“Mercado de capitais deveria ter um papel mais relevante no financiamento da economia”

  • ECO
  • 19 Setembro 2017

Luís Magalhães, CEO da Deloitte, aponta como um dos maiores problemas do mercado financeiro português a preferência das empresas pelo crédito bancário como meio de financiamento.

A Deloitte atribui esta terça-feira os prémios Investor Relations & Governance Awards (IRGA), que pretendem distinguir as boas práticas entre as cotadas portuguesas. O Managing Partner da Deloitte Portugal, Luís Magalhães, respondeu por escrito a algumas perguntas do ECO sobre os prémios e o setor financeiro. O responsável lamenta que Portugal continue “longe dos primeiros lugares, no que diz respeito à competitividade da economia” e defende que o mercado de capitais “deveria ter um papel mais relevante no financiamento da economia”. Luís Magalhães aponta o facto de as empresas continuarem a preferir financiar-se através do recurso ao crédito bancário, em detrimento do mercado de capitais. Uma opção que, na sua opinião, se justifica pela dimensão “familiar” da maior parte das empresas.

A Deloitte já promove os prémios IRGA há 30 edições. Chegamos a um número redondo. Que balanço faz?

Ao longo destes 30 anos de IRG Awards, tanto o prémio como o mercado sofreram muitas alterações. Na primeira edição, tínhamos apenas a categoria de Melhor Relatório e Contas, para a qual concorriam todas as empresas. Rapidamente percebemos que a realidade das instituições financeiras era muito diferente das não financeiras, e acabámos por separar as duas categorias. Temos procurado que os IRG Awards continuem a ser relevantes para o mercado, valorizando outras componentes que consideramos estratégicas para o desenvolvimento do país, como o investimento estrangeiro, o empreendedorismo e a inovação. Para tal, temos introduzido novas categorias e retirado outras que deixam de ter atualidade.

Sentimos que as empresas, as instituições financeiras e os seus atores principais, nomeadamente os seus dirigentes e quadros superiores, incorporam cada vez mais rigor e qualidade na sua ação. As empresas são cada vez mais escrutinadas e obrigadas a cumprir condições regulatórias extremamente exigentes, colocando importantes desafios a quem as lidera.

"As empresas são cada vez mais escrutinadas e obrigadas a cumprir condições regulatórias extremamente exigentes, colocando importantes desafios a quem as lidera.”

Luís Magalhães

Managing Partner da Deloitte

A comemoração dos 30 anos do IRG Awards é um momento muito importante para a Deloitte. Há 30 anos que distinguimos os líderes e as organizações que mais se destacam no setor empresarial português e promovemos o rigor, a transparência e a excelência neste setor. Continuamos empenhados neste propósito.

O IRGA conta com um painel de luxo para o júri, com personalidades conhecidas ligadas ao mundo da economia. Qual a importância da escolha destes elementos?

O júri é um elemento fulcral para o sucesso e credibilidade do IRG Awards. Acreditamos que só um painel composto por pessoas de reconhecida competência e idoneidade, com experiência relevante no mercado financeiro, pode cumprir a missão de garantir com rigor e transparência todos os procedimentos e deliberar sobre os vencedores. Aproveitamos esta data comemorativa para um conjunto de iniciativas paralelas uma das quais contou com a presença de Mr. Herman Van Rompuy, uma personalidade de relevo que contribui para uma discussão em torno das perspetivas e tendências que afetam a Europa, o País e, naturalmente, as nossas empresas.

Os prémios IRGA pretendem promover mais transparência no mercado, incentivando as empresas às boas práticas. Considera que já se atingiram níveis de transparência razoáveis em Portugal?

O mercado está consciente que o rigor e a transparência para com os investidores é fundamental. Os acontecimentos mais recentes reforçam essa exigência. Os stakeholders e os shareholders exigem total clareza, total transparência. O grau de sensibilização para os temas de Investor Relations e de boas práticas dos agentes económicos nacionais é muito elevado. Temos hoje, felizmente, diversos exemplos de excelência, e são esses que temos vindo a destacar e a promover.

