Há mais famílias a poupar mas a poupança é menor. O que mudou?

Há menos mulheres a poupar e mais a comprar casa e mais jovens a poupar para criar negócios em vez de poupar para a reforma, como a generalidade das famílias. E menos a guardar dinheiro nos bancos.

A taxa de poupança está a cair de forma sustentada desde 2014 e já está abaixo dos 6%, depois de ter aumentado substancialmente em dois períodos críticos: no início da crise financeira mundial em 2008 e depois de Portugal pedir o resgate ao FMI e à União Europeia. Mas não é só a taxa de poupança que está a cair. Quem poupa e a razão pela qual o faz também está a mudar.

Quando a crise agudizou em Portugal, levando o governo de José Sócrates a pedir ajuda financeira ao Fundo Monetário Internacional e à União Europeia em abril de 2011, uma das mudanças positivas apontadas na sociedade portuguesa foi o aumento da taxa de poupança.

Depois de atingir os 5,1% em 2008, os portugueses começaram a poupar de forma agressiva, antecipando os tempos difíceis que se seguiriam, e a taxa de poupança mais que duplicou em apenas um ano. Nos anos que antecederam o resgate ainda houve uma queda das poupanças dos portugueses, mas assim que Portugal pediu ajuda os portugueses voltaram a poupar de forma mais agressiva e taxa de poupança superou novamente os 10%.

No entanto, os dados demonstraram mais um movimento cíclico do que uma mudança de comportamentos. Assim que a fase mais difícil do resgate passou, a taxa de poupança começou a cair e, de forma sustentada, passou dos 10,8% que se verificavam em meados de 2013, para os 5,9% em julho deste ano.

O que mudou para a poupança dos portugueses diminuir tanto?

Há vários fatores a ter em conta quando se analisa a evolução da taxa de poupança. De acordo com uma análise feita pelo Banco de Portugal, a taxa de poupança foi marcadamente baixa durante a primeira década em que Portugal esteve no euro devido ao fluxo abundante de crédito a taxas de juro mais baixas.

No entanto, quando a crise começou estas condições mudaram por completo. As dificuldades no setor bancário e a incerteza nos mercados financeiros levaram a um agravamento substancial das taxas de juro, levando a um abrandamento significativo na procura de crédito, especialmente para a compra de casa ou para crédito ao consumo, os dois principais tipos de crédito pedidos pelos portugueses.

Mas há outro fator muito importante a ter em conta, que afeta tantos os portugueses como as restantes famílias europeias. De acordo com o Banco de Portugal e com uma análise da Comissão Europeia às diferenças nas taxas de poupança dos países da União Europeia, as famílias reagem de forma mais conservadora à incerteza.

Quando há incerteza em relação ao futuro financeiro no seio das famílias, ou quanto às perspetivas de emprego, as famílias tendem a poupar mais. Parte desta poupança é feita através do adiamento da compra de bens duradouros. A mudança de carro ou a compra de uma nova máquina de lavar são adiadas para alturas mais calmas, ou em que o rendimento é mais abundante, e os gastos são reduzidos às necessidades mais urgentes do quotidiano, como a comida e os transportes.

Perspetivando tempos melhores com o fim do resgate e a economia a crescer, os portugueses começaram a gastar mais, fazendo um investimento maior nos bens duradouros que não foram substituídos durante a crise, o que levou a um aumento mais pronunciado do consumo e a uma diminuição da taxa de poupança.

“A diminuição da incerteza incentivou a concretização de decisões de despesa em bens duradouros adiadas nos anos anteriores, o que contribuiu para variações muito significativas desta variável em 2014 e 2015”, diz o Banco de Portugal na análise que fez em 2016.

A análise da Comissão Europeia às diferenças nas taxas de poupança entre os países que fazem para da União Europeia vai até mais longe: “as famílias tendem a poupar mais quando o Estado regista um défice orçamental. As famílias podem, por exemplo, perspetivar um aumento dos impostos no futuro e, por isso, poupam mais agora para alisar o seu perfil de consumo”.

