Isabel dos Santos cá e 5,5 mil empresas portuguesas lá

Se Portugal investe cada vez menos em Angola, os angolanos reforçam o poder por cá. Da banca às telecoms, o capital angolano assume posições de relevo nalgumas das maiores empresas portuguesas.

“De colonizador a colonizado”. É desta forma que, num artigo publicado esta terça-feira, o New York Times vê a relação entre Portugal e Angola. A análise do jornal norte-americano vai mais longe e classifica Portugal como “uma máquina de lavar dinheiro” angolano, mas o comentário inicial é um bom resumo da estratégia que tem sido seguida pela família de José Eduardo dos Santos em Portugal. Nos últimos anos, sobretudo através de Isabel dos Santos, o capital angolano assumiu posições de relevo nalgumas das maiores e mais importantes empresas portuguesas.

Olhando para os dados oficiais do investimento direto estrangeiro (IDE), a balança continua a pender para o lado de Portugal, que responde por quase 7% do investimento direto estrangeiro feito em Angola, enquanto o investimento angolano representa pouco mais de 1% dos capitais estrangeiros investidos em Portugal. Mas a dinâmica desta relação tem vindo a mudar.

Se Portugal está a investir cada vez menos em Angola, os angolanos investem cada vez mais por cá, ainda que o ritmo de crescimento deste investimento tenha abrandado desde que o país foi abalado pela crise do petróleo. No final do primeiro semestre deste ano, segundo dados do Banco de Portugal, o investimento direto feito por Angola em Portugal ultrapassava os 1.757 milhões de euros, mais 3,2% do que o stock registado no final de 2015.

É preciso ressalvar que estes dados não são suficientes para refletir a realidade do investimento angolano em Portugal, já que não contabilizam operações feitas através de empresas que, embora sejam controladas por angolanos, têm sede noutros países. Desse modo, muitos dos maiores investimentos feitos por Isabel do Santos em Portugal não entram nestas contas, mas, na verdade, não é só em Angola que a família dos Santos controla boa parte dos setores estratégicos. Por cá, direta ou indiretamente, a filha de José Eduardo dos Santos tem vindo a aumentar o poder em áreas como a banca, a energia ou as telecomunicações.

Na banca, a maior participação é no EuroBIC (antigo Banco BIC Portugal), onde Isabel dos Santos detém, em nome próprio, 42,5% do capital. No BCP, através da petrolífera estatal angolana Sonangol, de que é presidente, Isabel dos Santos controla 14,87% do banco. Esta posição poderá ser reforçada em breve, já que, depois da entrada da Fosun no capital do banco português, o Banco Central Europeu (BCE) deu à Sonangol até ao final deste ano para superar a fasquia dos 20% de capital. Até recentemente, a empresária detinha ainda, através da holding Santoro, 18,6% do BPI, mas deixou de ter qualquer posição neste banco português depois da OPA lançada pelo CaixaBank.

Na área da energia, Angola também assume uma posição relevante na Galp. A petrolífera portuguesa é controlada em 33,34% pela Amorim Energia, que, por sua vez, é detida em 45% pela Esperaza Holding, veículo com sede em Amesterdão que é controlado pela Sonangol. Isabel dos Santos controla ainda 72,62% da Efacec, através do veículo Winterfell, empresa registada em Malta.

Já nas telecomunicações, a maior aposta é na Nos, onde, através da ZOPT, Isabel dos Santos controla 52,15% da operadora portuguesa. A ZOPT, por sua vez, é detida pela Unitel Internacional (do grupo da operadora angolana também detida por Isabel dos Santos, sedeada na Holanda) e pela Kento (com sede em Malta).

Cada vez menos capital português em Angola

Se Angola tem reforçado a presença em Portugal, o inverso não tem acontecido. Não só há cada vez menos empresas portuguesas a exportarem para Angola, como o montante investido por Portugal naquele país é cada vez menor. No final do primeiro semestre, Portugal tinha investidos 3.693 milhões de euros (stock) em Angola, uma quebra de 20,5% face ao final de 2014, quando o investimento em Angola estava em máximos.

A análise aos dados do comércio internacional também permite fazer um bom retrato desta mudança de tendência. No final do ano passado, 5.515 empresas portuguesas exportavam para Angola, um número muito aquém das 8.821 que se registavam em 2012. Em 2016, Portugal exportou um total de 1.500 milhões de euros para Angola, pouco mais de metade do que tinha exportado quatro anos antes.

Este é o reflexo de dois fenómenos: por um lado, nos anos da troika, com a economia estrangulada, as empresas portuguesas viram-se obrigadas a encontrar destinos alternativos e tiveram na economia angolana, que disparava à boleia do petróleo, um refúgio de dinheiro fácil. Depois da crise financeira, a Europa voltou a ser uma opção para as empresas portuguesas, ao mesmo tempo que o Médio Oriente e a América se assumem como novas oportunidades. As exportações para os Estados Unidos, por exemplo, dispararam 32% entre 2012 e 2016. O número de empresas exportadoras aumentou em 35%.

Por outro lado, a queda a pique dos preços do petróleo deixou os bancos angolanos sem divisas e as empresas estrangeiras que estavam no país foram deixando de ter como pagar a clientes e fornecedores, acabando por reduzir drasticamente a atividade em Angola. É o caso, por exemplo, de empresas como a Mota-Engil, que tem atividade em Angola há 70 anos e já chegou a ter 700 trabalhadores no país. Hoje, conta com menos de 400 trabalhadores em Angola e o volume de negócios da construtora portuguesa em África caiu em 33% entre 2014 e 2016, para 708 milhões de euros, uma quebra que a empresa justifica com “a degradação da envolvente macroeconómica em África, principalmente em Angola e em Moçambique”.

Há, ainda assim, empresas portuguesas que têm vindo a aumentar a aposta em Angola, apesar de reconhecerem os constrangimentos resultantes da crise no país. Veja-se a Sumol+Compal, que, no ano passado, investiu 47 milhões de euros numa fábrica na zona do Bom Jesus, em Luanda. “Temos noção que há uma crise que causa aqui vários constrangimentos, até mesmo ao nível da procura, devido ao poder de compra reduzido das pessoas. Ainda assim, acreditamos que temos aqui oportunidades grandes, diria que no médio prazo o futuro é promissor”, disse recentemente António Casanova, administrador da Sumol+Compal em Angola.

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