Venezuela: um país, dois presidentes. Comunidade internacional divide apoios

  • ECO e Lusa
  • 24 Janeiro 2019

A Venezuela está a ferro e fogo. Tensão aumenta nas ruas do país, onde protestos já fizeram 16 mortos. Apoios internacionais a Maduro e Guaidó dividem-se.

A Venezuela está a ferro e fogo. Depois de assolado por uma grave económica, desencadeada pelo preço do petróleo, que levou a uma grave crise política e à fuga de 2,3 milhões de pessoas do país desde 2015, o país vive agora a situação inédita de ter dois presidentes.

Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, até agora um desconhecido nas lides internacionais, proclamou-se esta quarta-feira, perante milhares de venezuelanos nas ruas, Presidente interino da Venezuela com o objetivo de resgatar o país das mãos do “usurpador” Nicolás Maduro.

Maduro já reagiu e diz que não abandona o cargo. “Só o povo dá, só o povo tira”, afirmou Maduro, da varanda do Palácio de Miraflores. A situação poderá agudizar-se nos próximos dias.

A instabilidade política levou milhares de venezuelanos às ruas das cidades para protestar a favor e contra o regime. Segundo o El País, a onda de protestos já provocou 16 mortos, na sequência da disputa entre os manifestantes e as forças de segurança.

António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, já reagiu ao clima de tensão no país e apelou “ao diálogo” para evitar “um desastre”. “Esperamos que o diálogo seja possível para evitar uma escalada que conduza a um conflito que será um desastre para a população do país e para a região”, afirmou Guterres.

"Esperamos que o diálogo seja possível para evitar uma escalada que conduza a um conflito que será um desastre para a população do país e para a região.”

António Guterres

Secretário-geral das Nações Unidas

Guterres, que falava à margem do Forúm Económico Mundial de Davos, adiantou que “todos os governos soberanos têm a possibilidade de escolher o que querem”, quando se trata de reconhecer qual dos dois é o presidente legítimo.

Também o ex-primeiro-ministro espanhol, Felipe González já se pronunciou sobre a situação na Venezuela. “Maduro é pior que um ditador, é um tirano arbitrário”, afirmou. O ex-primeiro ministro espanhol pediu ainda à União Europeia que apoie e reconheça Juan Guaidó como novo Presidente da Venezuela.

Uns a favor, outros contra

A comunidade internacional já fez também ouvir as suas opiniões. A iniciativa de Guaidó, apesar de rapidamente apoiada pelo presidente norte-americano, Donald Trump, está a dividir os líderes internacionais.

Do lado dos apoiantes de Guaidó estão, para além dos Estados Unidos da América, a Organização dos Estados Americanos (OEA) e quase toda a América latina, sobretudo os países mais à direita, como é o caso da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Peru, entre outros.

O Governo português, através do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, afirmou o pleno respeito “à vontade inequívoca” mostrada pelo povo da Venezuela e disse esperar que Nicolas Maduro “compreenda que o seu tempo acabou”, apelando à realização de “eleições livres”.

“É preciso, o mais urgentemente possível, organizar eleições livres e democráticas porque essa é a única maneira de sair do impasse político que se vive hoje na Venezuela. A saída desse impasse político é absolutamente essencial para que a profunda crise económica e social possa ser debelada”, disse o ministro, esta manhã, na TSF. E acrescentou ser importante que Nicolás Maduro “não tome nenhuma decisão inaceitável e irracional”.

Por outro lado, a UE defendeu a legitimidade democrática do parlamento venezuelano, e sublinhou que “os direitos cívicos, a liberdade e a segurança de todos os membros da Assembleia Nacional, incluindo do seu Presidente, Juan Guaidó, devem ser plenamente respeitados”. Bruxelas instou também à “abertura imediata de um processo político que conduza a eleições livres e credíveis, em conformidade com a ordem constitucional”.

A Austrália, por seu turno, afirmou estar a considerar apoiar Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino da Venezuela, na sequência do apoio público manifestado por vários países. Já o porta-voz do Governo japonês, Yoshihide Suga, afirmou que a Venezuela deve “recuperar a democracia” rapidamente.

No entanto, países como o México, a Bolívia e Cuba mantêm-se ao lado de Maduro, que consideram ser o Presidente democraticamente eleito na Venezuela. A lista de apoiantes a Maduro foi, esta madrugada, reforçada com o apoio da Nicarágua, principal aliado político e económico da Venezuela.

Já esta quinta-feira, a Rússia e a Turquia manifestaram apoio ao líder venezuelano, Nicolas Maduro, assim como a China, que expressou apoio ao Governo venezuelano.

“A China apoia os esforços do Governo da Venezuela para manter a sua soberania, independência e estabilidade”, afirmou a porta-voz do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, Hua Chunying.

“Os eventos atualmente em curso na Venezuela mostram claramente a atitude da comunidade internacional progressista em relação ao direito internacional, soberania e não-interferência nos assuntos internos de um país”, escreveu a porta-voz da diplomacia russa, Maria Zakharova, na rede social Twitter.

De acordo com uma mensagem do porta-voz da Presidência turca no Twitter, Ibrahim Kalin, o Presidente turco ligou ao homólogo venezuelano e deu-lhe todo o seu apoio. “Maduro, irmão, continua firme, estamos consigo”, disse Erdogan, de acordo com o porta-voz de Ancara.

“A Turquia vai manter os seus princípios contra a tentativa de golpe”, acrescentou Ibrahim Kalin.

O país euro-asiático, um importante fornecedor de alimentos e de outros bens para a Venezuela, começou a refinar e certificar ouro venezuelano e os dois países anunciaram projetos de cooperação, no ano passado, para a exploração de carvão e de ouro. Além disso, estão a ser negociados investimentos turcos na indústria de petróleo da Venezuela, o país com as maiores reservas de petróleo do planeta.

Maduro corta relações com os Estados Unidos

A relação entre os Estados Unidos e a Venezuela já estava difícil e vive agora dias ainda piores. Depois do apoio de Trump a Juan Gauidó, Nicolas Maduro anunciou o corte de relações com os Estados Unidos e deu 72 horas aos diplomatas norte-americanos para saírem da Venezuela.

Mas, segundo avança o El País, a ordem de expulsão deverá ser ignorada. Washington disse ainda que manterá relações diplomáticas com Juan Gauidó.

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