Corrupção, fraca capacidade de inovação e pobreza: Chade é o país menos competitivo do mundo

Localizado no centro de África, é um dos países mais pobres e mais corruptos do mundo. O Chade é fraco na capacidade de inovação e no uso das tecnologias de informação.

Num extremo, os Estados Unidos como o país mais competitivo do mundo. No oposto, o Chade. Com cerca de 12 milhões de habitantes, o país africano destaca-se pela pobreza e pela corrupção, e ainda pelas fracas classificações que recebeu no ranking do Fórum Económico Mundial. Liderado há 27 anos pelo mesmo Presidente, os principais pontos fracos do Chade são a capacidade em inovar e o mau uso das tecnologias de informação.

“O Chade é um dos países mais pobres e corruptos do mundo”, diz Francesco Merlini, editor e fotógrafo da agência Prospekt, findada em junho deste ano. De acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas, o Chade é o quarto mais pobre do mundo. Já em termos de corrupção, é o 16.º país mais corrupto do mundo no Índice de Perceção de Corrupção (IPC) da Transparência Internacional.

D’Jamena, capital do ChadeWikimedia Commons

No projeto “Le Tchad Dense“, Francesco descreve este país no centro de África como um país “atormentado pela violência política e recorrentes tentativas de golpes de Estado”. Fotografias a locais militares, edifícios oficiais do Governo e aeroportos são proibidas, ordens de Idriss Déby, Presidente há 27 anos. Há “soldados em toda a parte” e “campos de refugiados”, num país onde a população duplicou na última década.

O maior aliado do Chade é a França, com mais de 1.000 soldados franceses instalados nas ruas do país. “Déby confia nos franceses para ajudar a repelir os rebeldes, e a França dá apoio logístico e a inteligência ao Exército do Chade, temendo um colapso total da estabilidade regional”, escreve Francesco. Na semana passada, Macron concedeu a Déby um empréstimo de 40 milhões de euros para pagar os salários dos funcionários públicos, escreve o site de notícias African Exponent (conteúdo em inglês).

No turismo, o Chade não é dos sítios mais procurados mas também não consta dos mais aconselhados. Viajar para fora da capital, D’Jamena, requer uma autorização emitida pelo Ministério do Interior, devido aos conflitos existentes nas zonas à volta, avisa o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), na página de conselhos aos viajantes. Ter acesso a postos de combustíveis para abastecer os automóveis não é garantido na capital e nas maiores cidades, sendo quase impossível fora destas zonas. As estruturas médicas e hospitalares fiáveis são quase inexistentes. No Chade “a vida é lenta e as expectativas são baixas”, diz Francesco.

Tecnologias, inovação e negócios? ?

O Chade é o país menos competitivo do mundo, afirma o Fórum Económico Mundial (FEM), no Global Competitiveness Report. Para além dos aspetos enumerados acima, que justificam, em parte, esta classificação, a organização acrescenta que, face ao ano passado, o país piorou em termos de competitividade. E se, na edição de 2017, num universo de 135 países, o Chade estava em 134.º este ano, em 140 países, está mesmo na última posição.

Dos 13 indicadores usados para classificar um país, a adoção de tecnologias de informação é o ponto mais fraco do Governo do Chade, com uma classificação de 13 pontos numa escala até 100. Contrariamente à República da Coreia que domina este tópico, o Chade perde principalmente pela quantidade de subscrições de serviço móvel, ou seja, a quantidade de telemóveis usados no país.

O mesmo acontece com a internet, em que apenas 5% da população navega online. “O setor da comunicação no Chade funciona bem”, disse ao ECO uma fonte oficial do Consulado Honorário de Portugal em N’Djamena. Funciona bem porque “está entregue a empresas estrangeiras”, justificou.

Idriss Déby, Presidente do ChadeForeign and Common Wealth Office/Flickr

Para além das tecnologias, a capacidade de inovação é outro ponto que não joga a favor do país. De acordo com o ranking do FEM, o Chade obteve 22 pontos numa escala até 100 devido, principalmente, à fraca diversidade da força de trabalho, nível de desenvolvimento dos clusters, invenções internacionais, publicações científicas, aplicação de patentes e pela qualidade das instituições de pesquisa.

