Numa economia em crise, já nem as kinguilas têm dólares

  • Rita Atalaia
  • 22 Agosto 2017

Kinguilas, roboteiros ou zungueiros. São os vários nomes dados às vendedoras de moedas nas ruas de Luanda. Um negócio que já não é rentável pela escassez de kwanzas e dólares neste mercado paralelo.

Kinguilas, roboteiros ou zungueiros. São nomes diferentes para identificar o mesmo: são pessoas que se dedicam ao negócio das moedas na rua, o chamado mercado informal. Em Angola, com o país em crise devido à queda do petróleo que fez afundar a economia, arrasando o valor da divisa do país, o kwanza, o negócio das kinguilas prosperou: o dólar chegou a valer quase quatro vezes mais que a divisa angolana nas ruas. Mas já nem o mercado negro consegue resistir. Não há dólares, nem kwanzas, reflexo das restrições de capital.

Angola é um dos países fortemente dependentes da evolução do petróleo. O “ouro negro” corresponde a 30% do PIB, a 50% das receitas públicas e 95% das exportações totais. Por isso, a quebra dos preços da matéria-prima para os 50 dólares acabou por pressionar a economia, arrastando a moeda nacional para mínimos. O Banco Nacional de Angola (BNA) permitiu que a divisa desvalorizasse perto de 20% face ao dólar nos últimos 12 meses. Neste momento, são precisos 166 kwanzas para comprar um dólar, segundo a taxa de câmbio oficial. E é possível que esta desvalorização continue, sobretudo depois das eleições de 23 de agosto.

Precisa de 166 kwanzas para comprar um dólar

O governador do Banco Nacional de Angola garantiu que o banco central não vai considerar desvalorizar ainda mais a divisa ou fazer alterações ao regime cambial. Segundo a Reuters, Valter Filipe disse que a estabilidade do sistema financeiro depende do controlo das taxas de juro e do abrandamento da inflação, que acelerou mais de 40%. E condena o mercado paralelo de venda de dinheiro, feito pelas kinguilas. Não podemos ter, no nosso país, determinadas ruas que definem a referência do preço, onde se vendem dólares ou euros. Não podemos ter este nível de fluxo financeiro no mercado informal, que tem um grande impacto sobre o sistema financeiro.”

Não podemos ter, no nosso país, determinadas ruas que definem a referência do preço, onde se vendem dólares ou euros. Não podemos ter este nível de fluxo financeiro no mercado informal, que tem um grande impacto sobre o sistema financeiro.

Valter Filipe

Governador do Banco Nacional de Angola

Há um mercado de venda de dinheiro, que acontece em plena luz do dia nas ruas de Angola e que ganhou força à medida que o kwanza perdeu o brilho. No mercado paralelo, são necessários 390 kwanzas para comprar um dólar. A moeda norte-americana está, por isso, a ser “transacionada” ao dobro da taxa de câmbio oficial. Isto num cenário em que as casas de câmbio praticamente não vendem dólares e o envio de remessas para o estrangeiro por transferência bancária apresenta vários constrangimentos, nomeadamente atrasados nas autorizações do BNA.

Na origem das dificuldades está a crise económica, financeira e cambial que afeta Angola, provocada pela quebra na cotação do barril de crude no mercado internacional, o que fez reduzir para menos de metade as receitas fiscais com a exportação de petróleo. Como consequência, os dólares começaram a desaparecer. Em novembro, o banco central começou a limitar o acesso aos dólares, restringindo o montante que disponibilizava aos bancos comerciais.

Sem dólares, os bancos comerciais começaram a limitar os levantamentos ao balcão, mesmo de contas em moeda estrangeira, tornado o mercado de rua como única alternativa. Mas nem este negócio das kinguilas é tão rentável como antes. Não há kwanzas nem dólares nas ruas, atirando estas cambistas do mercado negro para outros negócios obscuros. E a cotação não oficial está estabilizada. As taxas de câmbio tocaram quase os 600 kwanzas por cada dólar em agosto e julho do ano passado, depois de máximos de 630 kwanzas em junho, face à falta de dólares nos bancos. Agora estão a a pouco mais de metade.

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