“Coletes Amarelos” portugueses querem o que Macron deu aos franceses

  • ECO
  • 20 Dezembro 2018

Os "coletes amarelos" portugueses manifestam-se na sexta-feira. O que querem? Muito do que já foi exigido pelos franceses. O aumento do salário mínimo e a redução de impostos estão no topo da lista.

Está criado o Movimento Coletes Amarelos Portugal. Define-se como um “movimento pacífico apartidário, sem fins lucrativos, de união e apoio a todos os grupos e indivíduos” conhecidos como os “coletes amarelos” e promete protestar até que estejam resolvidos “os variados problemas da atualidade no nosso país”. Para esta sexta-feira, este movimento, inspirado nos “coletes amarelos” franceses”, tem marcado um protesto que irá alargar-se por todo o país, estando já marcadas dezenas de manifestações — que garantem que serão “pacíficas” — em várias cidades.

Já foram associados à extrema-direita e também já viram ser criticada a inexistência de reivindicações concretas. Agora, os “coletes amarelos” mostram-se mais organizados, com um grupo de Facebook que conta com mais de 10 mil membros e um site em construção que ainda não está disponível. Garantem que não estão associados a qualquer movimento político e que “a principal intenção do grupo é dar voz aos portugueses de forma unânime e organizada”, sem tolerância para “qualquer tipo de violência, vandalismo ou danos”. Já têm uma lista de reivindicações, que consta de um manifesto divulgado esta semana.

Apesar desta descrição, não é difícil encontrar comentários racistas neste grupo, que é público. Um dos membros inclui este ponto na lista de reivindicações: “Acabar com a descriminação [sic] racial no que toca a contribuir para o estado [sic], ou todos contribuímos ou então também queremos todos ter direito a casas e ao belo cheque todos os meses nos correios, imaginem o que seria deste país se todos os portugueses se convertessem numa [sic] determinada etnia”. Outro publica uma imagem antiga da campanha eleitoral de Durão Barroso, quando concorria a primeiro-ministro, com o seguinte comentário: “Vendeu-se aos judeus Rothscilds. Iraque-Goldman Sachs”. Há também quem incentive a violência. “Parece-me que se formos pacíficos, os políticos até se vão rir!!!”, comenta outro membro. No manifesto agora divulgado, o grupo ressalva: “Não apoiamos atos de vandalismo e violência de qualquer espécie, mas não seremos responsáveis pelos atos de cada indivíduo“.

Afinal, o que querem os “coletes amarelos” portugueses? Na prática, o mesmo que exigiram os franceses. Depois de, em França, ter sido anunciada a reversão de um aumento de impostos e a subida do salário mínimo em 100 euros, em Portugal, os manifestantes portugueses reivindicam também a redução de várias taxas e impostos e o aumento do salário mínimo para 700 euros (o que, tendo em conta este será de 600 euros no próximo ano, corresponde a um aumento de 100 euros, tal como foi concedido em França).

Ponto por ponto, estas são as reivindicações dos “coletes amarelos”:

Redução de taxas e impostos

  • Redução do IVA, IRC e das taxas sobre a eletricidade, “com incidência sobre as taxas de audiovisual e de emissão de dióxido de carbono”;
  • Concessão de incentivos, “fiscais e outros, para as micro e pequenas empresas poderem pagar, com a correspondente taxação às grandes empresas e multinacionais, com base na sua margem de lucro”;
  • Fim do imposto sobre produtos petrolíferos e redução para metade do IVA sobre combustíveis e gás natural.

Aumento do salário mínimo nacional

  • Aumento imediato do salário mínimo para 700 euros. Para isso, argumenta este movimento, “basta proceder ao corte nas pensões acima de dois mil euros”.

Aumento do subsídio de desemprego

  • Aumento imediato do subsídio de desemprego, incluindo o período de duração. Para isso, argumentam, “basta proceder ao corte nas pensões milionárias acima de cinco mil euros”.

Aumento das pensões e idade de reforma igual para políticos

  • Aumento imediato da pensão mínima para 500 euros. Para que isso seja possível, defendem, bastam os cortes de pensões acima de dois mil e cinco mil euros, para além de tornar obrigatória a idade de reforma dos políticos os 66 anos, “como o restante dos portugueses”;
  • Fim imediato ou corte das subvenções vitalícias para políticos.

Medidas contra a corrupção

  • Criação de um Código Penal mais rigoroso e investimento na criação de unidades especializadas independentes na prevenção e combate à corrupção. Segundo o valor apresentado, sem justificação ou referência à sua fonte, por este movimento, a corrupção custa 18 mil milhões de euros, por ano, aos contribuintes;
  • Redução para metade do número de deputados existentes na Assembleia da República, com adoção de sistemas biométricos para registo de assiduidade;
  • Averiguação imediata das falsas moradas dos deputados com a obrigação de reembolso;
  • “Acabar com as mordomias de toda a classe política portuguesa”.

Reforma do Serviço Nacional de Saúde

  • Acabar com a “prática antagónica existente entre as necessidades do doente e os lucros da indústria farmacêutica, entre o valor de uso e o valor de troca dos medicamentos, face ao poder de compra dos portugueses”;
  • Impedir o enriquecimento pessoal de políticos que “servem os interesses da indústria farmacêutica”.

Revitalização dos setores primário e secundário

  • Criação de condições para que a produção e exportação das matérias primas passem a ter um valor agregado;
  • Criação de condições para a exportação de produtos do setor secundário.

Direito à habitação e fim da crise imobiliária

  • Acabar com a especulação imobiliária;
  • Reverter os imóveis penhorados pela banca na famílias com rendimentos abaixo dos 10 mil euros por ano.

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