O terceiro ponto fraco do país tem a ver com o dinamismo dos negócios, onde obtém uma classificação de 29 pontos, colocando-o na 139.ª posição. Neste setor, o Chade perde nos custos e no tempo que leva para arrancar um negócio, na taxa de recuperação das insolvências, nas atitudes em relação ao risco empreendedor e no crescimento de empresas inovadoras.

Criar uma empresa no Chade? Prós e contras

A maior parte dos setores são “fáceis” de investir, disse a mesma fonte oficial do Consulado de Portugal em N’Djamena ao ECO, embora haja alguns em que é necessário criar parcerias com empresas locais, algo que é fácil de alcançar através da Câmara do Comércio.

Para instalar neste país uma empresa, há que ter em conta certos detalhes, tais como a fluência do francês, que se torna obrigatório, e a fraca taxa de sucesso em obter um empréstimo por parte de algum banco do Chade. “Aqui os bancos são muito pobres”, disse a mesma fonte, aconselhando a obter financiamento fora do país. Atualmente, as taxas de juro no Chade variam entre os 8,5% e os 13%.

Place de La Nation – D’Jamena, Chade

Para as empresas que invistam mais de dois milhões de euros no país, há benefícios: ficam isentas de impostos durante cinco anos. Neste momento, o Governo tem em curso um Plano de Desenvolvimento Nacional que pretende eliminar as barreiras existentes aos investimentos. Uma forma fácil de investir no país é através da Agência de Investimento Estrangeiro, uma espécie de Aicep portuguesa. Mas as empresas devem ter em conta a falta de energia no país.

Atualmente, o Governo está à procura de investidores estrangeiros, principalmente no setor da agricultura e do petróleo, disse a mesma fonte. Estes dois setores têm um peso bastante significativo na economia do país, somando-se à tradicional indústria do algodão. A atividade da exploração petrolífera no Chade arrancou em 2001 tornando-se, oito anos mais tarde, a principal fonte de exportações.

Em 2000, como escreve o The Wall Street Journal (conteúdo em inglês), nasceu no país um novo consórcio de petróleo: a multinacional norte-americana Exxon Mobil Corporation, a Chevron (também dos Estados Unidos, mas que acabou por vender a sua participação em 2014) e a Petronas (Petroliam Nasional Berhad — empresa estatal da Malásia).

Dessa aliança veio um investimento de 3,5 mil milhões de dólares (3,07 mil milhões de euros) para a construção de um oleoduto com 1.070 quilómetros no país, com o objetivo de exportar esses recursos para os Camarões. O Banco Mundial ajudou a financiar parte desse projeto, embora com a condição de que 70% dos lucros reverteriam para projetos humanitários.

Estima-se que, atualmente, o Chade produz 100 mil barris de matéria-prima por dia, embora essa produção esteja em declínio, de acordo com o site de notícias African Exponent (conteúdo em inglês).

Estabilidade macroeconómica

Apesar de ser um dos países com os indicadores mais fracos, a estabilidade macroeconómica é o seu melhor ponto. Numa escala até 100, o Chade obteve uma classificação de 72 pontos no ranking do FEM, ficando colocado em 91.º lugar. Aqui, destaca-se por obter 95,8 pontos em termos de inflação. De acordo com os dados do portal alemão Statista, a inflação do país disparou em 2012 e 2015 para 7,7% e 6,76%, respetivamente. Nos últimos dois anos foi negativa ( -1,12% em 2016 e -0,92% em 2017) e, este ano, fixou-se nos 2,12%. Até 2022, as projeções apontam para subidas consecutivas.

D’Jamena, ChadeWikimedia Commons

Outro dos pontos menos fracos do Chade diz respeito à dinâmica da dívida, colocando o país em 88.º lugar com 48,9 pontos. Aqui, o FEM mede a variação da taxa de dívida pública em relação ao PIB. Segundo os dados do Statista, a relação entre a dívida pública e o PIB foi aumentando entre 2012 e 2017, ascendo a 52,5% no ano passado, fixando-se em 49,23% este ano. Para os próximos quatro anos, as estimativas apontam para uma queda gradual, terminando em 33,21% em 2022.

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