Marcelo vai vender dívida da CGD. Quanto custa?

  • Rita Atalaia
  • 2 Março 2017

Marcelo Rebelo de Sousa prometeu. E vai cumprir. Está hoje no Porto com a CGD para atrair investidores para a dívida subordinada do banco. Mas quanto é que essa dívida vai custar? O preço será alto.

Marcelo Rebelo de Sousa prometeu. E vai cumprir. O Presidente da República vai ajudar a promover a venda de obrigações da Caixa Geral de Depósitos (CGD). Ponto de partida? Porto. Em causa está a emissão de títulos de dívida subordinada no valor de 500 milhões, operação que deverá ocorrer no final de março ou início de abril. A ideia é conquistar investidores, mas para isso não basta o apoio do Chefe de Estado. É preciso uma taxa de juro alta. Quanto é que vai custar ao banco público? Muito, a julgar pelas várias emissões realizadas por outros bancos da Zona Euro. Depois, virão os restantes bancos portugueses.

Raquel Sá Martins / ECO
Raquel Sá Martins / ECORaquel Sá Martins

“Estarei aqui no Porto para apoiar essa emissão, dentro de um mês, em encontro com empresários e investidores nacionais e internacionais”, disse Marcelo Rebelo de Sousa em meados de fevereiro. Poucas semanas depois, chega à Invicta onde vai participar no I Encontro Fora da Caixa, em Serralves. Estará com Paulo Macedo, procurando “vender” o país, bem como a respetiva situação económica e financeira a investidores. O secretário de Estado adjunto e das Finanças, Ricardo Mourinho Félix, garante que “existem vários investidores interessados” na dívida da CGD, mas é sempre melhor ter mais para garantir o sucesso da recapitalização da CGD.

Cumprida a primeira, o processo está agora na segunda fase, apesar de ainda faltar a aprovação da Comissão Europeia. Quando Bruxelas der luz verde, o banco estatal poderá avançar para o aumento de capital de 3,7 mil milhões de euros, sendo mil milhões, em duas tranches de 500 milhões cada, obtida através de investidores privados. Não vai vender ações, mas sim dívida com um nível de subordinação (ou seja, risco) tão elevado que é equivalente a capital para o banco. Risco elevado é igual a custos altos para quem os emite.

Estamos a falar de produtos financeiros com um risco muito significativo, mas também com retornos apetecíveis para quem investe — as taxas ficam, normalmente, entre os 8% e os 10%. Olhando para os dados da Bloomberg, nos últimos 12 meses houve 11 emissões de obrigações subordinadas semelhantes às que a CGD vai realizar. Entre as operações, há vários bancos. Desde o Unicredit, que aceitou pagar uma taxa de 9,25%, ao BBVA, que paga 8,875% e aos 8,625% do Bankinter. Menos, só o Intensa Sanpaolo que fez duas emissões com taxas de 7,75% e 7%.

Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da RepúblicaPaula Nunes/ECO

E são estes retornos que mantêm o mercado aberto a este tipo de operações, explica um especialista do setor ao ECO. “Há muito procura por rendimento adicional, mesmo que isso envolva um risco elevado”, nota. Mas quem é o investidor que compra estas obrigações altamente subordinadas? São sobretudo fundos, muitos deles especializados neste tipo de produtos financeiros. Um apetite que tem sido crescente, levando a que a generalidade das obrigações já colocadas pelos bancos europeus estejam a valorizar, levando a que a taxa no mercado recue.

Portugal é um risco? Sim, mas…

Nas operações realizadas por outros bancos europeus, os juros exigidos pelos investidores foram elevados. E, apesar do movimento recente dos juros destas emissões, podem ser ainda mais no caso da Caixa. Porquê? A culpa é do rating. A Standard & Poor’s admite subir a notação da CGD, mas por enquanto mantém a classificação inalterada… em “lixo”. Isto em comparação com o BBVA e o Unicredit, por exemplo, cujas notações são de “BBB+”, ou seja, têm classificação de investimento. Têm menos risco para os investidores. Mas estes receios são acalmados pelo facto de a CGD ser um banco público.

Essa “proteção” pode travar os juros que a CGD irá pagar, isto apesar da perceção de risco sobre o país — as taxas da dívida soberana estão elevados, rondando os 4% a dez anos. Apesar de mais altos, “os juros [da dívida soberana] têm-se mantido estáveis no último mês” e isso não deve provocar grandes alterações nos juros da CGD, refere um especialista do mercado de dívida ao ECO. A não ser que “haja um cataclismo e os juros das obrigações soberanas subam 30 ou 40 pontos base”, explica.

Dar o “corpo às balas”

Mais caro ou menos caro, a CGD irá ao mercado obter estes mil milhões de euros através de obrigações subordinadas de forma a cumprir com os rácios exigidos pela regulação. Será o primeiro banco português a fazê-lo, mas os restantes terão também de avançar com operações idênticas. O banco público dá o “corpo às balas”, ou seja, abrirá o mercado. Para quem? Há um “candidato óbvio”. O especialista refere que “o banco privado com uma situação esclarecida que poderá fazer isto é o BCP“. Mas já se sabe que o banco liderado por Nuno Amado vai aguardar, provavelmente até ao próximo ano.

E o BPI? Pode não fazê-lo já, mas assim que o fizer já tem um comprador garantido: o CaixaBank. Gonzalo Gortázar, o administrador delegado do banco espanhol que controla a instituição financeira portuguesa, afirmou que está disponível para subscrever os títulos de dívida subordinada de que o BPI precisa para reforçar os seus rácios. O banco pretende emitir até 250 milhões de euros e, segundo o CaixaBank, a taxa de juro anual poderá variar entre 8% e 10%.

Gortázar referiu que “o BPI está agora numa situação financeira” mais forte, tendo o CaixaBank como acionista controlador. E o facto de o CaixaBank controlar o banco reforça os ratings da instituição, o que facilita o acesso ao financiamento, explica. “O CaixaBank está disponível para subscrever a dívida subordinada”, se considerar que é a melhor alternativa, salientou o responsável na apresentação dos resultados da OPA.

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