No meio da crise do Programa de Estabilidade, Costa quer repetir geringonça? “Why not?”

  • Cristina Oliveira da Silva
  • 13 Abril 2018

O sucesso do primeiro-ministro também conta com uma boa dose de "sorte", diz a revista The Economist. Costa acredita que o acordo vai sobreviver até às eleições. E depois disso? "Porque não?"

O primeiro-ministro português tem motivos para sorrir. Além do mini boom de startups, do sucesso no futebol e do facto de os políticos portugueses terem conseguido uma série de posições internacionais de topo, a The Economist destaca um outro ponto (acesso condicionado). Acima de tudo, António Costa “é o vencedor de uma aposta política de alto risco”.

A revista destaca “o pequeno milagre no Atlântico”, num artigo cujo título remete para a social-democracia que enfrenta dificuldades em toda a Europa, “exceto Portugal”. O “afável” primeiro-ministro português recebeu o “colunista” com um grande sorriso e, de facto, há motivos para sorrir, nota a revista.

Quando o PS perdeu as eleições para o PSD, em outubro de 2015, a maioria dos observadores esperava que os socialistas apoiassem uma grande aliança ao centro, agora comum na Europa. Mas o que António Costa, “filho de um intelectual comunista de Goa”, fez, foi convencer dois partidos da esquerda dura a apoiar o PS minoritário, “em troca de concessões políticas modestas”, escreve a The Economist, notando que nada disto tinha sido feito antes em Portugal.

“Os novos amigos de Costa”, avança ainda, queriam um perdão de dívida ou sair da zona euro, só para dar alguns exemplos. Os opositores davam seis meses de vida à então apelidada geringonça, o então Presidente da República, Cavaco Silva, ameaçou rejeitar o governo proposto e os credores mostraram receios. Mas, dois anos depois, a geringonça avança e “o céu não caiu”.

Houve reversões nos cortes de salários e pensões, criação de emprego, os investidores estrangeiros estão a “farejar” e o Governo espera equilibrar as contas no próximo ano, nota a revista. Portugal tornou-se um “querido” dos mercados, enquanto diz estar na vanguarda da batalha contra a austeridade.

Em declarações à The Economist, António Costa diz que foi possível mostrar que “há alternativa ao ‘não há alternativa'”, mas nota que “cada país é específico”. E também sugere que grandes coligações favorecem populismos, porque sinalizam aos eleitores que as disputas políticas são redundantes.

Geringonça depois das eleições? “Porque não?”

Costa acredita que o acordo vai sobreviver até às eleições. E depois disso? “Porque não?”, responde.

O sucesso do primeiro-ministro também conta com uma boa dose de “sorte”, diz ainda o artigo, recordando que o cargo foi assumido quando a recuperação de Portugal se fez notar, auxiliada pelo crescimento nos mercados internacionais e ancorada em medidas do Governo anterior. Aponta ainda para outros fatores, como o facto de a imigração, tema quente para muitos partidos de esquerda na Europa, não ser central para os eleitores em Portugal, até porque é a emigração que preocupa o país.

A despesa pública tinha de ser financiada e foi o investimento público o castigado, mas o ministro das Finanças prefere chamar a atenção para outros pontos. E há também receios em torno da dívida portuguesa, o que explica o “foco implacável” de Centeno no défice, continua.

Para a The Economist, tal como isto sugere, “o governo de esquerda de Portugal está a ser bem sucedido em parte porque não é particularmente de esquerda”. Para já, está focado no défice e na dívida, mais do que no investimento e serviços públicos. E um governo de centro-direita faria o mesmo, sublinha a revista.

Assim, apesar das “palavras calorosas” de Costa, a geringonça “vai com certeza provar ser um casamento de conveniência temporário”. E até já se disse que o partido anda a sondar os social-democratas. “A esquerda europeia pode encontrar inspiração em Portugal, mas terá de procurar ideias noutros lados”, conclui o artigo.

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