Banca vê na Black Friday oportunidade para dar mais crédito ao consumo

Há ofertas de mensalidades em seguros, de anuidades dos cartões de crédito ou cash-backs nas compras, mas o que é transversal é a oferta de descontos nos juros do crédito pessoal.

A banca também quer participar na euforia do Black Friday. Numa altura propícia ao consumo por impulso, são várias os bancos que estão a levar a cabo as campanhas promocionais, onde sobressaem descontos, sobretudo no crédito ao consumo.

Basta fazer uma ronda pelos sites dos bancos que operam em Portugal para identificar diversas campanhas promocionais específicas para o Black Friday. Um dos bancos recorre mesmo ao envio de mensagens aos clientes. Há ofertas de mensalidades em seguros, de anuidades dos cartões de crédito ou de cash-backs nas compras efetuadas, mas algo que é transversal à maioria é a oferta de descontos nos juros do crédito pessoal contratado online.

O BCP, que “pintou” a Black Friday da cor do banco, está a promover o crédito pessoal, com a oferta de uma taxa promocional no crédito pessoal (TAN de 6,25% e TAEG de 9,3%). Também o Santander aposta em descontos no crédito pessoal, riscando uma TAN de 7% e substituindo-a por uma de 6,2% e publicitando ainda uma TAEG de 10,1% em contratações até 2 de dezembro.

Já o BPI faz o seu Black Friday “sem juros” e TAEG desde 0,7% numa gama de 350 produtos que sejam adquiridos até 30 de novembro através de crédito pessoal do banco. O Bankinter opta por enviar por uma mensagem como forma de chegar aos clientes, promovendo a Black Week até 1 de dezembro com descontos na TAN do crédito pessoal através do homebanking e da app, sem adiantar valores. No Crédito Agrícola, o foco são os seus cartões de crédito, optando por esconder a taxa de juro promocional por detrás de um pano que apenas irá retirar a 29 de dezembro.

O Black Friday do BCP faz-se de descontos nos juros do crédito pessoal online.

Esta aposta no financiamento para o consumo “vem ao encontro ao que tem sido a política da banca nos últimos dois anos: de incentivar ao crédito, e principalmente o crédito ao consumo. Isto tem-se notado, nomeadamente, através da maior disponibilização de crédito à distância, através das apps e do homebanking“, começa por dizer Nuno Rico, economista da Deco Proteste a propósito dessas campanhas, acrescentando que os bancos “agora, embarcaram agora nesta onda de marketing e de consumo associada à Black Friday“.

E não houve poupanças no marketing das instituições financeiras. “Aproveite todos os descontos”, “Top Deals”, “Parabéns. Foi selecionado”, “Habilite-se a beneficiar de uma oferta especial. Esteja atento!”. São algumas das frases que os bancos estão a usar com vista a seduzir os clientes para as suas promoções de Black Friday.

Essa aposta insere-se num contexto de juros historicamente baixos, mesmo negativos, e em que os bancos têm todo o interesse em dar crédito, pelas margens que aí conseguem obter. Este segmento, a par das comissões, é de onde os bancos vão buscar uma boa parte da rentabilidade do seu negócio.

"O que nos parece errado é que é um claro incentivo também ao endividamento, e tendo em conta os valores muito significativos do crédito ao consumo que o Banco de Portugal tem vindo a divulgar, isto causa-nos alguma preocupação.”

Nuno Rico

Deco Proteste

Se em causa estiver um cliente à procura de um crédito para um fim que já estava a ponderar, que aproveite a Black Friday para ter um desconto na taxa, Nuno Rico não vê necessariamente um problema. “Não nos parece errado. O que nos parece errado é que é um claro incentivo também ao endividamento, e tendo em conta os valores muito significativos do crédito ao consumo que o Banco de Portugal tem vindo a divulgar, isto causa-nos alguma preocupação“, explica.

O Santander aposta em três frentes. Na Black Friday dá descontos nos juros do crédito pessoal, isenta anuidades e devolve valor de compras nos cartões de crédito, oferece ainda mensalidades em seguros.

A abertura da torneira do crédito por parte da banca, apoiada pela melhoria da situação financeira das famílias, levou a que a nova concessão de empréstimos ao consumo esteja máximos de mais de 15 anos. No acumulado do ano, até setembro, os bancos nacionais já disponibilizaram perto de quatro mil milhões de euros em crédito ao consumo. Seria necessário recuar até 2004 para assistir a um valor superior.

Evolução mensal da concessão de crédito ao consumo

O especialista da Deco considera que esta adesão ao crédito por parte dos consumidores está a ser feita “talvez de uma forma não ponderada e talvez com a repetição de alguns erros do passado”, mas também alerta que os bancos “estão a voltar a ter o mesmo comportamento que tiveram no passado“.

“Se antes era a tradicional carta que era enviada para casa, com ia pelo correio com um cheque fictício, agora é o dinheiro que está disponível na app“, diz Nuno Rico, acrescentando que “esta facilidade de contratação à distância, está a ser usada pela banca como forma de vender crédito“.

O Crédito Agrícola foca a sua campanha de Black Friday nos cartões de crédito, aguardando pelo dia 29 de novembro para desvendar a taxa de juro promocional que pretende oferecer.

De facto, o grosso das campanhas de descontos nos juros do crédito pessoal que os bancos estão a levar a cabo este Black Friday, têm precisamente como foco o online e as apps dos bancos.

De salientar ainda que essa forma de contratação à distância, incide por um tipo de crédito mais permeável ao risco de incumprimento, até pelo nível dos juros que lhes estão associados. No caso do crédito pessoal sem finalidade especifica, atualmente, os juros podem chegar até ao limite de mais de 13%.

No BPI, o Black Friday faz-se de crédito pessoal “sem juros” na aquisição de um gama de mas de 350 produtos.

No caso das campanhas promocionais que os bancos estão a levar a cabo neste Black Friday, os juros oferecidos estão abaixo dessa fasquia, mas ainda estão em causa TAEG em torno de 10% na maioria das campanhas.

E mesmo considerando os descontos nos juros prometidos, Nuno Rico alerta para que os consumidores leiam bem as letras miudinhas. “É necessário que o consumidor tenha a atenção se essas taxas promocionais não são só por uma duração limitada em termos de tempo, ou se se vão manter por todo o processo de crédito”, lembra Nuno Rico.

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