Urnas abertas para a eleição que pode abalar a Europa

  • Marta Santos Silva
  • 23 Abril 2017

Hoje os franceses votam o que preocupa os europeus: o esvaziamento dos partidos tradicionais, a integração europeia, a imigração e a extrema direita. Saiba o que está em jogo... e o que vem aí.

paris frança eleições francesas urnas abertasRaquel Sá Martins

São 11 candidatos, e os franceses este domingo vão escolher dois. Embora haja um favorito — o independente Emmanuel Macron, que tem estado consistentemente à frente nas sondagens — tudo está ainda dentro da margem de erro entre quatro candidatos: Macron, a candidata da extrema-direita Marine Le Pen, o ecologista eurocético Jean-Luc Mélenchon e o candidato da direita, François Fillon. Qualquer par destes quatro candidatos pode, de acordo com as sondagens, seguir para a segunda volta, que terá lugar a 7 de maio.

Emmanuel Macron não é só favorito por estar em primeiro para a primeira volta, mas também porque é o candidato que, avançando para a segunda, se projeta ser capaz de derrotar qualquer outro numa campanha frente-a-frente. Marine Le Pen, por sua vez, deve passar para a segunda volta onde poderá ser derrotada por qualquer adversário, segundo as projeções atuais. Mas a grande quantidade de combinações possíveis torna difícil prever o que vai acontecer.

Mas não é só o futuro de França que se joga nestas eleições. Vota-se também a integração europeia, com candidatos que querem separar-se da União contra um que faz comícios a abanar a bandeira das 27 estrelas; as dificuldades dos partidos tradicionais, com o candidato do partido de Hollande em quinto lugar nas sondagens; a ascensão da extrema-direita e os receios ligados à imigração e ao terrorismo, personificados pela líder da Frente Nacional.

É uma eleição cujo resultado pode dar a volta à Europa, e aqui o ECO recapitula o que se passou e antevê o que se pode passar a seguir, na segunda volta e para lá dela… candidato a candidato.

Benoît Hamon e o esvaziamento do PS

Benoît Hamon começou uma campanha cheia de otimismo. Derrotou nas primárias aquele que era considerado o favorito para liderar o Partido Socialista francês, Manuel Valls, que era primeiro-ministro de François Hollande e poderá ter sofrido com isso mesmo. Após derrotar inesperadamente Valls, Hamon procurou distanciar-se ao máximo de Hollande, cuja taxa de aprovação era tão baixa que o próprio Presidente não se candidatou para a reeleição: apenas 4% dos franceses se diziam satisfeitos com o trabalho do anterior presidente.

Hamon tentou distanciar-se. Encostou-se à esquerda e trouxe propostas diferentes das do antecessor no partido: a legalização da marijuana, um rendimento universal de sobrevivência para todos independentemente do trabalho, e propostas de uma União Europeia mais democrática através da renegociação dos tratados europeus. Pensou-se até que Hamon pudesse procurar aliar-se à esquerda — por exemplo a Jean-Luc Mélenchon — numa espécie de “Geringonça” à francesa, e o próprio candidato deu sinais disso quando veio a Lisboa encontrar-se com os partidos da aliança parlamentar de esquerda.

Mas Hamon continuou sempre a derrapar nas sondagens e agora até Manuel Valls, primeiro-ministro pelo PS, declarou publicamente que vai apoiar nas eleições o candidato independente Emmanuel Macron. Hamon está tão mal nas sondagens que na sexta-feira o reconheceu, partilhando um vídeo, não sem sentido de humor, de uma recuperação surpreendente de uma corredora francesa no Campeonato Europeu de 2014, escrevendo: “Não desistimos”.

Será que este esvaziamento dos eleitores do Partido Socialista pode ser visto como uma tendência mundial? Nas recentes eleições holandesas, os socialistas tradicionais foram duramente castigados após um período de coligação com a direita. E o investigador Joseph Downing, da universidade britânica London School of Economics, estabelece também um paralelo com a situação de Corbyn no Reino Unido. “Se olharmos para o partido socialista em França, estão todos bastante bem na vida, tiraram cursos em universidades caras, vivem em zonas caras, e quando são eleitos as suas políticas têm mais a ver com o centro-direita”, assinala o investigador. “As pessoas olham para eles como se não fossem mesmo de esquerda”, e por isso não apelam aos eleitores de classe trabalhadora que costumavam votar na esquerda.

