Matilde Limbert: Portugal apresenta “sinais importantes e favoráveis ao desenvolvimento” das fintech

  • ECO Seguros
  • 2 Fevereiro 2020

Analista da BiG Start Ventures, Matilde Limbert atendeu ao convite de Especial Insurtech - Eco Seguros, para falar das oportunidades que se abrem ao movimento fintech-insurtech a nível local e global.

Atenta ao crescimento acelerado do ecossistema, a especialista do universo BiG refere exemplos emergentes ou já validados nos diferentes verticais das fintech. Enquanto analista em venture capital (vc) Matilde Limbert partilha o expertise de investimento da BSV “muito focado” e solidamente sustentado em pesquisa, análise de valor, adequação de produto ao mercado, ambiente concorrencial e tendências.

A BiG Start Ventures (BSV) é uma ‘early stage’ VC com catorze startups em carteira e espera ter vinte até 2021.

Como perspetiva o panorama atual das startups-fintech em Portugal?
– O ecossistema de fintech em Portugal tem crescido a um ritmo acelerado. Se por um lado observamos um crescente desenvolvimento de soluções inovadoras e disruptivas no setor financeiro, tem sido notável também a crescente colaboração entre banca e seguradoras e as fintechs.

O Portugal Fintech Report 2019 apresenta um estudo do setor fintech em Portugal para o ano de 2019, do qual destaco quatro pontos muito importantes e que caracterizam o panorama atual. Em primeiro lugar, o crescimento que se verifica no setor, com a identificação de mais de 100 empresas com ligação ao país na comunidade da Portugal Fintech. Destaca-se ainda a diversidade de soluções ao nível de verticais, já que dentro do mapeamento das top30 fintechs em Portugal os verticais Insurtech e Lending & Credit são os mais populares, representando cada um 17% do total, e os restantes verticais (Banking Infrastructure & Accounting, Payments and Money Transfers, Personal Finance, Alternative Financing, Capital Markets and Wealth Management, Regtech and Cybersecurity e Blockchain & Crypto) apresentam uma repartição quase igual.

Em segundo lugar, a propensão a um ambiente colaborativo. Cerca de 80% das fintechs em Portugal têm um modelo de negócio B2B (business-to-business), isto é, foram criadas na sua base para colaborar com as empresas já estabelecidas no sistema financeiro e 46% referem que é cada vez mais fácil trabalhar com incumbentes, estando estes progressivamente mais abertos à cooperação.

Ainda, uma melhoria da envolvente regulatória com 50% dos fundadores das top 30 fintechs em Portugal a identificar uma melhoria na acessibilidade dos reguladores financeiros, revelando um desenvolvimento ao nível da política e da regulação, que são um frequente entrave específico a este tipo de empresas.

E, por último, a crescente atratividade do país enquanto referência de fintech ao nível internacional, com capacidade para atrair fintechs estrangeiras com um grande volume de investimento, tais como a Revolut e a Monese que estabeleceram recentemente operações em Portugal, mas também investidores e parceiros internacionais que vêm acelerar o desenvolvimento do setor.

Portugal apresenta assim sinais de crescimento nas quatro dimensões importantes e favoráveis ao desenvolvimento de Fintech: empreendedores com novas ideias e capacidade de as desenvolver, disposição dos incumbentes à cooperação, acessibilidade do sistema regulatório e melhoria do acesso ao investimento.

Na sua perceção quais os verticais fintech mais dinâmicos e procurados por incumbentes, em particular seguradoras?
-Os incumbentes estão cada vez mais dispostos a trabalhar com Fintechs B2B para otimizar processos internos, oferecer novos serviços, e tirar melhor partido dos dados acumulados e infraestruturas existentes.

A extração de dados, bem como a capacidade de tirar valor dos mesmos sob a forma de visões práticas e acionáveis constituem dificuldades dos incumbentes e consequentemente obstáculos à oferta de produtos personalizados devido aos seus sistemas legacy e pouco flexíveis. São, por isso, dimensões dentro das quais há procura de novas soluções tecnológicas – este é o caso da Habit, por exemplo, que agrega e analisa dados de dispositivos IoT, extraindo insights que permitem às seguradoras tomar decisões com base em dados reais e ajustar a sua oferta em função dos mesmos; ou da Drivit que não só recolhe dados e caracteriza os condutores, como também possibilita a sua educação, para que se tornem condutores mais seguros ou eficientes.

Ainda no espaço dos dados, as questões relacionadas com a privacidade e segurança são constantes, devido à alta sensibilidade dos dados associados ao setor financeiro. Assim, empresas como a YData, que permitem a criação de dados artificiais que contêm as mesmas propriedades dos dados originais, possibilitam a partilha com equipas internas ou externas de forma totalmente segura e vêm ajudar os incumbentes a explorar o mundo dos dados.

Por último, a capacidade de fazer o unbundle de produtos financeiros para os tornar mais acessíveis e universais é também um espaço dinâmico e de muita procura. Um exemplo muito evidente é o caso da Coverflex, que oferece uma plataforma digital onde empreendedores ou pequenas empresas podem comprar, ativar e gerir os seguros da empresa de forma customizada, permitindo às Seguradoras aceder a um novo canal de distribuição e chegar a um nicho de mercado para o qual não tinham ainda uma oferta direcionada.

