a melhoria da estrutura da dívida pública tornou Portugal mais resiliente a juros mais altos, uma forte subida das taxas pode reforçar um ciclo em que o financiamento através do mercado se torna mais restritivo, puxando ainda mais pelas taxas”.

A dívida portuguesa está em cerca de 130% do PIB (em termos brutos). A taxa média suportada pelo país com os mais de 240 mil milhões de euros em títulos emitidos ronda os 3,2%, mas os custos estão a aumentar. Nas emissões de longo prazo realizadas este ano, o país tem sentido um agravamento dos juros, sendo que no mercado a taxa a dez anos continua em torno dos 4%. Parte desta subida, diz o FMI, traduz os sinais dados pelo Banco Central Europeu (BCE) relativamente ao programa de compra de dívida.

O Fundo nota que o “acesso de Portugal aos mercados parece estar significativamente influenciado pelo apoio dado pelas compras do BCE”, isto numa altura em que esse programa vai começar a ser revertido. “As compras de dívida do BCE no mercado secundário foram mais do dobro dos valores emitidos em 2016. No final do ano passado, a detenção de dívida portuguesa pelo BCE aumentou para quase um terço do total“, nota.

“O programa de compras foi estendido até ao final do ano, mas o limite de compra de 33% não. Para Portugal, isto implica uma redução mensal nas compras do BCE de cerca de 40% face a 2016“, refere o FMI, apontando esta revisão do programa como a explicação para a subida das taxas portuguesas no mercado secundário para níveis acima dos 4% no prazo a dez anos. “Esta taxa compara com a de 3,5% no final do programa da troika“.

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