Fitch: Austeridade está morta… mas não devia

  • Juliana Nogueira Santos
  • 20 Julho 2017

Numa altura em que os países estão a aliviar o cinto, o aviso vem do responsável global pelos ratings dos países soberanos da Fitch. E o motivo principal é a dívida.

Para James McCormack, as implicações económicas da alta dívida soberana não podem ser ignoradas para sempre.Sebastian Posingis/Bloomberg News

A austeridade está morta, mas, para os analistas da Fitch, esta não será altura certa para a enterrar. Numa nota publicada na plataforma Medium, James McCormack, responsável global pelos ratings dos países soberanos, afirma que as políticas fiscais estão a seguir o caminho contrário do que deveriam estar a seguir, mesmo que haja um consenso internacional acerca disso.

Para James McCormack, as implicações económicas da alta dívida soberana não podem ser ignoradas para sempre.”Tal como as políticas fiscais estavam a ser apertadas quando as condições económicas cíclicas pediam um alívio, agora estão a ser aliviadas quando as condições pedem um aperto”, justifica McCormack. Para o analista, os governantes estão a “priorizar grandes considerações políticas sobre prudência fiscal”.

"Até agora, estas decisões estão a ser adiadas no campo político. Mas as implicações económicas da alta divida soberana não podem ser ignoradas para sempre.”

James McCormack

Na base disto estará a popularidade dos ideais populistas, que ainda que não tenham levado a melhor em países como a Holanda e França, “estão a ser absorvidos por agendas políticas e económicas mais convencionais”. Daí partem decisões como os estímulos ao crescimento económico e o alívio fiscal que têm apenas consequências a curto prazo.

Austeridade não era necessária em 2008

Para McCormack, a altura em que o consumo deveria ter sido incentivado e as políticas fiscais deveriam ter sido mais leves teria sido logo depois da crise financeira de 2008, numa altura em que “o crescimento se mantinha abaixo dos 2%” e tudo apontava para que “o emprego fosse lento a recuperar.” O bom exemplo, para o analista, foi o Japão, que em 2013 aliviou a sua política fiscal, enquanto os restantes países soberanos se cingiam à austeridade.

"Tal como as políticas fiscais estavam a ser apertadas quando as condições económicas cíclicas pediam um alívio, agora estão a ser aliviadas quando as condições pedem um aperto.”

James McCormack

Responsável pelo rating dos países soberanos da Fitch

Agora, com o PIB e a inflação a avançarem e crescimento económico global a apontar para máximos de 2010, o exemplo para o analista da Fitch é o Reino Unido que, no seguimento da saída da União Europeia, “será o único [país] a preparar-se para apertar as suas políticas”. E qual o motivo principal? A dívida.

Atenção à dívida

Com o analista a definir que a principal preocupação dos governantes é “assegurar que os rácios PIB-dívida são sustentáveis”, fica esquecida a possibilidade de existirem desvios na dívida pública — que, em alguns casos, já deixou de ser possibilidade e é a realidade. “Os níveis da dívida soberana em muitas economias avançadas estão desconfortavelmente altos, por isso seria prudente os governantes discutirem estratégias para os fazerem descer”, escreve o analista da agência de rating norte-americana.

"Qualquer aumento de impostos ou corte na despesa têm de ser projetados excecionalmente bem — talvez impossivelmente bem — para que os líderes evitem uma repercussão populista.”

James McCormack

Consolidar-se-ia assim uma mudança de paradigma, ao dar prioridade às implicações económicas a longo prazo. “Até agora, estas decisões estão a ser adiadas no campo político. Mas as implicações económicas da alta dívida soberana não podem ser ignoradas para sempre“, continua.

Enquanto tal não acontece, McCormack alerta para o facto de “qualquer aumento de impostos ou corte na despesa têm de ser projetados excecionalmente bem — talvez impossivelmente bem — para que os líderes evitem uma repercussão populista”.

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