Snapchat em bolsa: dez segundos de sucesso?

  • Juliana Nogueira Santos
  • 2 Março 2017

A Snap Inc, entra hoje em bolsa, mas com tantos problemas estruturais, os investidores poderão ter apenas alguns segundos de sucesso. Dez, se o sucesso durar o tempo de um snap.

A partir desta quinta-feira a New York Stock Exchange conta com um novo título que enverga o ticker SNAP e que vem assim quebrar o interregno de entradas em bolsa.

Considerada por muitos uma das maiores ofertas públicas iniciais do setor tecnológico, comparando-se apenas com a da Alibaba em 2014 e a da Facebook em 2012, a Snap Inc. vai por em negociação cerca de 200 milhões de ações, a um preço de 17 dólares por ação. Este unicórnio nascido em 2011, assenta assim a sua avaliação nos 20 mil milhões de dólares.

Se não faz a mínima ideia do que é a Snap Inc., não se assuste, é normal. Os seus produtos têm nos millennials e na Geração Z, ou seja, na faixa etária entre os 18 e os 34, cerca de 63% dos seus utilizadores.

Distribuição dos utilizadores do Snapchat por idade em 2016.Fonte: Statista

Começou por se chamar Snapchat, tendo ido buscar o seu nome à sua aplicação fenómeno, uma rede social que permite a partilha de conteúdos curtos — ou fotografias, ou vídeos com a duração máxima de dez segundos — que têm também eles um limite temporal limitado. No caso de partilhas privadas, ou seja, entre utilizadores, o conteúdo só pode ser visto pelo recetor duas vezes, sendo que na segunda, o remetente é avisado de que a reprodução foi repetida.

No caso das partilhas públicas, estas juntam-se numa cronologia composta por fotografias ou vídeos que perduram durante 24 horas numa secção chamada “A Minha História”. Este novo conceito de efemeridade do conteúdo tornou a aplicação atraente para aqueles que planeiam meticulosamente a sua imagem virtual. A interface, que permite ao utilizador aceder rapidamente à câmara, e as várias ferramentas de edição de imagem, entre as quais os famosos filtros, tornaram-se a cereja no topo do bolo.

Exemplo de um dos filtros do Snapchat, sendo este o mais popular. Transforma qualquer pessoa em cachorro em segundos.

Mais recentemente, e por ter lançado os Spectacles, uns óculos com câmara incorporada que reencaminham as fotografias capturadas diretamente para “A Minha História”, a Snapchat tornou-se Snap Inc. e estabeleceu-se como uma “empresa de câmaras”, enaltecendo o seu interesse pela inovação no campo da fotografia móvel.

Quando surgiram os rumores de uma possível entrada no mercado de valores, falava-se de uma avaliação de 25 mil milhões de dólares, um valor inédito para uma empresa tão nova e com tão poucas provas dadas. O futuro parecia promissor, tanto para os seus donos como para os investidores. À medida que o tempo foi passando, o hype começou a abrandar e a realidade foi começando a tomar conta do processo. A avaliação foi descendo, com muitos a duvidarem se este valor alguma vez iria coincidir com o valor real da empresa.

Uma oferta (ir)recusável

A empresa começou o roadshow para angariar interessados há cerca de duas semanas e desde então Spiegel e a sua equipa passaram por Londres, Boston, Nova Iorque, Los Angeles e São Francisco. Os bancos que estão à frente do processo, o Morgan Stanley, o Goldman Sachs, o Deutsche Bank e o JP Morgan, já fecharam a carteira de investidores, tendo já alocado uma boa porção das ações a grandes investidores.

A estrutura acionista é composta por três classes de ações: as A, que não garantem direito de voto, as B, em que cada ação corresponde a um voto, e as C, em que cada ação corresponde a dez votos. Mas as que vão ser negociadas serão apenas da classe A, não garantindo assim ao investidor qualquer influência no negócio — podendo ainda assim estar presente nas reuniões de administração.

O presidente executivo, Evan Spiegel e o presidente de tecnologia, Bobby Murphy vão manter 89% dos direitos de voto. Ou seja, mandam no futuro da empresa.

Revolucionária mas não lucrativa

O Snapchat estabeleceu-se como um dos pontos de viragem naquilo que era feito nas redes sociais. A instantaneidade, a efemeridade e a versatilidade do conteúdo, que tanto pode ter um caráter privado como um caráter viral, fez com que milhões e milhões se viciassem em snaps. Estima-se que sejam produzidos mais de 2,5 milhões de snaps todos os dias.

E tudo isto se traduz no número de utilizadores. O último trimestre do ano transato, a aplicação contava com 158 milhões de utilizadores ativos diários. Este valor tem sofrido um aumento exponencial desde o primeiro trimestre de 2014, ano em 46 milhões de pessoas utilizavam diariamente o serviço.

Utilizadores ativos diários do Snapchat.Fonte: Statista

A principal dúvida dos investidores prende-se com o modelo de negócio seguido pela empresa. É certo que ter muitos utilizadores é importante para ilustrar o impacto de uma aplicação, mas sendo está grátis e tendo esta fechado a loja de filtros — que permitia aos utilizadores comprarem filtros adicionais para as suas fotografias — os resultados ficam totalmente dependentes da publicidade.

