Em pleno caso Luanda Leaks, general “Dino” pode vender 10% da Puma Energy à Trafigura

  • Lusa
  • 27 Janeiro 2020

A Trafigura está a negociar a compra de mais 10% da Puma Energy a uma empresa controlada por Leopoldino Nascimento, o general que faz parte da cúpula da família Dos Santos.

A intermediária de matérias-primas Trafigura está em negociações com o distribuidor de combustíveis Puma Energy para comprar 10% da participação do general angolano Leopoldino Fragoso do Nascimento, conhecido por “Dino”, que ficaria com 5% da empresa.

De acordo com o Financial Times, a Trafigura, uma das principais negociantes em matérias-primas, nomeadamente petróleo, está a negociar um complexo acordo de reestruturação financeira, que fará com a que a Cochan, um veículo de investimento fundado pelo general “Dino”, reduza a sua participação na Puma, que é detida em 28% pela Sonangol, de 15% para menos de 5%.

A Trafigura, que já detém 49% da Puma, venderia depois as ações que comprar à Cochan novamente à Puma, assim conseguindo manter a sua percentagem acionista abaixo dos 49% e evitando consolidar a Puma nas suas contas.

A dívida da Puma, no final de setembro, era de 1,68 mil milhões de dólares, e esta operação poderia ajudar a distribuidora de combustíveis a alargar a base de investidores, de acordo com a estratégia da Trafigura, segundo o jornal económico britânico, que coloca o valor da empresa em quase 3,6 mil milhões de dólares.

O general “Dino” é apresentado pelo FT como um “antigo conselheiro do ex-presidente de Angola José Eduardo dos Santos” e a notícia afirma que “as conversações sobre a Puma surgem numa altura em que Isabel dos Santos foi acusada em Angola de lavagem de dinheiro”, acrescentando que a empresária “repetidamente negou todas as acusações”.

A Trafigura tem uma ligação antiga a Angola, onde chegou a ter quase o monopólio de importação de combustíveis no país através do Grupo DTS, em conjunto com a Cochan, do general “Dino”, e onde ganhou, em maio do ano passado, o concurso para fornecer gasóleo à Marinha.

Em novembro do ano passado, ficou conhecido também o envolvimento da Trafigura no escândalo brasileiro Lava Jato, quando o Ministério Público brasileiro realizou buscas às empresas Vitol e Trafigura, na Suíça, procurando provas para as suspeitas de pagamentos a funcionários da Petrobras em troca da obtenção de contratos.

Poucos meses depois de chegar ao poder, o atual presidente de Angola, João Lourenço, ordenou o lançamento de um concurso para a importação de combustível, já que Angola, apesar de ser o segundo maior produtor de petróleo da África subsaariana, tem uma capacidade de refinação muito limitada, obrigando à importação da quase totalidade do combustível que consome.

Assim, em janeiro de 2018, a Sonangol anunciou a abertura do concurso que, na prática, acabou com o monopólio da Trafigura, até então o maior vendedor de petróleo refinado a Angola e que controla 49% da Puma Energy, dona das bombas angolanas de combustíveis da marca Pumangol.

Segundo um relatório da Organização Não Governamental (ONG) suíça Public Eye, a Trafigura é uma holding em que o petróleo representa 67% do lucro, em 2015, tendo ativos físicos de quase 40 mil milhões de dólares, “incluindo minas, navios, tanques de armazenagem, bombas de gasolina e oleodutos”.

O general Leopoldino Fragoso do Nascimento foi o antigo responsável pelas telecomunicações presidenciais entre 1995 e 2010, tendo sido também ministro de Estado e chefe da Casa de Segurança durante o regime de José Eduardo dos Santos.

“Dino” fez parte do chamado triunvirato que gravitava à volta da família de José Eduardo dos Santos, juntamente com o general Hélder Vieira Dias Júnior (“Kopelipa”) e o ex-vice-presidente de Angola Manuel Vicente.

Entre as principais participações empresariais conhecidas do general “Dino” estão também o Banco Económico, que resultou da falência do Banco Espírito Santo Angola e o grupo de comunicação social luso-angolano Newshold, para além da participação de 15% na Puma Energy.

No final do ano passado, a Polícia Judiciária portuguesa terá intercetado uma transferência de 10 milhões de euros da conta de “Dino” no Millenium BCP a caminho da Rússia, acreditando-se que o destinatário era Isabel dos Santos, o que o general desmente.

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