Espumante? Caves Transmontanas diz que falta glamour ao nome para conquistar a Europa

Apesar de o espumante ser uma bebida cada vez menos sazonal, as maiores vendas ainda se realizam nesta época do ano. Celso Pereira, do Vértice, diz que faz dos melhores espumantes nacionais.

Celso Pereira, enólogo e responsável pelas Caves Transmontanas.

No Douro, as vinhas cultivadas em terrenos graníticos e xistosos, sujeitas a verões muito quentes e secos e a invernos rudes e prolongados com muita geada e neve, produzem vinhos únicos. Assumidamente terra do vinho do Porto, a paisagem reconhecida pela UNESCO como património da Humanidade em 2001, dá também alguns dos melhores espumantes nacionais.

Criada em 1989, as Caves Transmontanas, dona do espumante Vértice, e que hoje em dia pertence ao universo da Têxtil Manuel Gonçalves, nasceu precisamente para produzir… espumantes de setor premium.

Celso Pereira, enólogo e um dos responsáveis do Vértice, conta a história, desta empresa nascida em 1989, pela mão dos americanos da Schramsberg. “Esta sociedade é a primeira que nasce com o foco de produzir espumantes e plantar videiras para produzir vinho baço para espumante”, diz o enólogo.

“Nós nascemos para produzir espumante, temos esse vínculo muito arreigado e por isso é que continuamos a ser considerados os melhores produtores de espumantes em Portugal, porque nascemos assim, fomos criados com essa identidade”.

No final da década de 80, pouco tempo depois de Portugal ter aderido à Comunidade Económica Europeia (CEE), os americanos detinham 60% das Caves Transmontanas e as adegas cooperativas detinham os restantes 40%.

Esta sociedade é a primeira que nasce com o foco de produzir espumantes e plantar videiras para produzir vinho baço para espumante

Os tempos eram outros, e em Alijó, terra-mãe do Vértice, começavam-se a fazer os primeiros estudos. Foram entre quatro a cinco anos a estudar a melhor maneira de dar à luz… um espumante de qualidade.

Celso Pereira sublinha a riqueza do património vitivinícola nacional. “Temos cerca de 250 castas e a identidade do Douro passa por ter as castas todas misturadas, os vintages e os LBV estão misturados, mas nós queríamos perceber a identidade de cada uma dessas castas e o seu potencial. Dessas 250 castas escolhemos 25″.

Escolhidas as castas era preciso passar a uma segunda fase. Os solos não podiam de ser de xisto, o que excluía as empresas de vinho do Porto que estavam localizadas em zonas baixas, mais perto do Douro. Era preciso trabalhar com uma quota mínima de 500 metros.

“Isto foi um trabalho meritório, íamos às vinhas, com os classificadores da Casa do Douro, e com fitas de diferentes cores, marcávamos as castas. Identificadas as castas passamos a fazer o controlo de maturação e depois fazíamos vinificações, em pequena escala, em garrafões de 20 litros onde as castas eram verificadas per si“, relata o enólogo.

“Tínhamos um tanque com água e controlo de temperatura e púnhamos lá os garrafões a fermentar. Foi um trabalho revolucionário, em finais dos anos 80. Conhecer as castas a este ponto com o intuito de produzir espumante foi uma lança em África”.

O processo era longo e feito com uma equipa de enologia que vinha dos Estados Unidos. Ao fim dos tais quatro a cinco anos, estavam por fim selecionadas quatro variedades: Códega, Gouveio, Malvasia fina e Touriga Franca.

O próximo passo passava por distribuir em bloco, todas as castas, pelos produtores que queriam produzir. “Este processo contrariava tudo o que existia até então no Douro”, afirma Celso Pereira.

O enólogo explica ainda que “os americanos defendiam que não se devia ter produção própria e que se devia apenas trabalhar com castas portuguesas e foi assim que nasceram os contratos verbais — que ainda hoje se mantém — com cerca de 40 a 45 lavradores do Douro”.

“Não há um contrato, nada… o que há é a palavra de cada um de nós. Eles tratam-me pelo nome, conheço-os a todos e conheço as videiras como as palmas das minhas mãos”, sublinha orgulhoso, para acrescentar: “perdemos dois produtores porque morreram. Isto demonstra bem o grau de confiança que existe entre nós e os lavradores”.

