Ensinar o valor do dinheiro às crianças: um guia por idades

No dia em que se comemora o "Dia Mundial da Criança", o ECO recorda a importância de os pais ajudarem os filhos a tornarem-se adultos financeiramente responsáveis. Saiba o que ensinar em cada idade.

A educação financeira dos mais pequenos não é um tema menor nem tão pouco uma responsabilidade que se esgota na escola, apesar do crescente papel que estas começam a ter neste âmbito, em Portugal. Nos pais está grande parte da responsabilidade por conduzir os mais jovens rumo a uma vida de adultos financeiramente responsáveis. Tal como diz a sabedoria popular: “É de pequenino que se torce o pepino”. O ditado também se aplica na transmissão aos mais novos da importância do dinheiro e da sua sábia gestão.

Na data em que se celebra o “Dia Mundial da Criança”, o ECO também pensou nos pais. Para tal, reuniu alguns dos principais conceitos, mensagens mais importantes, e ferramentas que estes podem e devem transmitir aos seus filhos de forma a ajudá-los a crescerem e tornarem-se bons gestores das suas finanças pessoais. Saiba o que é mais importante transmitir em cada idade e que ferramentas podem ser usadas na difícil missão da educação financeira dos mais jovens.

0 anos – Hora de começar uma poupança

Nesta idade, a responsabilidade está totalmente nas mãos dos pais. Aquando do nascimento, ou ainda antes, é uma boa altura para começar a traçar o percurso financeiro da criança. A abertura de uma conta bancária, onde colocar o valor amealhado em prendas recebidas por altura do nascimento da criança, pode ser o primeiro passo nesse sentido. Depois basta ir alimentando aos poucos essa poupança, com quantias pequenas, o equivalente a um euro por dia ou por semana, por exemplo. Um euro por dia, corresponde a 365 euros ao fim de um ano. Ao fim de 18 anos, já são mais de 6.500 euros de poupança acumulada. Se acrescentarmos os juros, mesmo que sejam baixos, esse valor é ainda superior.

Um dia, quando o seu rebento começar a ganhar asas, essa reserva financeira pode vir a ser muito útil, seja para pagar os estudos superiores, fazer uma viagem de finalistas ou comprar o primeiro carro.

Os bancos nacionais dispõem de diversas contas poupança específicas para o universo dos mais pequenos. Este tipo de aplicações estão disponíveis a partir de montantes baixos, habitualmente entre 25 e 100 euros, com reforços programados, ou não, também a partir de valores baixos.

Dos 2 aos 5 anos – Toca a brincar ao “faz de conta”

Os especialistas defendem que os primeiros passos da educação financeira das crianças devem ser dados a partir dos dois anos de idade. Nessa altura, os mais novos absorvem tudo e tendem a imitar os comportamentos dos pais, razão suficiente para começar a transmitir-lhes antes de mais a questão dos valores e dos comportamentos. Ou seja, explicar-lhes a diferença entre aquilo que querem e o que efetivamente podem ter. Mas também para pedir à criança que escolha uma de entre as inúmeras coisas que quer, de forma a introduzir a noção do respeito pelo orçamento e dos respetivos limites financeiros.

Neste leque de idades, é recomendado o recurso a contos e fábulas como “A Cigarra e a Formiga” para transmitir aos mais novos as noções básicas da importância do dinheiro e da poupança. Entre os 3-4 anos, também se pode introduzir as notas e as moedas, bem como o mealheiro. Uma forma de explicar a diferença entre o valor das diferentes moedas é através de um jogo de identificação devidamente “aplaudido”. A partir dos três anos, também já faz sentido oferecer um mealheiro e dar pontualmente uma moeda de 50 cêntimos ou um euro para a criança lá colocar.

Seja com dinheiro real ou fictício, por que não brincar ainda ao “faz de conta”? Simular uma ida ao supermercado, ao restaurante ou ao cabeleireiro e, no final, efetuar o pagamento e, eventualmente, receber o troco. “A maioria das crianças tem de ser lembrada que após a pretensa refeição é preciso pagar a conta. Mas assim que percebem o conceito ficam muito entusiasmadas com o pagamento que têm de fazer, com o dinheiro fictício, ou com o ato de fazer o troco”, explica Dorothy Singer, investigadora em Yale.

Dos 6 aos 8 anos – Chegou o dia da semanada

Chegada esta idade é a ocasião de a criança passar à ação, e começar a gerir algum dinheiro. Os especialistas consideram que a partir dos seis/sete anos já pode ser atribuída uma semanada, e não uma mesada, já que nessas idades as crianças não têm capacidade para gerir dinheiro num horizonte de tempo mais alargado. Mas deve ser explicado, contudo, que o valor da semanada que é atribuído é uma regalia e não um direito. E lembre-se: as datas para a sua distribuição devem ser respeitadas.

