BRANDS' ECO Tecnologia na reabilitação após acidente de trabalho

  • BRANDS' ECO
  • 13 Setembro 2019

O trabalho é fonte de realização pessoal e parte integrante da vida, afeta diretamente a felicidade, permite a sobrevivência e autonomia, mas também contribui para a sustentabilidade da sociedade.

O trabalho é fonte de realização pessoal e parte integrante da vida. Afeta diretamente a nossa felicidade, permite a nossa sobrevivência e autonomia e contribui para a sustentabilidade da sociedade. Este é um dos temas a abordar no Labour2030.

Os acidentes de trabalho são definidos como um acontecimento súbito e inesperado, não planeado, que produz danos e prejuízos. São o resultado de condições que ocorrem de forma aleatória e constituem um problema de saúde público com implicações pessoais, sociais e económicas, uma vez que interferem com o sistema produtivo e apresentam um encargo acrescido nos cuidados de saúde. (1)

Com o aumento da idade da reforma justificam-se novas políticas de saúde e de prevenção de sinistralidade, com a aplicação de novas tecnologias, que visem a prevenção dos acidentes de trabalho, reintegração dos sinistrados e também a adaptação dos serviços de saúde a uma realidade cada vez mais exigente.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, em 2012, a nível mundial, morreram diariamente 6300 trabalhadores vítimas de acidentes ou doenças relacionadas com o trabalho, num total de 2,3 milhões de mortes anuais em 317 milhões de acidentes, com perdas económicas estimadas em cerca de 4% do PIB mundial. (2) Em Portugal (2016) registaram-se 207 567 acidentes de trabalho, sendo 207 429 não mortais e 138 mortais. (3) A maioria dos acidentes não mortais provocou dias de ausência ao serviço por Incapacidade ao Trabalho (temporária ou permanente), sendo o impacto maior a nível da indústria transformadora, de construção, do comércio por grosso e a retalho.

Uma das principais questões pós acidente de trabalho diz respeito à reintegração profissional, quando e como deverá ser feita. Os dados sobre a reintegração profissional são escassos, no entanto, alguns estudos internacionais referem que apenas 68% dos doentes após acidente de trabalho retornam a sua atividade prévia e que 32% necessita de encontrar um novo empregador ou uma readaptação profissional. (4) A reintegração profissional é uma das preocupações iniciais após um sinistro e pressupõe a participação neste processo do corpo clínico, do sinistrado e da entidade trabalhadora.

A Medicina Física e de Reabilitação (MFR) apresenta-se como uma especialidade médica com um papel preponderante no processo de recuperação de sinistrados, quer em situações de grandes ou pequenas incapacidades, e visa otimizar a sua função física, psicológica e social, com objetivo de garantir a sua reintegração social e profissional o mais precoce e completa possível. O sinistrado faz parte integrante da “equipa de reabilitação” e é o centro dos objetivos do programa de reabilitação (PR).

Idealmente os objetivos de um PR seriam a recuperação sem sequelas e sem a necessidade de dias de incapacidade. No entanto, a acessibilidade dos cuidados de reabilitação a muitos sinistrados não está facilitada, muitas vezes por receio dos custos ou, devemos referi-lo, da duvidosa qualidade e eficácia dos tratamentos prestados ou ainda por dificuldades no acesso aos cuidados de saúde, o que prejudica o potencial de reabilitação dos indivíduos e a sua efetiva recuperação. Se está cientificamente demonstrado desde há muito que os programas devem ser intensivos no número de horas de treino diário, repetitivos e específicos para a lesão, sabe-se hoje que a sua eficácia também está intimamente ligada à adesão, motivação e concentração do doente e ao seu sentimento de recompensa e atração no plano/objetivo estabelecido e na equipa de reabilitação que o reabilita.

O custo/benefício da reabilitação é inegável, sendo que a utilização de novas tecnologias tem demonstrado vantagens, principalmente a nível da motivação e adesão dos doentes e pode oferecer soluções diferenciadas no diagnóstico, tratamento e seguimento de diversas lesões e sequelas pós-traumáticas, tais como musculoesqueléticas ou neurológicas. O desenvolvimento da telemedicina e de novos dispositivos médicos na área da MFR, nomeadamente a realidade virtual, a robótica e a estimulação magnética transcraniana, tem hoje a capacidade para superar limitações associadas ao tratamento tradicional, restrito e de alto custo.

