Quanto vale a etiqueta Made in Portugal nos sapatos?

Segundo um estudo da Católica, o "paradigma mudou" e o facto de um sapato ter a etiqueta a dizer "Made in Portugal" valoriza o preço final em 28%. Consumidores estão a dispostos a pagar mais.

Dez anos depois do lançamento da primeira campanha internacional “The sexiest industry in Europe” — as exportações aumentaram 47% e chegaram a 163 países.APICCAPS (Facebook)

A indústria portuguesa de calçado exportou dois mil milhões de euros, em 2018, para 163 países nos cinco continentes. E uma prova cega mostrou que clientes finais, de várias nacionalidades, estão dispostos a pagar mais pelos sapatos portugueses. Ter a etiqueta a dizer Made in Portugal aumenta em 28% o valor do sapato.

No início do ano, na MICAM, a maior feira internacional de calçado, em Milão, foi feita uma prova cega junto de retalhistas, grossistas, fabricantes, designers, estudantes de moda e clientes finais de 27 nacionalidades. O exercício consistia em confrontar as pessoas com um par de sapatos que valia 100 euros. Mas quando confrontadas com o facto de o calçado ser português o mesmo par de sapato passava a valer 128 euros, explicou Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da Associação Portuguesa de Industriais do Calçado Componentes Artigos Pele Sucedâneos (APPICAPS), na apresentação do estudo Plano Estratégico — Cluster do Calçado, da Universidade Católica Porto Business School.

“Muita coisa mudou na forma como a indústria portuguesa de calçado é vista à escala global desde 2005, ano em que outra prova cega revelou um défice de imagem de 30% nos sapatos nacionais, indicando que o preço teria de descer de 100 para 70 euros depois de o cliente ver a etiqueta Made in Portugal”, acrescentou o responsável.

“Os clientes de todo o mundo estão dispostos a pagar mais para calçar sapatos portugueses” e que “há um reconhecimento que os portugueses são bons a fazer sapatos”, corroborou Susana Costa e Silva, investigadora da Porto Business School, responsável pelo estudo. A partir deste estudo foi possível concluir que o calçado português está a ganhar cada vez mais destaque e reconhecimento a nível mundial.

Exportação de calçado aumentou 47%

Dez anos depois do lançamento da primeira campanha internacional “The sexiest industry in Europe” — as exportações aumentaram 47% e chegaram a 163 países, o que significam que passaram de 1,3 mil milhões de euros para mais de 1,9 mil milhões no ano passado. Segundo a APPICAPS, os maiores mercados para o calçado nacional são a Dinamarca (11%), Holanda (6,7%), França (5,1%), Espanha (4,3%) e Alemanha (4,1%).

De acordo com a APPICAPS, que apresentou contas esta sexta-feira, em dez anos foram investidos 6,4 milhões de euros na campanha “A indústria mais sexy da Europa”. Paulo Gonçalves acrescenta que “o resultado do investimento é positivo, uma vez que em cada 14 cêntimos de investimento alavancamos 100 euros na exportação”.

Há um reconhecimento que os portugueses são bons a fazer sapatos e os clientes estão dispostos a pagar mais para calçar sapatos portugueses

Susana Costa e Silva

Investigadora da Universidade Católica Porto Business School

O evento contou com a presença do secretário de Estado da Internacionalização, Eurico Brilhante Dias, que se mostrou bastante satisfeito com os resultados da indústria portuguesa do calçado e do seu posicionamento no mercado internacional. Todavia, considera que “precisamos de valorizar melhor o que fazemos e vender o nosso calçado a um preço superior”.

Brexit e a guerra comercial são um travão ao comércio internacional

Manuel Carlos, presidente executivo da APPICAPS, não deixou passar em branco a instabilidade da conjuntura mundial e destacou que “os mercados estão muito instáveis” e que o “Brexit, assim como a guerra comercial entre os EUA e a China, para além der serem “um travão ao comércio internacional, provocam impactos no setor”. Todavia, destacou que as perspetivas são muitos boas, porque “a indústria do calçado nacional é muito competente e está estrategicamente bem posicionada e perto de grandes mercados”.

Por fim, João Maia, diretor-geral da associação, salientou que, em 2020, será feito um investimento de 17 milhões de euros para continuar a aposta na internacionalização.

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