As Caves Transmontanas pagam acima da média do setor, e sobretudo, pagam a 100% até dezembro. Também aqui foram revolucionários com o que se passava no setor.

“Quem está num projeto como o nosso não pode ter a pretensão que vai fazer o melhor vinho do mundo, fazer vinho é uma coisa que demora muito tempo”.

Passados seis a sete anos desde a criação, a TMG foi investindo no projeto, até que se dá a saída dos americanos e o capital passou a ser maioritariamente português. Mas a génese do projeto e a filosofia mantém-se.

“Agora estamos a surfar a onda de todo o esforço feito no passado, das videiras que plantamos há 30 anos, se bem que agora temos outras castas, até porque em enologia não há verdades absolutas“, destaca.

Para confirmar esta teoria, o enólogo conta uma pequena história: “nunca gostei da casta malvasia fina, gosto mais de outras castas, e agora vamos lançar um espumante, que envelheceu 20 anos em barricas, em que a maioria é malvasia fina e que é uma coisa… é para me calar a mim próprio, ou para confirmar que de facto não há verdades absolutas”.

As Caves Transmontanas produzem 100 mil garrafas ao ano e faturam 750 mil euros. Mas hoje assumem-se como uma empresa lucrativa.

“Tivemos as nossas dificuldades, mas agora estamos a surfar a onda, fazer espumante é capital intensivo, isto é como o negócio do vinho do Porto, é preciso dar o tiro de partida e esperar cerca de seis a sete anos para ver os frutos do investimento”.

“Somos muito pequeninos, muito por causa desta condicionante, a de produzir com qualidade, dentro de determinado target, mais alto do que médio”, diz o homem do Douro. “Mas poderemos passar confortavelmente para uma produção de 150 mil garrafas“.

Para isso acrescenta o enólogo, “precisamos de um mercado externo mais ágil”. Celso Pereira admite que o “mercado externo é muito difícil”. O vinho português “começa agora a ser reconhecido, mas tem ainda algumas dificuldades, logo o espumante tem ainda mais dificuldade”.

Falta glamour ao nome espumante

Se o champanhe tem associada atrás de si uma certa dose de glamour, o espumante está noutro patamar. Celso Pereira considera que o espumante tem ainda uma dificuldade acrescida para se impor a nível externo e que passa precisamente pelo… nome.

“Os franceses têm o champanhe, os espanhóis criaram o cava, os italianos o prosecco, e em Portugal temos o espumante… Não tem carisma. Não temos nada, temos uma coisa que se chama espumante e que é pejorativo. Defendo, como aliás, que tive oportunidade de dizer, que devia ser criada uma designação própria. Só assim nos poderíamos afirmar, até porque nós temos um preço alto, e a Europa é um mercado conservador”.

Os espumantes começaram a expandir-se no século XVII a partir da região de champagne, em França, tomando-lhe o nome.

Os franceses têm o champanhe, os espanhóis criaram o cava, os italianos o prosecco, e em Portugal temos o espumante… Não tem carisma

Apesar das dificuldades, as Caves Transmontanas exportam 25% da produção, mas ainda em nichos muito pequenos. Norte da Europa, Alemanha, Estados Unidos, Estónia e Brasil são alguns dos mercados onde é possível encontrar o Vértice.

Entre os maiores concorrentes do Vértice estão a Murganheira e a Raposeira, ambas com uma dimensão bem maior do que a empresa com sede em Alijó.

“Quer a Murganheira, quer a Raposeira têm uma dimensão dez vezes maior que a nossa, nós estamos é num posicionamento diferente e conseguimos com esta pequena quantidade comunicar de forma completamente diferente“, assume Celso Pereira.

A pequena dimensão das Caves Transmontanas é bem notória também ao nível do número de trabalhadores: quatro pessoas compõem o quadro de pessoal. “Faço um pouco de tudo, desde vinho, à parte comercial, às vendas, depois tenho um braço direito — Pedro Guedes — a que se juntam dois operacionais. Claro que depois na vindima contratamos pessoal e quando temos pico de trabalho também contratamos, mas o grosso do trabalho é assegurado por nós os quatro”, afirma.

“Bolhinhas” inundam passagem de ano

Apesar de o espumante estar a perder o caráter sazonal que sempre o caracterizou, fruto de um aumento do consumo, a verdade é que na passagem de ano… não há festa, nem celebração sem as “bolhinhas”. É assim em Portugal e um pouco por todo o mundo ao soar da meia noite, champanhe e espumante fazem as delícias de quase todos.

