Minar moeda digital? Em Portugal já esgotaram as picaretas

  • Ana Batalha Oliveira
  • 16 Setembro 2017

Por todo o mundo, incluindo em Portugal, a produção ou "mining" da moeda digital Ethereum está a crescer exponencialmente. Tanto, que já esgotaram as placas gráficas que potenciam a produção

Já deve ter ouvido falar da bitcoin, a moeda digital do momento. Contudo, esta não é a única moeda digital a fazer furor. A Ethereum captou a atenção dos mais entendidos em tecnologia e já conseguiu esgotar os stocks de placas gráficas que potenciam a sua produção. Um pouco por todo o mundo, incluindo em Portugal.

A febre das moedas digitais teve um novo pico. Assim que os mais entendidos descobriram que quatro placas gráficas — a RX 470, RX 480, RX 570 e RX 580 — eram as melhores para produzir a moeda digital Ethereum, a procura disparou “dez ou vinte vezes”. “É difícil precisar”, diz a MSI, uma das marcas que vende estes componentes para computadores. Não existiu capacidade de produção para acompanhar o aumento da procura, pelo que as gráficas se têm mantido esgotadas durante meses e “estima-se que [o período de escassez] dure mais uns quantos“, informa a MSI Iberia.

Um boom generalizado que também se fez notar em Portugal. “Tivemos de restringir as compras a duas unidades por pessoa, porque havia clientes a querer comprar vinte ou trinta de uma vez”, informa a PcDiga, uma loja portuguesa especializada em componentes informáticos. “Mais houvesse e eram vendidas”, garante um funcionário. A PcDiga vende sobretudo para o mercado nacional, mas uma das maiores encomendas (vinte gráficas) chegou por email, vinda da Irlanda, refletindo a escassez geral destes equipamentos.

A MSI Iberia espera um decréscimo da procura em breve porque “quanto mais pessoas há a minar [produzir], mais difícil é obter a moeda digital” — logo, vai compensar cada vez menos. O mais comum é fazer-se o mining em fábricas nos países de leste, onde a eletricidade é mais barata, porque uma das maiores despesas é precisamente a eletricidade. Em Portugal a PcDiga tem vendido sobretudo a utilizadores individuais que fazem a produção a partir de casa (basicamente, deixam os sistemas ligados de dia e de noite). O ECO falou com alguns destes miners para perceber o processo e as vantagens que veem nesta atividade.

Tivemos de restringir as compras a duas unidades por pessoa, porque havia clientes a querer comprar vinte ou trinta de uma vez.

Funcionário da PcDiga

Descer à mina

Wilson Mortágua é um jovem que recentemente começou a fazer mining de Ethereum a partir de casa. Tem 25 anos, muita experiência com tecnologias e uma loja de informática. “É basicamente como montar um computador normal”, explica. Juntou seis gráficas a outros componentes, fontes de alimentação com bastante potência, et voilà: moeda pronta a produzir. Complicado? Pode sempre pedir a quem sabe. “Eu mesmo já montei e vendi” conta Wilson. Mas avisa que os custos são bastante mais elevados.

José Brízida, consultor de marketing digital de 23 anos, arranjou ainda outra opção: o cloud mining, que é, de certo modo, alugar equipamento a uma empresa através da internet. O cliente define a moeda que quer produzir e, a partir daí, é a empresa que faz tudo. Contudo, José Brízida diz que “se tivesse o dinheiro para investir, comprava material próprio”. Isto porque, desta forma, não consegue controlar o equipamento, que está sujeito interferências que podem prejudicar os resultados.

Seja qual for o método escolhido, o princípio é o mesmo: os miners estão a ceder processamento em troca da moeda. Ambos estão satisfeitos com os rendimentos que a atividade lhes tem permitido. José Brízida diz que espera um retorno sete a dez vezes superior à quantia que investiu, tendo em conta “o que tem vindo a observar” — isto é, o lucro que lhe tem vindo a cair na carteira virtual. Já Wilson Mortágua, embora satisfeito, tem reticências em relação à valorização da moeda.

"Se tivesse o dinheiro para investir, comprava material próprio.”

José Brízida

Miner de Ethereum na cloud

Jackpot?

Wilson Mortágua já investiu pouco mais de 2.000 euros no equipamento, o “mínimo para um retorno aceitável”, garante. Os técnicos da PcDiga concordam. No entanto, “o investimento devia ter sido maior”, reconhece, pois quando entrou neste mundo das criptomoedas, era mais fácil de gerar Ethereum e o valor era superior: valia aproximadamente 400 dólares ao invés dos atuais 270.

Com seis gráficas de gama média — o caso dos modelos que esgotaram –, Wilson Mortágua consegue agora produzir unidade e meia por mês. “Quando comecei, conseguia fazer três”, conta. Tal como a MSI Iberia indicou, a dificuldade aumenta à medida que cresce o número de mineiros. “Se a moeda valer muito, recebemos muito. Mas se não, pode ter-se prejuízo” explica Wilson. “Muito brevemente será muito pouco produtivo gerar Ethereum, a não ser que o valor aumente absurdamente”, conclui.

Se a moeda valer muito, recebemos muito. Mas se não, pode ter-se prejuízo.

Wilson Mortágua

Miner de Ethereum

O valor de uma moeda digital é difícil de prever. É um ativo volátil, sujeito a grandes oscilações: a famosa bitcoin superou a barreira dos 4.133,4355 dólares em meados de agosto, mas vale perto de 3.500 dólares. Segundo a Coinbase, uma das wallets mais conhecidas (como uma conta bancária, mas para criptomoedas), a Ethereum chegou este ano a registar uma valorização perto 3.000% em relação ao ano passado.

A grande questão, então, é: pode o preço de mercado da Ethereum ultrapassar o da bitcoin? Adam White, o vice-presidente da Coinbase respondeu à Bloomberg que esta “é uma possibilidade”, dada a procura atual. Isto, lembrando que “cada moeda eletrónica tem características que a tornam única” e a Ethereum permite a criação de aplicações e contratos [smart contracts, ou transações que só se processam caso se cumpram certas condições] que não são possíveis com a bitcoin“, despertando o interesse de vários programadores e investidores.

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