A professora Federiga Bindi, investigadora na universidade norte-americana Johns Hopkins, porém, não vê as coisas pelo mesmo prisma. “A moda é dizer que é uma tendência internacional, e que os partidos tradicionais já não existem, mas eu não estou totalmente convencida disso. Acho que nalguns países os partidos tradicionais não encontraram bons candidatos”, afirma. “A França é um bom exemplo disso: quando os partidos não conseguem candidatos fortes deixam espaço para novas candidaturas como a de Macron. Macron não existiria se houvesse, por exemplo, um Alain Juppé”.

François Fillon e um escândalo avassalador

O que aconteceu a François Fillon? Há dois meses pensar-se-ia que o candidato dos Les Républicains (LR), que venceu as primárias da direita derrotando Nicolas Sarkozy e o mais consensual Alain Juppé, ia quase certamente ser o próximo Presidente francês. Agora, está em quarto nas sondagens para a primeira volta, ultrapassado por um independente, Macron, e por um outsider de esquerda que até recentemente não era levado muito a sério pela política francesa, Jean-Luc Mélenchon.

François Fillon tem estado no centro de controvérsias mas manteve-se até ao fim da corrida.Marlene Awaad/Bloomberg

Um escândalo abalou a candidatura Fillon, começando com alegações vindas do jornal satírico e de investigação Le Canard Enchaîné de que a sua mulher, a britânica Penelope Fillon, tinha recebido 500 mil euros em dinheiros públicos para trabalhar enquanto assistente parlamentar do marido sem nunca ter cumprido essa tarefa. As denúncias continuaram a acumular-se: o Penelopegate chegou também a supostos empregos fictícios que Fillon criara para os filhos no Parlamento, os dois acabaram chamados a depor e indiciados por mau uso de fundos públicos. Mas Fillon aguentou, apesar de críticas internas e externas, e ainda não está excluído que venha a ser presidente.

Quais as suas hipóteses? Bem, dentro dos quatro candidatos mais bem colocados, é o que aparece mais abaixo nas sondagens, mas a verdade é que todos estão muito próximos e qualquer par poderá chegar à próxima fase, dentro da margem de erro. Mas, se passar para a segunda fase, é importante para Fillon que não defronte Macron. As sondagens dizem que Fillon pode derrotar Marine Le Pen e também Jean-Luc Mélenchon.

Como seria esta já não muito provável presidência Fillon? O candidato é bastante encostado à direita, com algumas das suas medidas mais mediáticas a serem a intenção de cortar 500 mil postos na função pública até ao fim do mandato de cinco anos, e ser rígido no desemprego, reduzindo os apoios para incentivar o regresso ao trabalho. Fillon tem expressado também perspetivas eurocéticas, referindo que a França deve ter soberania.

Jean-Luc Mélenchon e a França Insubmissa

Jean-Luc Mélenchon é mais um candidato que veio dos quadros do PS para fundar o seu próprio movimento e cada vez mais se encostar à esquerda. Não era levado a sério no princípio da corrida mas agora, candidato à presidência pelo movimento França Insubmissa, beneficiou da perda de apoio de Benoît Hamon para avançar nas sondagens, chegando mesmo a ultrapassar François Fillon nalgumas delas e ficando no grupo dos favoritos

O candidato, que fez vários comícios simultâneos através de hologramas e que é considerado um grande orador, tem propostas extremas para a França. Qual é o projeto do eurodeputado, que se considera socialista republicano, e do seu FI? Como outros candidatos da esquerda, propõe limitar o livre comércio internacional, rejeitando acordos como o CETA, entre a União Europeia e o Canadá, e o TTIP, entre a União Europeia e os Estados Unidos. Eurocético, defende mudanças profundas na UE, nomeadamente através de alterações nos tratados fundadores que transfiram mais poder para os cidadãos, com um “Plano B” que significaria uma saída unilateral da União Europeia.

