Como a crise política italiana chega a todo o lado. Até ao seu crédito à habitação

Itália está sem Governo. E arrisca-se a ir para novas eleições, cenário que está a fazer disparar os juros da dívida, afundar a banca e as bolsas. O euro cai, enquanto as Euribor aceleram.

O Movimento 5 Estrelas e a Liga acordaram formar governo, mas não está a ser fácil. Giuseppe Conte desistiu, avançou Carlo Cottarelli, mas tudo indica que o nome não passe no Parlamento, abrindo-se a porta a eleições antecipadas. É um cenário de instabilidade, numa das economias com mais dívida na Zona Euro, que está a provocar um turbilhão nos mercados internacionais. Os juros da dívida são o principal reflexo de um clima de tensão que está a arrasar a banca, arrastando as bolsas. Mas vai mais longe. Chega aos créditos à habitação.

Perante a crise política, os investidores estão a afastar-se do risco italiano. O valor das obrigações emitidas por aquela que é uma das maiores economias do mundo — mas também uma das mais endividadas, com um total de 2,38 biliões de euros –, está a afundar. Assiste-se a uma escalada das taxas de juro em todas as maturidades, com a yield a dois anos a aproximar-se do nível da taxa a cinco. E no prazo a dez anos, a fasquia dos 3% já foi superada. Está em máximos de 2014.

Este cenário trágico nas taxas italianas está a levar os juros da dívida dos restantes países do euro atrás. Espanha sente também a pressão nos juros da dívida, assim como Portugal, que vê a yield associada às obrigações do Tesouro a dez anos nos 2,19%, um nível a que não chegava desde setembro. Em sentido inverso, reflexo da fuga ao risco, as taxas da Alemanha, país considerado refúgio em momentos de alta tensão nos mercados, seguem a cair, para 0,29%.

Quem paga a fatura deste stress na dívida é a banca, tendo em conta a exposição deste setor à dívida soberana. O índice que agrega o setor financeiro italiano recua para mínimos de mais de um ano, registando uma queda de mais de 3,4%, com bancos como o Intesa Sanpaolo e o Unicredit a afundarem quase 5%. Um trambolhão que está a arrastar todo o setor europeu, levando o BCP, em Portugal, a protagonizar a maior queda da sessão. Cai mais de 7%.

Lisboa arrastada pela tensão em Itália

Estas quedas abruptas passam fatura aos índices europeus, com o italiano a ser claramente o mais castigado pelos investidores. O FTSE MIB recua 3,08%, mas o IBEX-35 cede 2,5%, enquanto o PSI-20 cai 2,29%. O Stoxx 600, índice que agrega as 600 maiores cotadas do Velho Continente, recua 1,37% para os 384,49 pontos.

Há dinheiro a sair dos mercados europeus. Enquanto parte “viaja” para a dívida alemã, uma importante “fatia” afasta-se do risco do euro, levando a moeda única a apresentar uma queda de 0,6% para os 1,1552 dólares, o valor mais baixo em dez meses. Eleva, assim, a queda acumulada desde o início deste ano para 3,77%.

Mas o stress não se fica pelos mercados, nem afeta apenas quem tem dinheiro investido. Mesmo quem tem um simples financiamento junto de um banco, arrisca ser castigado por esta tragédia italiana. Isto porque nem mesmo as Euribor escapam ao turbilhão. Apesar de continuarem em “terreno” negativo, fruto da política monetária do Banco Central Europeu, estão a tocar máximos de seis meses.

A taxa a três meses subiu para -0,321%, um máximo de 29 de novembro, enquanto a Euribor a seis meses, a mais utilizada em Portugal nos contratos de crédito para a compra de casa, está nos -0,269%. A 12 meses, a Euribor manteve-se no nível máximo dos últimos seis meses de -0,186%.

Há um movimento de subida que traduz a tensão no mercado interbancário, com os bancos a mostrarem alguma reticência em emprestarem dinheiro entre si e, quando o fazem, a exigirem custos superiores, ainda que negativos. Esta tendência poderá, a manter-se, vir a implicar mais alguns euros na mensalidade dos créditos da casa dos portugueses.

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