Jerónimo Martins vai limitar bónus dos gestores. Não poderão receber em prémios mais do dobro do salário

Comissão de vencimentos propõe limitar remuneração variável ao dobro da componente fixa, mas valor só foi ultrapassado uma vez desde 2009, isto se forem considerados pagamentos para Plano de Pensões.

A comissão de vencimentos da Jerónimo Martins quer estabelecer um teto máximo para as remunerações variáveis pagas pelo grupo aos seus administradores, tendo avançado com uma proposta nesse sentido para ser votada na próxima assembleia-geral, a 11 de abril. A ser aprovada, os gestores do grupo que detém o Pingo Doce não poderão receber em prémios mais do dobro do salário fixo anual.

A questão dos salários dos administradores é particularmente sensível na Jerónimo Martins, que nos últimos anos tem sido apontada como o exemplo máximo da disparidade salarial existente no país. Em 2017, o CEO da dona do Pingo Doce auferiu uma remuneração superior a dois milhões de euros, ganhando 160 vezes mais do que o salário médio dos trabalhadores da empresa. Ainda assim, o salário global do administrador-delegado da Jerónimo Martins fica aquém do recebido por António Mexia, CEO da EDP — quase 2,3 milhões de euros. Já alargando a análise a todo o PSI-20, vê-se que a remuneração atribuída aos gestores representou 22,8 vezes o salário médio anual que foi pago aos trabalhadores em 2017.

A proposta da comissão de vencimentos da Jerónimo Martins agora conhecida surgiu depois de este órgão ter procedido “a uma análise e revisão cuidadas dos princípios da política de remunerações dos órgãos sociais da sociedade que têm vindo a ser aplicados”, conforme se lê nos documentos divulgados pelo grupo em preparação da AG anual do próximo mês.

Remuneração de Pedro Soares dos Santos

Considerando esta análise, assim como “o atual modelo organizativo” e os “princípios da política de remunerações”, a comissão de vencimentos optou por propor que “a componente variável” das remunerações dos administradores corresponda “a um montante anual fixado pela comissão de vencimentos” e que este será “limitado ao dobro da componente fixa”.

Contactada pelo ECO, fonte oficial da Jerónimo Martins confirmou a alteração. “No que diz respeito à fixação de um limite para a proporção entre a remuneração fixa e a remuneração variável, verifica-se, efetivamente, a alteração que refere. No nosso entendimento, tal alteração vai ao encontro das atuais recomendações sobre o governo das sociedades“, apontou ao ECO. A mesma fonte lembrou ainda que a comissão de vencimentos é “eleita pelos acionistas e independente da administração”.

Disparidade, salários e prémios

Olhando para as remunerações globais auferidas pelo administrador-delegado da Jerónimo Martins, Pedro Soares dos Santos, conclui-se que a definição de um teto máximo equivalente ao agora proposto apenas teria sido “ativado” uma vez desde 2009 — isto se forem tidas em conta as contribuições para o Plano de Pensões do gestor como remuneração variável.

No ano passado, por exemplo, Soares dos Santos ganhou um total de 1,62 milhões de euros, dos quais 630 mil euros de remuneração fixa e 990 mil euros em remuneração variável — cujo valor está dependente do grau de cumprimento de objetivos quantitativos e de natureza qualitativa consideradas relevantes para a sustentabilidade do negócio. A remuneração variável, em 2018, foi assim equivalente a 157% da fixa, o valor mais alto desde 2009, com exceção do ano de 2017.

Segundo o relatório e contas da Jerónimo Martins referente ao exercício de 2017, nesse ano Pedro Soares dos Santos recebeu 220,5 mil euros brutos de salário fixo, aos quais se somaram 378 mil euros em remuneração variável e 299,5 mil euros em contribuições para o Plano de Pensões, elevando o total para pouco mais de dois milhões de euros. Considerando que a verba que se destinou ao Plano de Pensões é também remuneração variável, então esta rubrica totalizou perto de 1,38 milhões de euros, ou seja, 219% (mais do dobro) da componente fixa.

Além deste caso registado em 2017 pelo administrador-delegado da Jerónimo Martins, nos últimos anos mais nenhum administrador do grupo recebeu em remuneração variável mais do dobro do vencimento anual fixo.

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