“Bebo espumante todos os dias, mas é verdade é que nesta época do ano [passagem de ano] continua a ser a época alta. As pessoas ainda associam muito o espumante à festa. De resto, associa-se muito o espumante a bolo, o que é a pior maridagem de que há memória”.

Bebo espumante todos os dias, mas é verdade é que nesta época do ano [passagem de ano] continua a ser a época alta. As pessoas ainda associam muito o espumante à festa. De resto, associa-se muito o espumante a bolo, o que é a pior maridagem de que há memória

O vinho — Tinto Vértice e Branco Vértice — surgiu para tentar reverter a “sazonalidade” do espumante. Nos dias de hoje as Caves Transmontanas produzem seis gamas de Espumante e duas de Vinho.

Produzimos vinho branco e vinho tinto, mas 95% da nossa produção é espumante. O nosso core é espumante, nascemos para o espumante e o vinho de mesa apareceu com o objetivo de reverter um pouco a sazonalidade. Se fizemos o vinho tinto e branco podíamos ter mais entrada de dinheiro ao longo do ano e não estarmos sempre à espera do Merry Christmas. Agora tem vindo a diluir-se, mas o Natal chegou a pesar mais de 60% das nossas vendas”, confessa o responsável pela Caves Transmontanas.

Celso Pereira admite que o consumo do espumante “tem vindo a aumentar”, mas adianta que a “questão é saber quem continua a ser diferenciador, e quem continua a fazer as coisas de forma diferente, porque cada vez há mais gente a fazer espumante e aparecem espumantes a dois euros nas prateleiras do supermercado”.

O enólogo diz que “isso não assusta, até porque é uma maneira e mais pessoas saberem o que é o espumante, mas as pessoas têm que perceber que o nosso espumante de entrada no supermercado tem um custo de 14 euros”. A diferença, justifica Celso Pereira, é que “os espumantes de dois euros são feitos em 15 dias, e o espumante Vértice, gama de entrada, demora quatro anos a estagiar em garrafa antes de entrar no mercado“.

Celso Pereira garante que não vai “inverter esta tendência até porque temos que nos fazer distinguir no mercado pela qualidade, e não pelo preço”.

“Temos espumantes que estão ao preço dos champanhes, temos o nosso Pinot Noir que custa 50 euros, e que também aparece como um dos três melhores espumantes. É neste patamar que queremos estar e é neste patamar que procuramos desenvolver as nossas exportações”.

Na questão da afirmação internacional, Celso Pereira diz que já existem apoios públicos porém reconhece que “podem não cobrir o target em que me quero afirmar”. E adianta: “eu não gosto do mercado da saudade, tenho que ir à procura do meu mercado e, geralmente, quando mostro o meu espumante, as pessoas dizem ‘Uau, isto é português? Como é que isto é português?'”.

Isto só é possível, acrescenta, porque “a empresa nasce apoiada neste espírito de estudo, de investigação e de envelhecimentos muito longos em garrafa”.

Temos espumantes que estão ao preço dos champanhes, temos o nosso pinot noir que custa 50 euros, e que também aparece como um dos três melhores espumantes. É neste patamar que queremos estar e é neste patamar que procuramos desenvolver as nossas exportações

O responsável pela Caves Transmontanas diz mesmo que “o segmento nacional está a crescer mas no segmento do preço”.

Prémios internacionais

É de resto, no âmbito dessa comunicação que os espumantes Vértice tem vindo a ser reconhecidos nas revistas da especialidade. O Vértice Pinot Noir 2007 foi considerado pela revista inglesa Decanter uma das surpresas do ano. Mais de dez anos após a colheita, este vinho, conseguiu um total de 94 pontos e faz capa de revista em janeiro de 2019. Também Mark Squires, crítico norte-americano e provador oficial da publicação eRobert Parker/Wine Advocate destaca os espumante Vértice.

Mark Squires define o vinho como “elegante e complexo”, classificando a bebida como um espumante “delicioso e muito sério”.

Celso Pereira sublinha que “fazemos cerca de três mil garrafas Pinot Noir e esta é, se calhar, a forma mais rápida de comunicar, ou seja, com castas estrangeiras”.

Do Douro para o mundo é assim que Celso Pereira idealiza a empresa, a mesma que diz “vai continuar a crescer pela qualidade, sempre muito sustentada”.

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