Empresários querem uma AICEP mais próxima e menos tecnocrata

Aumentar exportações, internacionalizar e captar investimento estrangeiro deverá ser esta a cartilha para a nova administração da AICEP que toma posse esta segunda-feira. Mas isso requer estratégia.

Exportar, internacionalizar e captar investimento estrangeiro. São estas as linhas mestras que devem orientar o futuro da AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal). Para isso, dizem os empresários contactados pelo ECO, devia haver uma maior proximidade da instituição às empresas e sobretudo o diálogo devia ser mais económico e menos tecnocrata.

A cartilha poderá servir de modelo ao novo presidente da AICEP, Luís Filipe de Castro Henriques, que toma posse esta segunda-feira, substituindo no cargo Miguel Frasquilho.

Mas mais do que falar em pessoas, os empresários querem falar de estratégias. José Manuel Fernandes, presidente da Frezite, — e que em tempos foi coordenador de um grupo de trabalho que se debruçou sobre as estratégias de internacionalização juntamente com Pedro Reis, ex-presidente da AICEP, e Paulo Portas, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros — defende que, a exemplo do que aconteceu no passado, quando a diplomacia económica chegou a ser tutelada pelo ministério dos Negócios Estrangeiros e pelo ministério da Economia, também “a AICEP devia ter uma estratégia que nascesse numa cúpula repartida entre esses dois ministérios e que depois tivesse ramificações na diplomacia externa”.

Para o presidente da Frezite “devíamos ter uma AICEP mais próxima das carências das empresas, com informação a retratar as fontes nos mercados internacionais e, sobretudo, a utilizar uma linguagem não tecnocrata política para ser mais económica e próxima das empresas e dos empresários”.

"Devíamos ter uma AICEP mais próxima das carências das empresas, com informação a retratar as fontes nos mercados internacionais e, sobretudo, a utilizar uma linguagem não tecnocrata política para ser mais económica e próxima das empresas e dos empresários.”

José Manuel Fernandes

Presidente da Frezite

Uma visão partilhada por João Miranda, presidente da Frulact: “Através dos elementos que a agência tem no exterior, devia existir um conhecimento mais profundo das fileiras que contam, com informação atualizada em toda a rede porque o que se verifica é que nem sempre há uma organização de rede da AICEP daquilo que é a oferta de Portugal para os diferentes países”.

Para João Miranda, “se a AICEP conseguisse através da sua rede identificar as importações desses países, e havendo oferta em Portugal, potenciava oportunidades”. No fundo trata-se de “potenciar a diplomacia económica em detrimento da diplomacia política“.

Os empresários não se mostram preocupados com o número de delegações da AICEP que existem, ou até com a sua eventual redução. Mais importante do que isso, afirmam, “é a visão de crescimento da AICEP”.

Paulo Nunes de Almeida, presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP) diz mesmo que “se calhar há mercados em que faz sentido ter mais do que um delegado, onde é preciso reforçar equipas, mercados, como por exemplo, os Estados Unidos, que pela sua dimensão, assim o exigem”.

"se calhar há mercados em que faz sentido ter mais do que um delegado, onde é preciso reforçar equipas, mercados, como por exemplo, os Estados Unidos, que pela sua dimensão, assim o exigem.”

Paulo Nunes de Almeida

Presidente da AEP

Outra vertente destacada por Nunes de Almeida é a necessidade da AICEP trazer a Portugal “os nossos potenciais compradores, porque é importante mostrar as nossas fábricas, dar a conhecer as nossas infraestruturas e as nossas pessoas”.

Também Jorge Armindo, presidente da Amorim Turismo, põe o ênfase na “reativação da diplomacia económica e sobretudo fazer uma reanálise dos mercados onde estamos e onde queremos estar”.

"Sugiro a reativação da diplomacia económica e, sobretudo, fazer uma reanálise dos mercados onde estamos e onde queremos estar.”

Jorge Armindo

Presidente da Amorim Turismo

Rafael Campos Pereira, vice-presidente da AIMMAP [Associação dos Industriais Metalúrgicos] diz que não se pode dissociar o papel da AICEP de pontos fundamentais como a “estabilidade laboral, a estabilidade fiscal e as políticas públicas de apoio ao investimento”. Mas alerta que a agência “tem que ser mais dinâmica, até porque hoje existem evoluções muito grandes, o que exige maior agilidade, onde há oportunidades no momento”.

"A AICEP tem que ser mais dinâmica, até porque hoje existem evoluções muito grandes, o que exige maior agilidade, onde há oportunidades no momento.”

