Pedro Pidwell, o gestor de insolvência das grandes empresas: “Ninguém é indiferente ao despedimento de 800 pessoas” na Ricon

O administrador de insolvência da Ricon diz que a preocupação, em todos os processos de insolvência, é "salvaguardar os interesses dos trabalhadores". Mas adianta que faz "o que tem que ser feito".

Quem é Pedro Pidwell, o administrador judicial a quem tem sido atribuído o futuro de algumas das mais mediáticas empresas portuguesas? Construtora Soares da Costa, Finpro, empresa controlada pelo Estado, Banif e Grupo Amorim, ou a Espírito Santo Financial Portugal, Fundação Horácio Roque, Urbanos e, mais recentemente, a Ricon, são algumas das empresas com o seu cunho. Mas o que tem Pidwell de especial para “albergar” no seu escritório, na pacata localidade de Anadia tantos processos famosos?

Licenciado pela Universidade Lusíada do Porto, onde tirou também o mestrado, Pidwell rejeita a ideia de ser o administrador de insolvência com mais processos de grande dimensão. E aponta mesmo Jorge Calvete e Areias Duarte como os líderes desse top. Em entrevista ao ECO, nega “um estatuto especial”, mas reconhece que por via do grande volume de trabalho, que nos últimos tempos tem crescido imenso, o doutoramento, que entretanto começara em Coimbra, pode estar em risco.

Apesar de hoje os administradores de insolvência serem, em muitos casos, nomeados por sorteio, os casos maiores são sempre por indicação. “Estes processos maiores são sempre por indicação”, refere Pidwell que, recentemente, foi apontado para o caso da Ricon. Com um currículo vasto, Pedro Pdiwell reconhece que este “é um processo que dá visibilidade por uma situação infeliz, uma vez que as empresas tiveram mesmo que encerrar, o que levou ao despedimento de 800 pessoas, uma coisa muito pesada, muito grave”.

E como lida um administrador de insolvência com esses processo? Como é que se dorme depois de “carimbar” o despedimento a 800 famílias? Pidwell ajeita-se na cadeira e responde com uma pergunta: “Faz parte do trabalho, não é? É uma coisa que tem que ser feita”.

Apesar de negar momentos de angústia, o administrador reconhece que “a preocupação é sempre salvaguardar, ou defender o mais que for possível os interesses dos trabalhadores”. É por isso que reforça: “quando decidi que devia ser feito o despedimento acautelei o máximo possível que fossem salvaguardados os direitos relativamente ao fundo de desemprego. Foram entregues todos os documentos, houve uma grande articulação com o Instituto de Emprego e Formação Profissional”. O que não impede o desabafo. “Mas, enfim, as pessoas ficam privadas do seu emprego. Vamos ver…”

“Está tudo centralizado numa só pessoa, que sou eu”

“Ninguém é indiferente ao despedimento de 800 pessoas, ao encerramento de quatro fábricas, mais uma rede de lojas mas, na verdade, uma vez decretada a insolvência e frustrada a viabilização das empresas, a alternativa que a lei nos dá é a liquidação. É isso que tem que ser feito”, diz Pidwell, lembrando que o que se segue é um processo moroso. Mas está confiante na salvaguarda dos interesses dos trabalhadores.

O processo de insolvência é todo ele lento, moroso e burocrático. Os credores, entre os quais se incluem os trabalhadores, têm agora de esperar pelo resultado da liquidação e da venda dos ativos. Para Pidwell, há fundadas “expectativas de que os trabalhadores recebam uma parte importante ou a totalidade dos seus créditos”. Mas, adianta, essa “é uma questão que está completamente em aberto”.

A dimensão do grupo Ricon, que tinha quatro fábricas 800 trabalhadores é, per si, complicada. Pidwell está ciente das dificuldades e da responsabilidade que tem sobre os ombros. “Relativamente à Ricon, é um problema muito grave. Havia uma estrutura administrativa que mantinha aquela empresa em funcionamento e que se desagregou em virtude do encerramento. Agora está tudo centralizado numa só pessoa, que sou eu e, portanto, é muito difícil dar resposta com a rapidez e a celeridade que uma empresa normal tem quando está em funcionamento”.

