Reciclagem tem 20 anos. Hoje reciclamos 12 elefantes por hora

Nos vinte anos da Sociedade Ponto Verde, recuamos no tempo até aos primeiros contentores de reciclagem. Já foram recicladas 7,5 milhões de toneladas de embalagens. 71% das pessoas já recicla.

O Gervásio demorou exatamente uma hora e doze minutos a aprender a separar as embalagens usadas. E você, de quanto tempo mais é que precisa?”. Esta frase soa-lhe familiar? É provável. Faz parte da campanha “Separar é Fácil”, da Sociedade Ponto Verde, de 2000, onde um chimpanzé, chamado Gervásio, mostrava ser capaz aprender a reciclar e tentava servir de exemplo, numa altura em que a palavra “reciclagem” chegava pela primeira vez às casas dos portugueses.

A Sociedade Ponto Verde (SPV) comemora vinte anos: em duas décadas foram reciclados 7,5 milhões de toneladas de resíduos.

Campanha “Separar é fácil” da Sociedade Ponto Verde, em 2000.

Dezassete anos depois da campanha, parece que a mensagem foi bem recebida, pelo menos pelos 71% que fazem diariamente a separação das suas embalagens. Nestas duas décadas de existência da Sociedade Ponto Verde, o país conseguiu reciclar 7,5 milhões de toneladas de resíduos de embalagens, o equivalente ao peso de três pontes Vasco da Gama.

Ricardo Barata recorda “perfeitamente” a campanha do chimpanzé Gervásio. Nessa altura, com sete anos, não tardou muito até perceber o conceito da palavra “reciclar”, ao mesmo tempo que surgiam os primeiros ecopontos, “aqueles grandes que são colocados em cima do passeio“, conta num vídeo institucional da SPV. Para o estudante de Direito, a reciclagem desempenha um papel fundamental na vida do ser humano, mas o ser humano também desempenha um papel fundamental na reciclagem. “Não há razões para não o fazer, ou se põe num saco ou se põe noutro. A questão é pôr no certo“.

De uma geração mais antiga, Isabel Silva recorda a primeira vez que ouviu falar de reciclagem, na altura em que a palavra “nasceu”. “Há uns anos nem se falava nisso [reciclagem]. Ia tudo para o lixo“, relembra. Nesse tempo só se reciclavam garrafas e a recolha era feita semanalmente. “À quinta-feira tínhamos de pôr um saquinho fora do contentor e durante algum tempo era só o meu saquinho que lá estava” nesse dia, conta.

Há uns anos nem se falava nisso [reciclagem]. Ia tudo para o lixo.

Isabel Silva

“Nos anos 90 não havia qualquer cuidado de tratamento”

A Sociedade Ponto Verde foi criada em 1996 e foi a “primeira entidade gestora a ser criada no país, e a sexta na Europa, para a gestão de um fluxo específico de resíduos, neste caso, o das embalagens”, diz Luís Veiga Martins, diretor geral da SPV. Antes disso, a maioria das autarquias limitava-se a recolher o lixo urbano para depois o colocar em “vazadouros/lixeiras, muitas vezes a céu aberto“. E Luís confirma as lembranças de Inês: “Os primeiros passos na recolha seletiva foram dados com a instalação de vidrões para a separação das embalagens de vidro”.

Hoje, as coisas são bastante diferentes. Não há saquinhos caseiros mas há ecopontos, mais precisamente 43 mil contentores espalhados pelo país. E até esses sofreram uma evolução. Passaram de “grandes e colocados em cima do passeio” para as chamadas “ilhas ecológicas“, que funcionam como contentores subterrâneos. No ano passado, a Câmara de Lisboa avançou com um investimento de 3,8 milhões de euros em mais de 500 contentores subterrâneos para resíduos urbanos. Para além do melhor aspeto estético, tornam-se mais higiénicos pois não libertam odores e têm uma capacidade superior aos contentores tradicionais.

Ilha Ecológica em CascaisCâmara Municipal de Cascais

Nos anos 90 não havia qualquer cuidado de tratamento, quer do ponto de vista do lixo doméstico, quer dos industriais”. Quem o diz é António Simões, da Sovena, a primeira empresa a assinar um contrato com a Sociedade Ponto Verde para redução e separação de lixo com a Sociedade Ponto Verde. O CEO da empresa de azeites e óleo industrial relembra o esforço que foi feito na altura para repensar o tipo de embalagens que havia, de forma a ser possível o processo de reciclagem. “Conseguimos reduzir de nove mil para seis mil toneladas a quantidade de embalagens que colocamos através da Sociedade Ponto Verde“, diz.

Conseguimos reduzir de nove mil para seis mil toneladas a quantidade de embalagens que colocamos através da Sociedade Ponto Verde.

António Guerreiro

Sovena

Educar as pessoas para a reciclagem foi um processo custoso mas com uma elevada taxa de sucesso: sete em cada dez lares já fazem a separação dos seus resíduos. E se, há uns anos, nem sequer se pensava numa alternativa às 311 lixeiras que existiam no país, nos anos 90 as coisas viriam a mudar. “Uma das primeiras grandes dificuldades foi a consciencialização pública para a problemática dos resíduos“, explica José Guerreira, ex-secretário de Estado do Ambiente.

“Nessa altura ainda estávamos muito na lógica de ‘o que fazer com os resíduos’ e não na lógica atual, que é de economia circular e valorização dos resíduos”, diz Augusto Mateus, ex-ministro da Economia num dos vídeos institucionais da SPV. “Estamos antes do ponto crítico de uma maratona, mas já com um percurso feito e a precisar de fazer muito mais”, acrescenta. Paulo Alexandre Ferreira, Secretário de Estado e Adjunto do Comércio, afirma que “em Portugal há um caminho que já foi percorrido na questão da separação dos resíduos, mas 30% das pessoas ainda não o faz” e defende ser fundamental haver essa melhoria e essa consciencialização.

Durante os últimos vinte anos, a Sociedade Ponto Verde investiu 50 milhões de euros em campanhas de sensibilização para a reciclagem, numa altura em que tudo era novo para os portugueses. Com isto, é possível desviar de aterro o equivalente ao peso de 12 elefantes por hora. Há, de facto, um valor associado a este processo de separação do lixo: foram criadas sete mil empresas, cerca de 16 mil postos de trabalho e uma faturação anual de 1,5 milhões de euros, de acordo com as últimas estatísticas do INE referentes a 2016. Para o PIB são encaminhados anualmente 71 milhões de euros.

Campanha “Numa Hora”; Sociedade Ponto Verde, 2013.

Apesar de todo este caminho percorrido até aqui, restam ainda alguns desafios pela frente. Para os próximos anos, o diretor da SPV revela ao ECO que pretendem “trabalhar para o aumento da quantidade de resíduos de embalagens separados e para a redução dos erros de separação“, para que seja possível “maximizar a valorização de resíduos de embalagem através da reciclagem ao menor custo“.

Este verão, a Sociedade Ponto Verde lançou a campanha “Reciclagem, Sempre!”, para apelar aos portugueses que separem as embalagens usadas, independentemente do sítio onde estejam: seja na praia, no café ou num festival.

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