Roland Kupers: o que é, afinal, a inovação?

Roland Kupers é académico e escritor. No currículo, tem empresas como a AT&T e a Shell. Vai estar no encontro anual da COTEC para explicar o que é, afinal, a inovação. Antes disso, falou com o ECO.

Roland Kupers é o orador principal do 14º Encontro Nacional de Inovação da COTEC.

Quando se pergunta a Roland Kupers o que devem fazer as empresas para serem mais inovadoras, o autor holandês não entra em clichés. Primeiro, é preciso saber o que é a inovação. Só depois é possível entender como se chega até ela. Físico teórico de formação, diz-se um académico interessado “em sistemas e em como a mudança acontece”. É ainda consultor, professor na Universidade de Oxford e “escritor a tempo inteiro”. Antes, passou 11 anos na AT&T e mais 12 anos na Shell. E é o orador principal do Encontro Nacional de Inovação que a COTEC promove este ano em Matosinhos, no próximo dia 16 de maio.

“É preciso compreender o que é, afinal, a inovação. Muitos consultores e académicos escrevem sobre como se faz melhor inovação, mas o que é isso?”, questiona Roland Kupers, em conversa com o ECO. Para responder à pergunta que também dá título a este artigo, faz o que fazem muitos outros escritores — recorre a um livro: The Nature of Technology, de Bryan Arthur, “um dos fundadores do Santa Fe Institute, onde a ciência da complexidade nasceu há quarenta anos”. O livro, diz Kupers, parte do pressuposto de que é “um erro” ver a inovação apenas como fazer algo novo.

"Muitos consultores e académicos escrevem sobre como se faz melhor inovação, mas o que é isso?”

Roland Kupers

Académico, professor na Universidade de Oxford

Então, se não é fazer algo novo, o que é? Para Kupers, inovação é a “recombinação de coisas que já existem, de uma forma nova”. A partir daqui, abre-se um novo leque de conclusões. “Significa que, se queremos inovar, temos de ter acesso a muitas ideias que já existem e temos de ter a capacidade de as recombinar de forma diferente”, explica. Por isso é que, em matéria de inovação, “é incrivelmente importante ter estruturas colaborativas” e “encontrar formas de entrar em clusters e em parcerias com universidades”, por exemplo. No fim do dia, tem de haver uma mais-valia nisso.

Kupers sabe do que fala. Em 2012, reuniu dez presidentes executivos de empresas multinacionais num bar em Davos, um projeto colaborativo que pôs uma dezena de gigantes a trabalhar em conjunto. Seria possível fazer o mesmo com pequenas e médias empresas (PME)? O autor acredita que sim: “Acho que podem. Seria bastante diferente. Mas, por exemplo, uma das coisas de que vou falar é a disciplina de fazer cenários como uma forma de explorar o futuro. É uma metodologia posta em prática por governos e empresas. Para PME individuais isto não é possível, porque não têm o staff ou os recursos para o fazer. Ainda assim, é possível imaginar que, coletivamente, seja a COTEC ou outra [entidade], faça um exercício de cenários futuros com múltiplas PME a partilharem visões de futuro”, indica.

A pergunta não foi inocente. Num Portugal em que mais de 99% do tecido empresarial é composto por PME, parece difícil imaginar várias destas empresas, algumas concorrentes e de setores completamente diferentes, a trabalharem em conjunto por mais e melhor inovação. Mas é também nesta altura que Roland Kupers deixa um alerta: essa inovação, essa novidade, é quase sempre trazida para cima da mesa por novas empresas. Se há um novo produto ou serviço, Kupers considera que “deviam já existir empresas” para o comercializar, “em vez de se criarem novas empresas ou aparecerem startups que são criadas à volta dessa novidade”. São “as mesmas pessoas” a criarem essas novas empresas, recorda.

