FMI está quase tão otimista com a economia como o Governo

O FMI está mais otimista com o crescimento económico de Portugal em 2017: reviu-o em alta de 1,1% para 1,7%. Já quanto ao desemprego duvida que seja possível baixar do patamar dos 10%.

O Fundo Monetário Internacional aproximou a sua previsão do crescimento económico à do Governo. Depois de em outubro prever uma subida do PIB em 2017 de 1,1%, o FMI espera agora um aumento de 1,7%, próximo dos 1,8% que o Executivo inscreveu no Programa de Estabilidade que aprovou na semana passada. Já sobre o desemprego, apesar de indicar uma taxa menor, não é tão otimista quanto o Governo que prevê 9,9% para este ano.

Se as previsões do FMI se concretizarem, a economia portuguesa vai crescer 1,7% em 2017. Esta projeção divulgada no World Economic Outlook de abril, tem em conta a aceleração do quarto trimestre de 2016, no qual o PIB cresceu 2%. No final deste ano, a economia deverá desacelerar para os 1,1%, segundo as mesmas previsões, mas no ano seguinte, também no quarto trimestre, voltará a acelerar para uma subida de 1,7%. No total do ano de 2018, o FMI prevê uma desaceleração face a 2017 para os 1,5%.

Contudo, o otimismo acaba quando se olha para o longo prazo. Se Mário Centeno espera uma aceleração da economia em Portugal que leve o PIB a crescer mais de 2% em 2019, o Fundo é menos otimista e mais cauteloso: no World Economic Outlook de abril prevê que o PIB português aumente apenas 1% em 2022. Já o Governo prevê, segundo o Programa de Estabilidade de abril deste ano, um crescimento de 2,1% em 2020 e de 2,2% em 2021.

O otimismo também desvanece quando se fala da taxa de desemprego. O FMI prevê também uma trajetória descendente do número de desempregados até 2018, mas sem baixar da barreira dos 10%. O Executivo prevê que já em 2017 o desemprego baixe aos 9,9%, mas o Fundo prevê que a taxa diminua dos 11,1% em 2016 para os 10,6% em 2017. No ano seguinte a taxa de desemprego continuará a comprimir para os 10,1%.

No relatório, a entidade liderada por Christine Lagarde refere que as projeções para 2017 são baseadas no Orçamento do Estado aprovado em Portugal, sendo que foram ajustadas para “refletir as previsões macroeconómicas da equipa do FMI”. Estas projeções têm como base um cenário de políticas invariáveis.

Países do Sul da Europa não estão a aproveitar o potencial da economia

Portugal está num grupo de países — onde se incluem França, Itália, Espanha e Grécia — em que o FMI identifica uma falha: as economias não estão a atingir o seu potencial. Ao contrário dos Estados Unidos e da Alemanha, estes países não estão a atingir crescimento económicos que levem o Produto Interno Bruto para perto do seu potencial. Ou seja, o que uma economia poderia produzir se todos os seus recursos, como a tecnologia ou a força de trabalho, estivessem a ser totalmente utilizados.

O Fundo Monetário Internacional faz esta análise perante a recuperação económica registada na segunda parte do ano passado, tendo ganho momentum –– ou seja, uma tendência positiva. A penalizar economias avançadas como a portuguesa estão os poucos avanços na produtividade, o fraco investimento e uma inflação fraca persistente. Isto conjugado com uma procura em baixa, expectativas fracas e populações a envelhecer tem feito as economias crescerem pouco.

Para resolver este problema, o Fundo quer que estes países apliquem políticas macroeconómicas diferenciadas. Nos países que não conseguem alcançar o seu PIB Potencial, o FMI defende que se continue a aplicar uma política monetária expansionista. Contudo, o Fundo refere que esta estratégia dos bancos centrais pode não ser suficiente e poderá até gerar efeitos secundários “indesejáveis”.

Ainda assim, o FMI recomenda que o BCE continue a sua estratégia. “Na Zona Euro, com as expectativas da inflação ainda inferiores à meta e várias economias ainda a operar significativamente abaixo da sua capacidade, o Banco Central Europeu deve manter a sua política expansionista atual”, lê-se no World Economic Outlook de abril. O Fundo vai mais longe, referindo que podem ser necessárias mais medidas expansionistas caso a inflação core não descole para perto dos 2%.

“A política monetária será mais eficaz se for suportada por medidas que limpem as folhas de balanço e fortaleçam o setor financeiro, usando o espaço orçamental se disponível, e acelerando as reformas estruturais”, conclui o FMI. Esta deve ser uma “prioridade crítica”: resolver o crédito malparado, conjugando uma supervisão mais forte, reformar as insolvências e desenvolver os mercados de dívida. Além disso, o FMI quer que se complete a união bancária e que se introduza a garantia comum para os depósitos bancários. “Estas ações iriam fortalecer a transmissão [dos efeitos] da política monetária expansionista para a economia real e facilitar a consolidar e a restruturação do sistema bancário”, refere o FMI.

Uma das alternativas à política monetária é apostar em políticas fiscais mais atrativas, ainda que dentro do controlo orçamental. Isto deverá ser feito ao mesmo tempo que se diminui a dívida, seja das empresas seja das famílias, do Estado e dos bancos.

E, claro, o FMI não deixa de recomendar a implementação de reformas estruturais para promover a produtividade, o investimento e a qualificação profissional. Além disso, tal como já tinha feito na semana passada, o Fundo Monetário Internacional volta a alertar para o perigo do protecionismo, pedindo aos Governos que resistam a retrair-se na integração e globalização económica, dois fatores que “precisam” de estar na agenda para o crescimento económico.

O Fundo espera ainda que a Alemanha use o espaço orçamental que tem para investir e reduzir os excedentes comerciais que tem com outros países da Zona Euro. Outro dos fatores que poderia beneficiar os países que não atingem o seu PIB Potencial é a integração dos refugiados na força de trabalho, processo que deveria ser facilitado nos pedidos de asilo, escreve o FMI. Os refugiados deviam ser integrados com uma aprendizagem da língua do país em causa e deveriam ser assistidos na procura de emprego, além de se introduzir um sistema de reconhecimento de credenciais profissionais mais eficaz, promovendo também o empreendedorismo junto da comunidade de refugiados.

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