Neste intervalo de idades é também uma boa ocasião para começar a segmentar o dinheiro recebido, quer em prendas de aniversário ou no Natal. Em vez de o colocar no mealheiro ou no banco, pode antes distribuí-lo em três potes com destinos diferenciados: 60% para gastos imediatos, 30% para objetivos de longo prazo e 10% para doar para causas sociais. De preferência esses recipientes devem ser transparentes de forma à criança acompanhar a acumulação de poupança.

Os jogos continuam a ser uma ferramenta útil neste leque de idades, como é o caso do Monopólio. O parque temático Kidzania, tão apreciado pelos mais pequenos, também é uma boa ferramenta de aprendizagem da gestão das finanças. Trata-se de uma cidade à medida dos mais pequenos, onde estes podem “brincar aos adultos” num ambiente bastante realista. Lá podem escolher entre dezenas de profissões diferentes, que são remuneradas com kidZos que podem ser guardados no banco, levantados em ATM “de brincar” ou gastos nos diferentes espaços que compõem o parque.

Dos 9 aos 12 anos — Passar à mesada e à prática

“Mãe, eu quero!”. Quantas vezes os pais já ouviram isso dos filhos? Chegou a hora de a criança discutir a diferença entre “o querer” e o “precisar” e de lhe ser incutida a habilidade para fazer “boas” aquisições. Por isso, quando for fazer compras ao supermercado leve o seu filho consigo, de forma a envolvê-lo no processo de tomada de decisão. Leia com ele os preços dos produtos, comparando as dosagens e as diferenças percentuais de volume face ao preço. Introduza também a noção de preço vs qualidade. Numa semana pode comprar uns cereais de marca conhecida e na outra uns de marca “branca”. Depois discuta as diferenças com o seu filho e decidam juntos se a marca conhecida compensa o dinheiro adicional a pagar.

Face a essa aprendizagem, já começa a fazer sentido transformar a semanada em mesada. Os especialistas consideram que esta passagem deverá acontecer por volta dos 11 anos, idade em que os miúdos já conseguem fazer uma gestão do dinheiro mais dilatada no tempo e aplicar a aprendizagem acumulada em termos de gestão de um orçamento. Relativamente ao valor da mesada a atribuir, não existe uma regra. Para facilitar esse cálculo, junte-se com o seu filho e elaborem uma lista de gastos previstos no dia-a-dia e atribua um valor que seja suportável para a famílias, mas que ao mesmo tempo seja um pouco superior ao necessário para incentivar a poupança.

A mesada pode ser atribuída em dinheiro, mas também pode ser através de um cartão de débito pré-carregado. Estes cartões, disponibilizados pelos bancos, permitem a fixação de limites diários, semanais ou mensais, ajudando a evitar uma incorreta utilização do dinheiro. Ao final de cada semana ou mês, deve rever o extrato juntamente com o seu filho. Ao fazê-lo e, confrontando-o com gastos desadequados, estará também a ensiná-lo a gerir o orçamento.

Dos 13 aos 15 anos – Bolsa, ações, investir? Olhar para o investimento

A adolescência chegou em pleno, bem como a hora de começar a dotar o seu filho de conhecimentos financeiros mais sofisticados. Nesta altura, ele já deve estar a par das mais básicas noções sobre o valor do dinheiro, os bancos, as taxas de juro ou a gestão do dinheiro. A meio da adolescência é o momento certo para para começar a explicar as noções de investimento e dos mercados acionistas.

Explique o que são as ações, as empresas que estão cotadas e como é possível ganhar — ou perder — dinheiro com este tipo de investimentos. Porque não fazer um jogo de simulação? Cada elemento da família escolhe uma empresa na qual investir e, uma vez por semana, por exemplo, anotem a evolução das ações dessa empresa. Discutir como como e porque oscilam os preços das ações vai permitir-lhe introduzir conceitos mais avançados, como os da procura e ad oferta, os resultados das empresas e o seu peso no valor delas, a política económica e até mesmo a (ir)racionalidade do mercado.

Se achar conveniente pode também “dar um salário” ao seu filho pela contribuição para as tarefas familiares que fujam à sua responsabilidade individual. Esta é uma ferramenta útil para que os mais novos compreendam o que um adulto precisa de fazer para merecer o seu salário e, deste modo, aprendam a dar valor ao seu próprio trabalho e ao dinheiro que recebem.

A partir dos 16 anos – Hora de passar o testemunho da gestão da conta

Nesta idade é de esperar que o seu filho já tenha apreendido os principais conceitos e a disciplina necessária para uma gestão responsável do dinheiro e orçamento. Este pode assim ser um bom momento para lhe abrir uma conta bancária em nome dele, caso este ainda não disponha, ou passar-lhe para as mãos o cartão de débito e a gestão da sua própria conta. Ao fazê-lo, estará a dar-lhe autonomia para a gestão do seu dinheiro e a prepará-lo para a vida de adulto que se aproxima a passos largos.

Para além de contas para os mais pequenos, os bancos também disponibilizam contas próprias para juniores. Para além de isentarem comissões de manutenção de conta, também normalmente oferecem a anuidade de cartão de débito. Existem também ofertas de cartões recarregáveis, bem como soluções de poupança específicas.

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