Rafael Campos Pereira

Vice-presidente da AIMMAP

Exportações têm que continuar a crescer

Ousadia para crescer. Ousadia para afirmar Portugal num outro patamar. José Manuel Fernandes diz que “a AICEP tem que ter uma visão de crescimento económico mais ousado para, juntamente com os 15 cluster mais importantes da economia portuguesa, encontrar um novo desígnio ao nível das exportações de modo a que estas sejam capazes de representar mais de 60% do PIB“. Mas para “esta visão de crescimento sustentável para Portugal é preciso conhecer as necessidades e desafios específicos com que se deparam os diversos setores da nossa economia”.

"A AICEP tem de encontrar um novo desígnio ao nível das exportações, de modo a que estas sejam capazes de representar mais de 60% do PIB. ”

José Manuel Fernandes

Presidente da Fresite

Os 15 clusters enumerados por José Manuel Fernandes foram definidos e estruturados em 2012 por parte do Governo e são eles: aeronáutico; agricultura e agroalimentar; materiais de construção e mobiliário; tecnologias de informação e comunicação; ciências da vida e da saúde; extração geológica e mineira; indústria de moldes; indústria do mar e naval; indústria química e petroquímica; indústria de base florestal; indústria têxtil; calçado e moda; indústria automóvel; energias renováveis; bens de equipamento e centros de serviços qualificados.

As métricas dos empresários divergem no número mas não divergem no sentido. O presidente da AEP não é tão ousado, mas aponta baterias “para 50% do PIB, ou seja, qualquer coisa como mais dez pontos percentuais do que temos neste momento. Mas este é um trabalho que tem que ser partilhado entre as empresas, as associações, mas em que a AICEP pode também ter um papel fundamental”.

As exportações ascendem hoje a 40% do PIB e as projeções do boletim económico do Banco de Portugal apontam para uma tendência de crescimento que deverá chegar aos 46% até 2019.

Reforço do investimento na própria AICEP

“Gostava de ver o orçamento da AICEP crescer nos próximos anos a bem da atividade da agência e a bem da atividade do país, porque é, de facto, uma atividade fundamental”, afirmou Miguel Frasquilho, em dezembro de 2016, numa entrevista à agência Lusa.

O presidente da AICEP recordava que no início da década o orçamento era de 50 milhões de euros, enquanto que agora ronda os 37/38 milhões de euros, um corte de 30% num horizonte de seis anos.

Para Jorge Armindo este é de facto um problema que devia ser solucionado. “É preciso reforçar o investimento da própria AICEP, falta pessoal, é preciso alocar mais recursos para poderem cobrir todo o espetro industrial”.

"É um facto que a verba para a AICEP tinha sido reduzida, mas do meu ponto de vista o importante é ter planos de iniciativas diferentes e, sobretudo, mais alinhadas com a diplomacia económica.”

João Miranda

Presidente da Frulact

João Miranda, por seu turno, desvaloriza este aspeto. “É um facto que a verba para a AICEP tinha sido reduzida, mas do meu ponto de vista o importante é ter planos de iniciativas diferentes e, sobretudo, mais alinhadas com a diplomacia económica”.

Líder devia ser um empresário

A Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal devia ser liderada por um empresário, defende José Manuel Fernandes, presidente do grupo Frezite. “A AICEP é um motor de fazer negócios, e quem sabe fazer negócios são os empresários, são eles que têm olfato e que sabem como, quando e onde se fazem os negócios”. Isto porque “muitas vezes a linguagem das empresas não é entendida. Já houve uma aproximação, mas por exemplo, Miguel Frasquilho não falava tanto a linguagem das empresas”.

As marcas de Frasquilho

Quando Miguel Frasquilho assumiu a presidência da AICEP, a agência estava presente em pouco de 50 países. Hoje está em 65.

As últimas aberturas anunciadas pelo próprio Frasquilho ocorreram já em 2017, na Austrália, Argentina e Tailândia. Em 2014, Frasquilho tinha apresentado um plano estratégico para reforçar a presença da agência no mundo, mas não constava do plano nem a Austrália, nem Argentina. Mas face às relações comerciais entre as empresas nacionais e aqueles países, estes acabaram por ser incluídos no plano.

Quem também não constava do plano estratégico eram Cuba e o Irão, mas acabaram por ser uma aposta devido à dinâmica geopolítica.

Mas para além do reforço do número de delegações, Frasquilho orgulha-se de ter sido no seu mandato que “a AICEP passou a cobrir todos os países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP)”.

Ainda como marca do mandato de Frasquilho destaca-se o investimento angariado pela AICEP em 2015, de 1.700 milhões de euros, o valor mais alto dos últimos cinco anos e o quarto melhor desde que foi criada a agência. A AICEP foi criada em 2007, resultado da fusão entre a Agência Portuguesa para o Investimento (API) e o Instituto do Comércio Externo de Portugal (ICEP).

Luís Filipe de Castro Henriques (na foto) toma posse esta segunda-feira, substituindo no cargo Miguel Frasquilho.

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