Hábitos de poupança dos portugueses mudaram

Quando a poupança das famílias portuguesas começou a diminuir em 2013, não houve apenas um abrandamento global. Quem poupa e a razão pela qual o faz também mudou.

Apesar da diminuição em termos globais, entre 2014 e 2017 o número de pessoas que poupa aumentou de 53% para 55% (ainda longe dos 67% da média da Zona Euro) mas o número de mulheres que fazem poupanças diminuiu, num período em que começaram a investir mais na compra de habitação, ao contrário dos homens, cujo número global a poupar aumentou, mas os que investiam em habitação diminuiu.

A grande diferença é, no entanto, entre os mais jovens. Esta faixa etária — entre os 15 e os 24 anos — tem tendencialmente um número elevado de pessoas a poupar, mas está a diminuir de forma pronunciada: em 2014 eram 89% os jovens que diziam fazer poupanças nos últimos 12 meses, mas três anos depois este número desceu para 70%.

Há menos jovens portugueses a poupar para a reforma — o principal motivo apontado para as poupanças dos portugueses –, mas o número de jovens que poupam para começar ou expandir um negócio aumentou substancialmente, passando dos 8% para os 29%.

Outra marca importante é a forma como o fazem. Ao contrário da generalidade das famílias portuguesas, onde há um número cada vez maior a fazer poupanças junto do banco (passou de 25% para 32%), os jovens estão a fugir das formas mais tradicionais de poupança. De acordo com o Banco Mundial, o número de jovens que guardaram as suas poupanças numa instituição financeira diminuiu de 44% para 25%.

Luxemburgueses, alemães e suecos poupam o triplo dos portugueses

Usando dados anuais, para poder ser feita uma comparação com os países da União Europeia, é possível perceber que os países onde as famílias poupam mais são Luxemburgo, Alemanha e Suécia.

No Luxemburgo, uma família poupa cerca de 2,14 euros por cada 10 euros de rendimento, na Alemanha são 1,85 euros por cada 10 euros de rendimento e na Suécia 1,80 euros.

Em Portugal, onde as famílias poupam cerca de metade da média dos países que partilham a moeda única, esta poupança é de apenas 65 cêntimos por cada 10 euros de rendimento.

Entre os 21 países para os quais há dados, só Espanha, a Grécia e Chipre, os bálticos e a Roménia poupam menos que Portugal. No caso da Lituânia e da Roménia a questão é mais preocupante, já que em ambos os países as famílias estão a gastar mais do que aquilo que ganham anualmente.

Mas o que explica estas diferenças entre os Estados-membros? Segundo uma análise da Comissão Europeia, a convergência nos níveis de rendimento entre os países da União Europeia não leva necessariamente a uma convergência da taxa de poupança. Os dados apontam para que à medida que a convergência aumenta, o consumo das famílias também aumenta, mas a poupança não acompanha, especialmente nos membros mais recentes da União.

Isto deve-se a uma melhoria nas condições de acesso ao crédito em comparação com o que beneficiavam antes de entrar na União, o que leva as famílias a endividarem-se para apostar na compra de bens duradouros e fazer investimentos que antes seriam difíceis de conseguir, tal como a compra de casa ou de carro. Portugal observou essa mudança na primeira década do euro. Os bálticos e alguns países do centro e leste da Europa estão a sofrer agora o mesmo efeito.

Também há questões mais específicas de cada país. Para além da poupança incentivada pela incerteza da situação económica do país, a forma como está estruturada a fiscalidade de cada Estado-membro também tem impacto nas taxas. Segundo a Comissão Europeia, nos países que apostam mais nos impostos diretos, a taxa de poupança tende a ser mais baixa, porque deixa menor margem às famílias para escolher.

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