Os sindicatos voltaram todos agora? Há duas razões para isso

  • Marta Santos Silva
  • 3 Junho 2017

As manifestações e greves têm estado a subir de tom com a chegada do calor. Porquê agora? Em parte, porque a economia vai bem, e em parte porque o Orçamento de Estado para 2018 já está à porta.

Este sábado o Porto e Lisboa vão ser palco de duas manifestações convocadas pela CGTP, que se espera serem as maiores multidões em protesto desde que o Executivo de Costa subiu ao poder. O que leva os sindicatos às ruas? De acordo com o dirigente sindical Arménio Carlos, há muitas reivindicações que não estão a ter resposta e o ritmo a que o Governo responde às necessidades dos trabalhadores está a abrandar.

A CGTP espera uma grande adesão às manifestações deste sábado.Paula Nunes / ECO

Esta é uma boa altura para fazer pressão, por duas razões: o Orçamento de Estado está a começar a ser desenhado em grandes linhas nas secretárias dos ministérios, e os números macroeconómicos favoráveis que mostram que Portugal está melhor e que dão mais força aos sindicatos para exigirem vantagens.

E os sindicatos têm saído mais à rua. Entre a Greve Geral da Função Pública, a dos médicos ou a dos trabalhadores do setor metalúrgico, exemplifica Arménio Carlos ao ECO, cada vez mais os trabalhadores estão a manifestar-se. “Começa a esgotar-se um pouco a paciência”, afirma o secretário-geral da CGTP. “Quando depois de tanta disponibilidade para o diálogo se continua sem resultados… É preciso lembrar que atrás de cada trabalhador há sempre uma família”.

Assim, após a manifestação do Dia do Trabalhador, a CGTP convocou duas manifestações para este sábado. Uma delas é em Lisboa, com encontro no Marquês de Pombal e desfile até aos Restauradores, e a outra é no Porto, a partir do Campo 24 de Agosto para a Estação de São Bento, ambas com começo às 15h00.

Orçamento do Estado não volta melhor de Bruxelas

Questionado sobre o timing da manifestação, Arménio Carlos não hesita. “Está-se a preparar o Orçamento de Estado de 2018”, afirma o sindicalista, que quer “resposta em tempo útil às reivindicações”. E ainda deixa um recado sobre o défice: “Queremos que este seja um Orçamento de Estado que, mais do que preocupar-se com estatísticas, se preocupe com as pessoas”.

Não é o único a pensar assim. Mário Nogueira, secretário-geral do sindicato de professores Fenprof, disse em entrevista ao ECO que “é agora que as questões se estão a resolver”. Porquê? “É agora que o Governo está a fazer o chamado esboço do Orçamento de Estado do ano que vem, que depois manda para Bruxelas — e que de Bruxelas, por muito restritivo que seja, já virá a dizer, ‘vamos lá cortar mais um bocadinho'”. Assim, para o sindicalista, este é o momento de fazer exigências — tanto que a Fenprof e a FNE já ameaçam com uma greve em dia de exames. “Ou é agora que nós conseguimos ganhar, dentro daquilo que são as decisões do Governo, ou é mais um adiamento de um ano de problemas que já deviam estar a ter resposta”, afirmou.

O que reivindicam este sábado os sindicatos da central sindical mais ligada ao PCP? Existe um grande leque de reivindicações, tão amplas como a quantidade de profissões e carreiras que os sindicatos abrangem, mas um aumento geral dos salários e uma subida do salário mínimo são pedidos generalizados. A manifestação também serve para pedir um fim da precariedade — em que um trabalhador que cumpre uma necessidade permanente de uma empresa ou serviço não tem um vínculo igualmente duradouro, estando numa situação de incerteza e insegurança — e a reposição da idade da reforma nos 65 anos, com acesso sem penalizações à reforma após 40 anos de descontos.

Se a economia cresce, “é o momento certo”

Os valores do crescimento económico estão bons — tão bons que surpreendem — e Mário Centeno já antevê ainda mais no próximo trimestre, a apontar para os 3%. O desemprego desce sucessivamente para quase tocar em mínimos da década, e o défice orçamental caiu para 2%, o valor mais baixo da história democrática portuguesa. Com a economia a crescer tanto, os sindicatos veem abertas para poderem exigir mais.

“O crescimento económico tem de estar diretamente associado à distribuição da riqueza e ao aumento da qualidade de vida”, afirmou Arménio Carlos. “É preciso outra polícia fiscal, progressividade nos escalões do IRS, aumentar os impostos sobre o capital…”

As manifestações sindicais no Porto e em Lisboa servem para aproveitar este momento, que os sindicatos veem não só como o adequado — para influenciar e pressionar os esboços iniciais do Orçamento do ano que vem — como também o favorável — graças à economia que melhora. “Num quadro em que a economia está a crescer, é o momento certo para responder aos interesses dos trabalhadores”, conclui Arménio Carlos.

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