Se passar à segunda volta, Mélenchon derrotaria Marine Le Pen mas seria derrotado por François Fillon ou Emmanuel Macron, de acordo com as atuais previsões. Mas há outra particularidade dos eleitores de Jean-Luc Mélenchon que assusta alguns dos analistas, se Mélenchon não avançar. “A abstenção entre os eleitores de Mélenchon pode ser um fator determinante”, disse Jérome Fourquet, analista do Ifop, ao Politico. “Muitas pessoas nesse grupo”, o Ifop estima que sejam 42% dos eleitores de Mélenchon, “vão achar impossível votar em ‘Macron o banqueiro'”. O que é que isto significa? Que “engolir o sapo” de votar no candidato menos mau para evitar uma vitória da extrema-direita pode não funcionar tão bem como aconteceu em 2002 para manter o pai da atual candidata da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, fora do Eliseu.

Marine Le Pen e a exploração dos medos

A Frente Nacional, partido francês de extrema-direita, foi fundada em 1972 por Jean-Marie Le Pen. Atualmente, é liderado pela filha dele, que se distanciou do pai pela sua reputação desagradável de ser abertamente xenófobo e racista. Em 2002, quando Le Pen chegou à segunda volta das eleições presidenciais contra Jacques Chirac, a esquerda juntou-se à direita para votar em Chirac e impedir Le Pen pai de ser presidente. Mas Marine Le Pen é outro tipo de líder, e o seu discurso não é tão abertamente xenófobo como o do pai.

“A Frente Nacional faz um bom trabalho em culpar os problemas económicos na globalização em geral”, e na movimentação dos setores de produção para outros países com mão-de-obra mais barata, afirma o especialista Joseph Downing da LSE. “Estes partidos dão-se muito bem em zonas ricas em imigrantes, porque essas zonas costumavam ser muito prósperas, os migrantes vieram para trabalhar nessas indústrias e agora as indústrias desapareceram e os lugares que rodeiam essas áreas começaram a votar cada vez mais à direita”.

Além de propor uma moratória na entrada de imigrantes, um fim à entrada de refugiados no país e uma reposição das fronteiras francesas, Marine Le Pen também tem as suas propostas bandeira: referendos para sair do euro e da União Europeia. Apesar de serem propostas que não são apoiadas pela vasta maioria dos franceses, só a menção delas assusta os mercados — a subida de Le Pen ao poder poderia fazer o euro cair para abaixo da paridade.

“Le Pen e Mélenchon têm planos muito radicais”, disse ao ECO Lorenzo Codogno, da LSE. “Em França a participação na União Europeia e na zona euro está mesmo na Constituição, por isso tencionam mudar a Constituição”. Mas as hipóteses de Le Pen, neste momento, são poucas. Embora esteja bem colocada para passar à segunda volta, as projeções atuais preveem que qualquer um dos outros candidatos a derrote.

Emmanuel Macron, o independente que joga ao centro

Quando Emmanuel Macron apresentou a sua candidatura, foi uma pedrada no charco da polícia francesa. O jovem candidato que vem dos quadros do Partido Socialista e foi ministro da Economia decidiu separar-se do seu partido e criar um movimento, o En Marche, para se candidatar à presidência. Começando por baixo nas intenções de voto, agora o centrista, que aproveita ideias à esquerda e à direita para compor o seu programa, é o favorito para vencer a segunda volta das eleições francesas, onde derrotaria qualquer dos outros candidatos.

“Macron saiu dessa herança socialista em França, por isso tem uma ligação ao partido, mas saiu da estrutura a dizer que eles estão desligados da realidade das pessoas”, afirma Joseph Downing, da LSE. Assim, demarcando-se do status quo, Macron conseguiu tornar-se num centrista cujas ideias são as mais pró-europeias de todos os outros candidatos. É o único candidato que tenciona reduzir o défice para corresponder às obrigações europeias o mais depressa possível, e abana bandeiras da União Europeia nos seus comícios.

“Pessoas como Macron podem ajudar muito no processo de integração europeia”, disse ao ECO o professor da London School of Economics, Lorenzo Codogno, especialista na integração da União Europeia. “Ele é muito pró-UE e tem um desejo de acelerar o processo”. E a França tem a ganhar com isso? “França faz parte da Europa e está no próprio coração da Europa, por isso estaria na linha da frente de um benefício de um aprofundamento do mercado único, que ainda não está a ser totalmente aproveitado”.

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