Por outro lado, o atual enquadramento legal, que agrega um conjunto de regulamentos e disposições que obrigam as empresas a divulgar a informação para o mercado, permitiu que os níveis de transparência hoje sejam muito mais elevados. Contudo, estas exigências, em particular sobre as empresas cotadas, não devem limitar a ação das organizações, com risco de estas se afastarem do mercado de capitais.

Quais os maiores problemas que deteta no mercado financeiro português?

Atualmente, ainda sentimos a necessidade de um mercado de capitais mais ativo. Apesar de termos um sistema bancário que tem passado por fragilidades evidentes, à semelhança do que acontece noutras geografias, o mercado de capitais poderia e deveria ter um papel mais relevante no financiamento da economia, das empresas. O que é facto é que não é isso que acontece no mercado português. Continuamos a ter uma grande falta de tradição no recurso a esta fonte de financiamento, nomeadamente nas empresas, que preferem designadamente o crédito bancário.

O mercado de capitais poderia e deveria ter um papel mais relevante no financiamento da economia, das empresas.

Luís Magalhães

Managing Partner da Deloitte

Talvez se atribua também ao facto do tecido empresarial português ser e manter-se de origem familiar. O recurso ao mercado de capitais não é uma opção evidente. Acresce a retirada de empresas da Bolsa por via de fusões e aquisições. Banif, Tranquilidade, Brisa são apenas alguns exemplos. Um dos grandes propósitos do IRG Awards é precisamente promover uma cultura de mercado para que as empresas possam estimular o seu financiamento no mercado de capitais.

O facto do tecido empresarial português ser maioritariamente composto por PME e o estar a perder cada vez mais empresas, são obstáculos à transparência?

A transparência não está relacionada com a dimensão das empresas. É certo que as empresas cotadas em bolsa estão obrigadas a reports mais profundos e complexos, mas todas as organizações devem pautar a sua atividade pelos valores de rigor e transparência. Devem ser verdadeiras com os seus stakeholders e crescer na base desse princípio.

De que forma o período de crise económica influenciou as políticas financeiras das empresas portuguesas?

Este período de maior dificuldade económica travou o investimento e afastou alguns investidores externos. Sem um mercado de capitais forte, que pudesse atuar como fonte alternativa de financiamento à banca, as empresas acabaram por se ressentir e ajustar as suas organizações aos tempos mais exigentes. Mas esta crise não foi exclusiva do nosso país. Enquanto parte de um sistema económico global, acabámos por sofrer também com os efeitos da recessão da economia mundial, que agravaram os nossos problemas internos.

Numa altura de recuperação económica, as empresas têm menos incentivos ao rigor financeiro?

Pelos sinais do mercado, não acreditamos que os incentivos ao rigor financeiro tenham diminuído. As empresas têm a consciência que, nesta fase de recuperação económica, devem focar-se no rigor e transparência dos processos, da informação, para poderem fazer uma melhor análise à sustentabilidade das suas contas, e para atraírem maior investimento.

Da sua perspetiva, que papel têm os serviços de auditoria na saúde do setor financeiro?

O mercado financeiro funciona com base em informação. O papel do auditor é de garantir que a mesma é verdadeira e objetiva, tendo por base a informação disponível, e elabora sobre ela o seu parecer. Só com informação de qualidade os investidores conseguem interpretar as decisões de gestão e tomar eles próprios as melhores decisões.

O FMI aponta uma “rigidez do mercado laboral, um ambiente regulatório imprevisível e processos judiciais ineficientes” na análise que faz da economia portuguesa. Considera que o Governo português está a criar condições favoráveis ao investimento em Portugal?

Temos tido sinais de que a economia portuguesa está a recuperar, e esses resultados positivos têm sido reconhecidos por várias entidades externas. Contudo, continuamos longe dos primeiros lugares no que diz respeito à competitividade da nossa economia. As questões da justiça são um exemplo, mas a instabilidade fiscal, a menor flexibilidade laboral, o ambiente regulatório, em alguns casos excessivo, e o excessivo peso do Estado na economia são também essenciais para nos posicionarmos como um país mais atrativo ao investimento.

"Continuamos longe dos primeiros lugares no que diz respeito à competitividade da nossa economia.”

Luís Magalhães

Managing Partner da Deloitte

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