Como se processa, em geral, a validação das propostas e soluções desenvolvidas pelas startups na perspetiva produto e valor? É possível falar de um benchmark ou padrão local?
– A BiG Start Ventures conta com uma equipa multidisciplinar, que reúne um acumular de experiências em diferentes setores e áreas de conhecimento. Desta forma, o produto, a equipa e o mercado são analisados com uma perspetiva completa e robusta que procura também contribuir desde o momento zero para o crescimento da empresa de uma forma multidimensional.

Ao mesmo tempo, procuramos alavancar a forte rede que estabelecemos dentro do setor financeiro, por forma a validar externamente a solução com potenciais clientes e, ou, parceiros, ao mesmo tempo que procuramos acrescentar valor em cada contacto com qualquer empresa, estabelecendo pontes para futuras colaborações.

A metodologia que usamos para a validação está relacionada com a estratégia de investimento que a BiG Start Ventures adota, sendo esta focada ao nível de indústria e ampla ao nível de mercado. No entanto, grande parte dos investidores em Portugal são mais generalistas no que considera a indústria mas locais ao nível de mercado, pelo que poderão apoiar-se noutros modelos mais adequados à sua estratégia.

“Recentemente, com cerca de 14 empresas em portfólio, reforçámos o nosso investimento na Switch Payments, na Drivit e na Counting Up, e investimos na Coverflex. Como objetivo estratégico, esperamos chegar às 20 participadas até 2021.”

A BSV participou em algumas operações em 2019. Pode destacar algumas?
-A BiG Start Ventures nasce de dois focos muito concretos: a vontade de propiciar e incentivar a inovação ao ajudar startups a crescer; e a crença de que a tecnologia tem a capacidade para elevar o setor financeiro atual a um sistema mais justo e acessível. Surgimos, assim, com uma tese de investimento muito focada, que nos permite investir numa intersecção de condições que definem o espaço onde sabemos ter mais valor a acrescentar.
Somos um VC que investe em qualquer geografia, em soluções fintech no seu sentido alargado (englobando assim soluções Insurtech, Regtech, WealthTech e Cybersecurity), e especialmente em B2B. Fazemos investimentos nos estágios iniciais e trazemos smart money para cima da mesa, comprometendo-nos a apoiar as startups em cada fase do seu crescimento.

Comente a ideia de que se assiste no setor fintech a uma sobrevalorização injustificada. Fala-se até de uma ‘bolha’ na ótica do ‘price-to-earnings’.
-Existe essa ideia, sendo mais marcada em empresas em estágios tardios. Em específico, no setor de fintech reúnem-se um conjunto de condições que impulsionam este movimento dos preços. Em primeiro lugar, estas são empresas que tendem a optar por privilegiar o crescimento a longo prazo sobre o lucro no curto prazo, o que leva a que a valorização da empresa considerando as métricas atuais seja considerada elevada, por ter já em conta o potencial futuro da mesma, uma vez que o constante investimento em investigação e desenvolvimento sugere uma concentração de valor nos futuros cash flows.

Em segundo lugar, é também considerado o valor do potencial mercado endereçável para o produto/serviço, que é habitualmente muito grande. Estas são empresas cada vez mais globais e com cada vez maior capacidade de distribuição apoiada na tecnologia, o que gera uma elevada expectativa na capacidade da empresa de crescer as vendas, espelhada na valorização. Ainda, este é um setor onde existem empresas incumbentes que procuram estabelecer parcerias que lhes permitam manter um negócio competitivo tanto ao nível de estrutura como de vendas, pelo que existe também uma valorização implícita que deriva do potencial valor acrescentado pelas sinergias.
Por exemplo, se olharmos para a recente aquisição da Plaid pela Visa no valor de 5,3 mil milhões de dólares, tendo em conta que na ronda de financiamento anterior esta empresa tinha sido valorizada a 2,65 mil milhões (o que representa aproximadamente metade), poderá ser interpretada uma sobrevalorização da empresa. No entanto, a Visa vê nesta aquisição um passo importante para melhorar as relações com fintechs e a possibilidade de alavancar a infraestrutura da Plaid para melhorar o alcance e a ligação com todos os seus clientes e parceiros, por isso, esta representa uma estratégia de negócio importante de fortalecimento ao nível da competitividade e de acesso a novas oportunidades de mercado que explica a disponibilidade a pagar.
No caso das empresas em estágios iniciais, esta sobrevalorização tende a ser menos acentuada. Apesar de haver também uma confiança gerada pelo tamanho potencial do mercado, existe ainda uma necessidade por parte dos investidores de identificar métricas que possam ser indicativas de sucesso, como por exemplo a tração ou as receitas.

Em Portugal, observa-se uma convergência com as grandes capitais europeias no que diz respeito, por exemplo, a ticket sizes, que se têm mostrado mais elevados – como é o caso da Coverflex ou da StudentFinance – o que se deve à crescente participação de investidores internacionais em empresas portuguesas, fruto da qualidade dos empreendedores locais e do aumento do reconhecimento dos mesmos a nível global.

 

 

 

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