Juros negativos do BCE custam 100 mil euros por dia à banca portuguesa

Taxa de depósitos do BCE está negativa... e pode ficar ainda mais negativa já esta quinta-feira. Excluindo as reservas mínimas, os bancos portugueses têm 9.201 milhões depositados no banco central.

Há 9.201 milhões de euros depositados pela banca portuguesa junto do banco central que estão a custar muito dinheiro todos os dias. São 36,8 milhões por ano em juros que são pagos porque a taxa de depósitos do Banco Central Europeu (BCE) está negativa em 0,40%. Nos próximos meses, poderá cair ainda mais para “terreno” negativo.

Como resposta à crise, o BCE começou a descer as taxas de juro da Zona Euro, que chegaram em 2016 a mínimos históricos. Desde então que a taxa de juro aplicável às operações principais de refinanciamento está em 0%, as taxas de juro aplicáveis à facilidade permanente de cedência de liquidez em 0,25% e as taxas de juro aplicáveis à facilidade permanente de depósito em −0,40%.

É esta última que se aplica aos montantes que os bancos dos vários países têm depositado no banco central. Na prática, é nos bancos centrais nacionais (como o Banco de Portugal), mas a taxa é definida a nível europeu e aplicável ao excedente nos depósitos, ou seja, ao total dos depósitos, excluindo as reservas mínimas obrigatórias

Os bancos portugueses (tal como os restantes da Zona Euro) são obrigados a deter um montante de fundos como reserva nas contas correntes junto do Banco de Portugal. O valor das reservas mínimas obrigatórias, em termos agregados para os bancos portugueses, era de 2.086 milhões de euros, a 11 de junho, segundo dados a que o ECO teve acesso.

Face ao total de depósitos nessa altura (11.287 milhões de euros), o excedente que “paga” juro é de 9.201 milhões de euros. A taxa anual representa um rombo de 36,8 milhões de euros ou 100,8 mil euros por dia aos bancos portugueses. E as perspetivas não são favoráveis.

As tensões comerciais, o risco do Brexit, a inflação anémica e a desaceleração económica levaram o BCE a mudar de discurso, garantindo que está pronto a aplicar estímulos adicionais caso seja necessário.

O mercado está a atribuir uma probabilidade de 40% de o BCE cortar juros já esta quinta-feira, após a reunião do Conselho de Governadores, de acordo com uma poll realizada pela Reuters. A maioria concorda que haverá uma diminuição ainda este ano, mas só depois do verão. Poderá ser uma descida apenas para as taxas dos depósitos, mas vir com “amortecedor”.

“Com a rentabilidade dos bancos da Zona Euro a ser erodida pelo que é efetivamente um imposto sobre as suas reservas excedentárias, uma opção de vários níveis nos depósitos, semelhante à criada pelos bancos centrais na Suíça, Japão, Dinamarca e Suécia, poderia ser uma opção viável”, afirmou Franck Dixmier, global head of fixed income da Allianz Global Investors.

Este regime poderia resultar em taxas aplicadas a partir de um limiar específico de reservas excedentárias por banco. “A reunião do BCE é, por isso, de grande importância. O banco deve preparar o terreno para as suas próximas medidas concretas: na nossa perspetiva, uma queda de 10 pontos base na taxa de depósitos em setembro e o reinício de um programa de compra de títulos no final do ano”, acrescentou Dixmier. Ou seja, a taxa de depósitos pode cair para -0,50%.

O forward guidance atual do Conselho do BCE indica esperar que as taxas de juro diretoras se mantenham nos níveis atuais, pelo menos, até durante o primeiro semestre de 2020 e, em qualquer caso, enquanto for necessário para assegurar a continuação da convergência sustentada da inflação no sentido de níveis abaixo, mas próximo, de 2% no médio prazo.

Se mudar de ideias, a banca será penalizada não só através dos depósitos, mas também das margens financeiras. As estimativas do Goldman Sachs para 32 bancos da Zona Euro indicam que um corte de 20 pontos base (para -0,60%) resultaria numa quebra média de 6% nos lucros.

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