Le Pen atrás nas sondagens mas com um plano para mudar isso

  • Marta Santos Silva
  • 3 Maio 2017

As sondagens mais recentes continuam a dar vantagem ao centrista Emmanuel Macron, mas Marine Le Pen pode ganhar? A reviravolta dependeria de convencer as pessoas certas a ficar em casa.

As sondagens parecem dar segurança a quem teme uma França com Marine Le Pen ao leme: todas dão a vitória ao centrista independente Emmanuel Macron. No entanto, a distância entre os dois candidatos tem estado a encolher desde a primeira volta das eleições, a 23 de abril, à medida que nos aproximamos do próximo domingo, quando os franceses tomarão a decisão final. E Marine Le Pen tem uma estratégia clara para voltar a subir: tem de convencer certos eleitores a ficar em casa e outros a levarem-na a sério.

Segundo o centro de sondagens Ipsos, a 23 de abril as intenções de voto em Macron na segunda volta eram de 62% para 38% em Le Pen.

Poucos dias depois, numa sondagem do CEVIFOP realizada para o jornal Le Monde entre 30 de abril e 1 de maio, a diferença já era de 59% para 41%. Os jornalistas do Le Monde assinalam a solidez da escolha: dos que contam votar em Macron, 91% dizem que já decidiram com certeza, assim como 88% dos que esperam votar em Le Pen.

No entanto, existem fragilidades, e uma das principais está em quem irá mesmo às urnas no domingo para votar. O Le Monde destaca que se estima que a participação seja superior na segunda volta, presumindo que 76% dos eleitores franceses se desloquem para colocar o voto na ranhura, mas falta saber quais: se quem votou em Macron e Le Pen na primeira volta está muito mobilizado, outros eleitores desiludidos estão bastante menos. É disso que Le Pen terá de se aproveitar se quer ultrapassar Macron no dia D: dizer uma coisa a uns e outra oposta a outros.

Conservadores: Não tenham medo

O primeiro passo para Marine Le Pen é recolher o voto dos conservadores que apoiaram François Fillon e que veem Emmanuel Macron como uma opção demasiado esquerdista ou demasiado europeísta. O jovem candidato tem defendido a União Europeia com unhas e dentes, chegando ao limite de acenar bandeiras das estrelas sobre fundo azul nos seus comícios, e os estrategos de Le Pen apercebem-se de que existe um espaço intermédio por ocupar para aqueles que não defendem necessariamente uma saída do euro ou da UE mas uma maior soberania para França.

É essa posição que tem tentado suavizar desde a primeira volta, assegurando que qualquer ação a nível europeu dependeria de um referendo e que “não faria nada” conta a vontade popular. A Europa, afirmou, citada pelo Politico, pretende-se “feliz”, e apelou aos eleitores conservadores que nada temessem, procurando antes voltá-los contra Macron ao classificá-lo como mais um banqueiro. “Eles já vos fizeram sofrer o suficiente”, afirmou a líder do partido de extrema-direita Frente Nacional num comício em Nice. “Não tenham medo da vossa liberdade, dessa maravilhosa liberdade de expressão, porque vocês não lhes devem nada”.

O mesmo jornal europeu Politico destaca que Le Pen tem também procurado recolher votos no sul de França, onde ainda havia muitos apoiantes do ex-presidente Nicolas Sarkozy, adotando posturas que lhe pertenciam e que os eleitores vão reconhecer, como facilitar as regras que permitem aos polícias alvejar pessoas que considerarem ameaças.

Esquerdistas: Fiquem em casa

Ainda antes da primeira volta já se falava de um “exército de abstencionistas” — os apoiantes de Jean-Luc Mélenchon, o candidato mais encostado à esquerda que saiu reforçado por um esvaziamento do Partido Socialista francês e por uma política ecologista e que defendia uma democracia mais participativa. O medo? Que sem Mélenchon na segunda volta, os seus apoiantes não fossem capazes de votar no “banqueiro Macron” para prevenir uma presidência de Le Pen, e preferissem em vez disso ficar em casa. É precisamente essa a estratégia que Le Pen está a tentar adotar.

Uma apoiante de Marine Le Pen exibe um pin da candidata francesa.Marlene Awaad/Bloomberg

Inicialmente, Jean-Luc Mélenchon mostrava-se receoso em fazer recomendações de voto aos seus apoiantes do movimento França Insubmissa. No entanto, à televisão TF1, acabou por tornar a sua posição mais clara: “Eu não votarei Frente Nacional, eu combato a Frente Nacional. E digo a todos os que me escutam: não cometam o erro terrível de deitar um boletim de voto pela Frente Nacional, porque empurrariam o país para um incêndio generalizado do qual ninguém vê saída”. No entanto, não foi claro o suficiente para apelar ao contrário: um voto em Macron.

Uma consulta aos simpatizantes do movimento França Insubmissa, citado pela francesa LCI, mostra que a maioria dos “insubmissos” rejeitam Emmanuel Macron — 36% dos mais de 240 mil sondados disseram que prefeririam votar branco ou nulo, e 29% que se iriam abster. Só 34% dos candidatos colocam a hipótese de votar em Macron, e nem sequer lhes foi perguntado se quereriam votar em Le Pen. Uma apoiante de Mélenchon entrevistada pelo canal Brut (e que vai, contrariada, votar em Macron) disse que sugerir que havia proximidade entre os candidatos da extrema-direita e da extrema-esquerda era “gozar com a cara das pessoas em direto”.

Sabendo que os “insubmissos” não votarão nela, Le Pen tem trabalhado, porém, para acalentar um ódio a Macron, que pinta como banqueiro, “narcisista”, próximo das políticas do extremamente impopular François Hollande, e um capitalista que vai “fazer a guerra” contra os direitos dos trabalhadores. Segundo o Politico, este trabalho de tentar fortalecer a abstenção pode ser o melhor caminho. “Le Pen precisaria de uma taxa de participação de 90% entre os seus apoiantes e de 70% junto dos de Macron para vencer”, mesmo que ele continue a avançar nas sondagens. Falta contar as cruzes que, no domingo, entrarem mesmo nas urnas.

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