Apesar das dificuldades, a administração da Ricon, presidida por Pedro Silva, tem colaborado. “Tenho tido muita colaboração das várias pessoas que, até a título gracioso, têm facultado a sua colaboração e a sua ajuda aos processos“, admite o gestor de insolvência. “Há a envolvência dos tribunais, da comissão de credores, e ainda podem existir decisões que tenham que ser tomadas no âmbito de uma assembleia de credores. Tramitações que levam o seu tempo”, nota.

Ainda assim, Pedro Pidwell diz que, caso existam interessados no ativos da Ricon, esta é uma decisão que não tem forçosamente de ir a assembleia de credores. A venda pode acontecer mediante a autorização da comissão de credores. A “comissão de credores é um órgão independente, que não está sob alçada nem do tribunal, nem da assembleia, nem do administrador judicial. É evidente que decisões mais delicadas sobre determinados processos podem justificar que seja convocada uma assembleia de credores”.

“Felizmente, as notícias que tenho é que existem alternativas”

E há interessados. Há alternativas para a Ricon. “Felizmente, as notícias que tenho é que existem alternativas“, diz. Alternativas a que não é alheia a boa conjuntura económica que o país atravessa, com o desemprego a descer e, sobretudo, com o bom momento que se vive na indústria têxtil, com os últimos indicadores a darem conta de que 2017 foi mesmo o melhor ano de sempre para o setor.

Números que fazem com que haja grande procura de mão-de-obra especializada. Pidwell diz mesmo que este facto “vai fazer com que, eventualmente, uma parte significativa das pessoas despedidas da Ricon encontre trabalho a breve prazo, pelo menos são essas as informações que o IEFP, através de Isabel Cruz, me tem transmitido. É a pessoa que tem estado a mover o céu e a terra para tornar a coisa o mais suave possível para aquela gente que ficou privada do seu trabalho”.

Na linha da frente está a Valérius, mas há ainda outro interessado, a Sonix. “É verdade que a Valérius está interessada na Ricon e estamos a trabalhar nisso”. E acrescenta: “pelo que julgo saber, a Valérius já esteve envolvida em outros processos semelhantes”. A Valérius “manifestou interesse em explorar um ângulo de entrada no negócio daquele acervo patrimonial. Cada um está a fazer o seu trabalho de casa para ver se é possível no mais curto espaço de tempo. Agora, pergunta-me se há outros interessados? Para além da Valérius, a Sonix também já demonstrou o seu interesse nos ativos da Ricon. Diria que são os dois grandes interessados”.

Questionado sobre se existem outros grupos interessados na Ricon, não ligados ao setor têxtil, o administrador de insolvência desvaloriza completamente a questão. “Não me preocupa muito se eles estão ligados ao setor, o que me interessa é saber se há viabilidade no negócio, se chegamos a acordo e se a comissão de credores ou a assembleia de credores autoriza a venda. Se são ligados ao negócio ou se vão iniciar a ligação ao negócio, para mim é irrelevante”.

Isso quer dizer que a viabilidade futura da empresa não é uma preocupação dos administradores de insolvência? Pidwell reage: “Não é isso que estou a dizer. Claro que me interessa que os investimentos sejam bem-sucedidos e que as empresas sejam viáveis. O que digo é que, em termos de liquidação, para a massa insolvente que vende, a primeira preocupação é chegar a um valor que seja correto e que reúna as condições para ser autorizado”.

De resto, Pidwell volta a frisar que, enquanto administrador judicial, não tem sequer o poder de ser ele a decidir, uma vez que existe a Comissão de Credores. “Se esta não se pronunciar, ou não chegar a uma deliberação, haverá ainda a assembleia de credores — na verdade, são os credores que vão decidir. Eu faço a minha parte, que é a de reunir os elementos necessários para que o negócio esteja em condições de ser feito. A tomada de decisão, sobre o mérito da proposta que vier a ser apresentada e a avaliação do mérito, não é minha. Posso, quanto muito, dar a minha opinião. Mas a decisão é dos credores”.

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