O tema do encontro da COTEC deste ano é “Inventar o Futuro”. Sobre isto, perguntamos ainda a Kupers se as empresas estão a inventar o futuro, ou é o contrário. O autor responde que “as empresas existentes contribuem claramente para o futuro”, mas reitera a ideia de que, na “maioria das vezes, são as empresas novas e não as existentes”. “Na revolução IT [tecnologias da informação], a maioria das empresas desapareceu e novas tomaram o seu lugar. Na transição energética, estamos à espera de que aconteça o mesmo”, prevê.

[Inovação é a] recombinação de coisas que já existem, de uma forma nova. Se queremos inovar, temos de ter acesso a muitas ideias que já existem e temos de ter a capacidade de as recombinar de forma diferente.

Roland Kupers

Académico, professor na Universidade de Oxford

As empresas não inovam. Porquê?

Roland Kupers é perentório: a generalidade das empresas existentes, principalmente as grandes empresas, não são capazes de inovar — ou seja, não tem capacidade de pegar em ideias existentes e de as recombinar em algo novo. Desafiado a explicar o fenómeno, o académico indica: “As empresas [grandes] não estão programadas para inovar. O que acontece é que a concorrência força as empresas a serem extremamente eficientes. E a eficiência chega à custa da capacidade de adaptação. Se querem ser inovadoras e capazes de se adaptar, não podem ser altamente eficientes. E as empresas têm de ser eficientes, pois têm de sobreviver e de fazer dinheiro e tudo isso.” É uma pescadinha de rabo na boca. E, na maioria dos casos, o que as grandes empresas podem fazer é adquirir a inovação desenvolvida pelas menores.

"As empresas [grandes] não estão programadas para inovar. O que acontece é que a concorrência força as empresas a serem extremamente eficientes. E a eficiência chega à custa da capacidade de adaptação.”

Roland Kupers

Académico, professor na Universidade de Oxford

Sobre o tema, a COTEC vai lançar novos dados para o debate. Em Matosinhos, irá apresentar um estudo onde mostra boas razões para as empresas apostarem em inovação. Como Jorge Portugal, o diretor-geral da associação, já tinha avançado ao ECO, trata-se de um trabalho “inédito” em que “se demonstra que as empresas inovadoras conseguem um desempenho empresarial superior”. Nomeadamente, “são, em média, maiores e conseguem ter maior eficiência sobre a utilização dos seus ativos; e são maiores empregadores e pagam melhores salários”, referiu. Por sua vez, Roland Kupers dá como importante a capacidade de inovação, acima de tudo devido ao futuro incerto e ao mundo cada vez mais turbulento.

Vejamos: “Existem todas as indicações de que o mundo à nossa volta está a ficar cada vez mais turbulento. Ou seja, mais mudanças rápidas, mais incerteza do que alguma vez houve. E isso acontece por vários motivos: existem mais pessoas, estão mais ricas e estamos basicamente a correr contra a capacidade de carga do mundo natural. Essas três coisas, juntas, criam um mundo muito turbulento, com surpresas desagradáveis e algumas agradáveis”, remata Kupers. E lembra: “os últimos 25 anos foram relativamente suaves comparativamente com os próximos 25 anos. É extraordinariamente importante para as empresas serem ágeis e serem capazes de navegar na crescente incerteza. Portanto, têm de desenvolver as capacidades de adaptação”, defende.

"Os últimos 25 anos foram relativamente suaves comparativamente com os próximos 25 anos.”

Roland Kupers

Académico, professor na Universidade de Oxford

O autor de A Essência dos Cenários é o orador principal do Encontro Nacional de Inovação, a decorrer no CEiiA, em Matosinhos, a 16 de maio. “Vou falar sobre a natureza da inovação: o que é e como se pode fazer. Vou também falar do porquê de o futuro ser mais incerto do que o passado. Essencialmente, a questão fica: como fazer inovação num futuro incerto? E, depois, vou dar algumas sugestões sobre como na colaboração entre PME, por exemplo fazendo cenários, as empresas podem ser mais inovadoras e navegar na incerteza do futuro. Ou seja, três elementos: porque é que o futuro é incerto, o que é a inovação e algumas sugestões sobre inovar em incerteza”, desvenda.

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