Motoristas reúnem com Governo na segunda-feira. “Terá de haver cedências de parte a parte”, diz sindicato

Motoristas falam em "cedências de parte a parte", mas não abdicam de negociar com aviso prévio em cima da mesa, como exige Antram, nem detalham sobre que cedências estão dispostos a fazer.

Francisco São Bento, presidente do Sindicato Nacional das Matérias Perigosas (SNMMP), confirmou esta tarde que os representantes dos motoristas irão ser recebidos na próxima segunda-feira, de manhã, no Ministério das Infraestruturas e Habitação. O encontro terá como objetivo relançar as negociações entre sindicatos e a Antram, associação que reúne a grande maioria das empresas de transporte de mercadorias.

Contudo, e para que algo surja desta reunião, “terá de haver cedências de parte a parte”, avançou São Bento, em entrevista à SIC. E, mesmo admitindo que é preciso mais flexibilidade de ambas as partes, o presidente do sindicato continua a recusar levantar o aviso prévio de greve para 12 de agosto, uma das condições exigidas pela Antram para voltar à mesa de negociações.

“O SNMMP e o sindicato independente [de motoristas de mercadorias] acreditam que a situação pode ser resolvida antes de 12 de agosto, logo, e pela terceira ou quarta vez, voltamos a insistir para que nos voltemos a sentar à mesa”, começou por apontar São Bento. Sobre a resistência da Antram em voltar a negociar enquanto o pré-aviso estiver em vigor, o líder sindical lembrou “que esta não será seguramente a primeira vez que um conflito é resolvido com um pré-aviso no ‘ar’. Basta um pouco de bom senso de ambas as partes para se chegar a uma conclusão”.

Já quanto ao que é esse “bom senso”, ou seja, sobre que pontos estão os sindicatos dispostos a ceder, Francisco São Bento preferiu não abrir o jogo. “Será preciso bater em determinados pontos, com cedências de parte a parte, ou não seria uma negociação, e tentar-se um consenso para, então, cancelarmos a greve que não é benéfica para ninguém“, reconheceu.

Questionado sobre se não considera que as críticas da Antram — de que negociar com um pré-aviso de greve já lançado é negociar sob ameaça — têm algum sentido, o presidente do SNMMP devolveu as críticas à associação empresarial, apontando que esta “não tem tido vontade de negociar nem com aviso prévio nem sem aviso prévio”. “Também nos disseram que aceitavam os 900 euros [de vencimento base] para levantarmos a greve e posteriormente só aceitaram 700 euros”, atirou ainda.

Assim, e para os sindicatos, voltar às negociações com o pré-aviso de greve já entregue não é mais do que uma manobra defensiva, explicou São Bento à SIC. “Não denota má-fé negocial. É apenas uma forma de defesa. Já correu mal uma vez e não queremos que corra mal outra vez.” E chamou a atenção que em causa não está a luta por aumentos salariais para daqui a dois e três anos. “Atente-se a um ponto muito importante: nós não estamos a paralisar por aumentos em 2021, não é isso. Nós exigimos 900 euros de vencimento base já em janeiro e o que se negociou foi ter 700 euros em 2020 e dar tempo para as empresas, até 2022, chegar aos 900 euros.”

Quanto à reunião com o ministério de Pedro Nuno Santos, Francisco São Bento explicou que os sindicatos vão “reunir com o Ministério às 11h30” da próxima segunda-feira, lendo no facto da reunião ter sido aceite como “um sinal de abertura” por parte do Executivo — que todavia é apenas o mediador entre as partes. “Talvez saia alguma situação positiva do encontro, que possa vir a encaminhar-nos para a resolução do caso até antes de dia 12 de agosto”, apontou São Bento.

Mas se o Governo não pode ser mais do que mediador, o que pode sair dessa reunião que leve ao cancelamento da greve? “Temos alguns pontos a debater com o Governo para se tentar que se volte à mesa com patrões e tentar encontrar uma solução”, explicou o líder do SNMMP.

E o que será necessário para os motoristas retirarem o aviso prévio de greve? Pelo menos dois passos, disse, nenhum dos quais depende do Sindicato — ou antes, nenhum dos quais será dado pelo sindicato.

Primeiro, explicou São Bento, “o Governo deve criar condições para que a Antram aceite sentar-se à mesa connosco, independentemente do pré-aviso”. Depois, “se a Antram se sentar à mesa e, se após a reunião com os patrões se chegar a uma conclusão, então sim, o aviso prévio será retirado“, acrescentou. E que condições exige o SNMMP para cancelar a greve? “É o que iremos negociar.”

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