Na aplicação, os conteúdos são monetizados e o espaço atribuído à publicidade é diluído. O conteúdo promovido aparece na aplicação sem o utilizador o entender como tal: os perfis das marcas aparecem como se se tratassem de perfis de contactos, não havendo uma formatação diferente — apenas um separador dedicado. A publicidade pode também ser utilizada pelos próprios utilizadores através dos “geofilters”, filtros propostos pelas entidades que dependem da localização. Também as lentes podem ser promovidas.

Há poucos dias, a Snap Inc. disponibilizou ao público geral os Spectacles, que ainda só estavam acessíveis em máquinas de venda automática espalhadas pelos Estados Unidos. Com cada par a ser vendido online por 129,99 dólares, a empresa espera vir a arrecadar mais lucro com este produto.

Ainda assim, os números não mentem. No passado ano, a empresa gerou 404,5 milhões de dólares de receitas, um valor que se torna ainda mais surpreendente quando posto lado a lado com o de 2015, que foi de 58,66 milhões de dólares. Mas a surpresa maior é quando se percebe que, mesmo assim, a Snap registou um prejuízo de 514,64 milhões de dólares.

Além disto, e como se pode perceber através da análise do gráfico acima, a aplicação tem assistido a uma diminuição no crescimento dos utilizadores ativos. E porquê? Segundo a Snap, têm havido alguns problemas com a aplicação a correr no sistema operativo Android, problemas esses que são alheios a ela.

Rivalidade…

Embora a empresa tenha justificado esta estagnação no número de utilizadores atribuindo a responsabilidade a terceiros, é impossível não falar do “elefante na sala”, como chamou Sean Stiefel, analista da Navy Capital em declarações à Bloomberg: o Instagram.

Mark Zuckerberg, dono do Facebook, do Instagram e do WhatsApp, já anda a “namorar” o Snapchat desde 2013, ano em que Spiegel não aceitou os três mil milhões de dólares que este lhe ofereceu pelo seu recém-criado unicórnio. Nessa altura, a aplicação contava apenas com 26 milhões de utilizadores nos Estados Unidos e ainda não tinha dado quaisquer provas do seu valor, mas faria parte do plano de Zuckerberg para lidar com o decréscimo de jovens a utilizarem a rede social.

Tendo em conta que o dono do Facebook pagou mil milhões de dólares pelo Instagram, ou seja, um terço daquilo que estava disposto a pagar pelo Snapchat, seria de esperar que depois da “tampa”, o enamorado não desistisse. E assim foi. Desde essa altura, já foram incorporadas nas suas aplicações várias das funcionalidades que fizeram da rede social de Spiegel aquilo que ela é hoje, como as mensagens efémeras e os efeitos e máscaras.

O Instagram conta hoje com 150 milhões de utilizadores, e mesmo que nem todos utilizem as “Stories”, ou seja, a ferramenta inspirada no Snapchat, seria de esperar que muitos dos utilizadores migrassem para esta aplicação. A acrescentar a isto, o Instagram já está um passo à frente e disponibilizou as transmissões em direto para todos os utilizadores.

… e dependência

Por outro lado, essa justificação deixa transparecer outro dos grandes problemas que assola a empresa e que se prende com a grande dependência que esta tem em relação a outras grandes marcas.

A Apple e a Google assumem-se como um mediador essencial entre Snap e utilizador, visto que alojam nas suas lojas a aplicação. Além disto, a Snap não tem serviço de armazenamento em nuvem próprio, servindo-se do da Alphabet e da Amazon para tal. Com cada uma delas gastará nos próximos cinco anos dois mil milhões e mil milhões, respetivamente.

Os riscos não ficam por aqui: a aplicação terá de continuar a ser atrativa para as empresas, para que investidores continuem a apostar na publicidade, terá de conseguir ultrapassar quaisquer mudanças a nível de hardware e software e terá de manter uma disciplina financeira muito rígida, para que resultados como os de 2016 não se voltem a repetir.

E planos para o futuro? Alguns, mas não concretos. Tentar atenuar as dependências através da negociação de custos, construir uma base de dados própria e entrar por novos negócios e novos formatos. Mas tudo isto é apenas tentativa — e hipótese.

O que podemos esperar?

Na verdade, não há uma resposta concreta a esta pergunta. A incerteza é o ingrediente central dos mercados, e tal como acontece todos os dias, ninguém sabe concretamente o que esperar. As últimas grandes entradas em bolsa, a Alibaba e o Facebook, tiveram sucesso na entrada em bolsa, mas tinham lucros. A Snap tem prejuízos… mas está avaliada em o dobro face à rede de Zuckerberg.

Ainda assim, e mesmo que não tenham direito de voto numa empresa cujo modelo de negócio é instável e cujos riscos estão constantemente a surgir, muitos investidores vão avançar e ter pelo menos dez segundos de sucesso — nem que seja a fazerem um vídeo com um filtro de cachorrinhos.

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