A realidade virtual (ex: Kinect, Cyberglove, Nintendo-wii, Virtual RealityMotion) permite uma simulação de uma situação real criada por um computador, em que através de uma interface vai permitir ao usuário interagir com certos elementos dentro de um simulador com um cenário. Os ambientes criados dependem da equipa e dos objetivos estabelecidos, podendo ser imersivos, semi-imersivos ou não imersivos de acordo com a integração do indivíduo no ambiente virtual. Permite a avaliação de défices e a intervenção terapêutica, monitorizar a evolução do tratamento e desenvolver estratégias compensatórias ao exemplificar as tarefas da vida real/profissional. Permite ao indivíduo uma experiência multissensorial, visual, auditiva, tátil, olfativa e de movimento. Na prática clínica verificam-se melhorias a nível do equilíbrio, mobilidade, funcionalidade, motricidade grosseira e fina, bem como a nível das atividades cognitivas, para além da autoconfiança e motivação. Muitos equipamentos são portáteis, de baixo custo, e permitem desenvolver atividades no domicílio.

A terapia com recurso a sistemas robotizados (ex: Lokomat, Aremeo, EKSO) apresenta-se como um treino funcional intensivo e desafiante que permite aumentar a independência do grande traumatizado (por lesão medular ou traumatismo cranioencefálico) no seu PR. A sua aplicação visa a melhoria da funcionalidade da marcha, permitindo uma experiência mais real, também ao nível dos membros superiores.

A estimulação magnética transcraniana é uma técnica não invasiva de neuroestimulação e neuromodulação que visa modular a excitabilidade cerebral através de um campo magnético criado por uma bobina que induz uma corrente elétrica capaz de despolarizar células cerebrais. O impulso aplicado pode ser de alta frequência e por isso provocar o estímulo das células cerebrais, ou baixa frequência, sendo neste casso inibitório. O efeito terapêutico continua a ser estudado, no entanto é hoje conhecida a sua eficácia na depressão ou na recuperação motora funcional em doentes após traumatismo cranioencefálico. No caso da dor, tem particular indicação na dor fantasma pós-amputação, na central pós-AVC e no SDRC (Síndrome doloroso Regional Complexo).

Outros dispositivos tecnológicos, como Unidades de Controlo do Meio (ex: Homekit, By-Me home) permitem controlar um determinado ambiente e conferem autonomia no trabalho/casa. Adaptam-se à incapacidade física, cognitiva e permitem também estabelecer objetivos terapêuticos. A tecnologia de comunicação aumentativa permite ainda facilitar a comunicação e a integração dos indivíduos com problemas de fala e de linguagem. Merece especial menção os “Brain Computer Interfaces”, que permita captar e filtrar as ondas cerebrais (o nosso “pensamento”), transmitir a um computador e, através de este converter em uma ação, desde comandar utensílios domésticos a produzir palavras…

O principal objetivo da MFR para além da identificação e tratamento de patologias subjacentes e a prevenção de complicações, é a melhoria da funcionalidade dentro do modelo biopsicossocial, permitindo ao sinistrado o retorno à atividade profissional o mais semelhante possível à que existia previamente ao acidente.

Com o envelhecimento da população ativa e os crescentes custos sobre os sistemas de saúde e seguradoras, a abordagem às novas tecnologias na MFR será fundamental para colmatar lacunas na implementação, adesão e o acesso aos PR, melhorar o processo de reabilitação e o resultado terapêutico, com o objetivo de diminuir o impacto social e económico da doença e aumentar a participação ativa dos indivíduos, bem como, contribuir para a diminuição da incapacidade final do sinistrado. Outro aspeto prende-se com a possibilidade de obter dados com o uso destes sistemas e dispositivos, permitindo mensurar objetivamente a evolução no processo de reabilitação, questão fundamental na avaliação pericial.

Nos sinistrados com grandes incapacidades, prevê-se que as novas tecnologias vão permitir mais facilmente perceber as suas necessidades permanentes e respetiva monitorização ao longo do tempo. No entanto, é fundamental desenvolver sistemas bem fundamentados, de fácil acesso, intuitivos, monitorizáveis e adaptados ao nível cultural e educacional dos doentes e a implementação de protocolos de PR individualizados e aplicáveis às novas tecnologias. Em termos periciais e na era da digitalização, será sempre importante verificar a possibilidade de utilização destes dados como meio de prova em tribunal.

Pedro Francisco Caetano | Medicina Física e Reabilitação | HONNUS

Referências

1 – Green, J. (1997). Risk and misfortune. The social construction of accidents. London: Routeldge

2 – OIT (2012, 07 06). Global/topics/safety-and-health-at-work. Retrieved from www.ilo.org: http://www.ilo.org/global/topics/safety-and-health-at-work/lang–en/index.htm

3 – PORDATA. http://www.pordata.pt. Retrieved from http://www.pordata.pt/Portugal

4 – Nijboer I. D., Grundemann R., Andries F., 1993, Wrkhervatting na arbeidsongeschiktheid. Ministerie van SZW

Comentários ({{ total }})

Tecnologia na reabilitação após acidente de trabalho

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião