Papel, qual papel? Quem quer e não quer um acordo escrito para dar a mão a Costa

Em 2015, foram precisas 23 páginas para selar as posições conjuntas entre o PS e os partidos à sua esquerda. E desta vez? Haverá papéis? Fomos ver o que cada parte pensa sobre o assunto.

Portugal poderá voltar a ser governado por uma geringonça à esquerda. O cenário nasceu das eleições de domingo e o líder do partido mais votado – o PS – disse logo que tinha intenções de reeditar a solução governativa que o país teve na legislatura que agora termina. No entanto, o modelo pode não ser exatamente o mesmo: nesta nova geringonça podem caber mais partidos e ainda não é certo se desta vez o casamento será com papel ou não.

As posições de cada um dos protagonistas sobre a necessidade de casar com papel são conhecidas. Em 2015, foi Cavaco Silva, o então Presidente da República, que impôs esta solução. Nessa altura, o PS assinou três posições conjuntas. Uma com o Bloco de Esquerda, outra com o PCP e outra com os Verdes. Ao todo, foram 23 as páginas que selaram os entendimentos. Papéis que permitiram um governo de quatro anos.

António Costa prefere acordos escritos

O líder do PS mostra preferência pelos acordos escritos mas não os transforma em linhas vermelhas para fechar entendimentos à esquerda. Questionado sobre se prefere acordos escritos, depois de este domingo o PCP ter dito que preferia entendimentos pontuais, António Costa disse que “a experiência de 2015 se revelou uma boa solução”. “Acho que o que correu bem não deve ser alterado”, disse o secretário-geral socialista.

Catarina Martins deixa tudo em aberto

O Bloco de Esquerda sugere que se a opção for por uma solução de estabilidade, deve seguir as regras que estiveram na base da atual geringonça. Ou seja, tem como base um acordo escrito. Caso contrário, o papel parece mais dispensável para os bloquistas já que se trata de negociações caso a caso.

“O PS tem todas as condições para formar governo e se não tiver maioria absoluta e se precisar de apoio parlamentar tem duas opções: procurar uma solução de estabilidade, que assuma a continuidade da reposição de direitos e rendimentos ao longo da legislatura, e isso deve estar refletido no programa de Governo que vier a apresentar, ou realizar negociações ano a ano para cada orçamento”, disse Catarina Martins na noite das eleições.

Jerónimo de Sousa não quer a “cena do papel”

Os comunistas saíram penalizados nas eleições de domingo e não querem repetir a geringonça nos atuais moldes. “Não haverá repetição da cena do papel”, disse Jerónimo de Sousa na noite eleitoral. O secretário-geral comunista acrescentou como será o comportamento do PCP nesta legislatura. “Será em função das opões do PS que a CDU determinará como sempre o seu posicionamento”, avançou.

André Silva com mais força, mas afasta-se do poder

O PAN prefere ficar fora do casamento que o PS terá de fazer com Bloco de Esquerda ou PCP. Na noite eleitoral, André Silva o líder do partido distanciou-se de um envolvimento mais formal com a solução de Governo que Costa está a construir. “O PAN não quer fazer parte da solução governativa”. “O PS precisa apenas do Bloco de Esquerda ou da CDU”, afirmou o líder do partido que conseguiu eleger quatro deputados. Admitiu porém dar a mão ao Governo para apoiar propostas à imagem do que já aconteceu nesta legislatura.

Marcelo Rebelo de Sousa dispensa o papel

O Presidente da República pode exigir condições ao primeiro-ministro antes de o indigitar para formar Governo, mas, à luz do que Marcelo Rebelo de Sousa tem dito até agora, dificilmente o chefe de Estado vai pedir que haja assinatura de acordos entre os partidos. “Faz-me alguma impressão haver a necessidade de acordo escrito para se garantir a duração da legislatura”, disse em janeiro deste ano numa entrevista à Lusa. Marcelo justificou que esta legislatura “chega ao fim não tanto por causa do acordo escrito”, mas porque houve “uma vontade dos subscritores desse acordo de fazerem durar a legislatura até ao fim – porque todos acharam que tinham a ganhar com isso, e todos acharam que tinham a perder com isso, houvesse ou não acordo”.

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