Exclusivo BCP prepara-se para cancelar dividendos e dá prioridade ao reforço dos rácios de capital

O conselho de administração do BCP deverá decidir esta semana o cancelamento do pagamento de dividendos. A prioridade é conservar o capital para proteger a solidez dos rácios do banco.

O mundo mudou nas últimas semanas, e isso vai obrigar os bancos a mudarem decisões já anunciadas ao mercado. O BCP deverá decidir esta semana o cancelamento do pagamento de dividendos aos acionistas relativos aos lucros de 2019, apurou o ECO junto de fontes próximas do banco. A decisão formal não está tomada, tem de ser aprovada em conselho de administração, mas já haverá um entendimento de que, neste contexto de incerteza, é importante reter os dividendos e fortalecer a base de capital do banco.

Oficialmente, o BCP não faz quaisquer comentários, mas em privado, Miguel Maya faz questão de repetir que a sua prioridade, “em primeiro lugar, é o o banco e o seu futuro”. Palavras curtas que dizem quase tudo. Falta a aprovação em conselho de administração.

No dia 20 de fevereiro, em conferência de Imprensa, o que disse o presidente executivo do BCP? Miguel Maya adiantou que apresentaria ao conselho de administração do banco uma proposta para distribuição de lucros pelos acionistas “muito, muito conservadora”. “Aprovámos os resultados [302 milhões de euros] e em momento oportuno apresentaremos a proposta para o dividendo. Será proposta de prudência. Será conservadora, muito conservadora, tendo em conta o contexto”, disse Miguel Maya durante a apresentação de resultados. À data, as preocupações eram outras. O ambiente operacional dos bancos “está mais volátil e mais imprevisível”, fruto do ambiente de juros baixos do Banco Central Europeu (BCE) e da guerra comercial, entre outras razões, dizia o gestor. Agora, as razões são outras, mais profundas e sem data para terminar.

O Conselho de administração do BCP, presidido por Nuno Amado, reunirá ainda esta semana para uma decisão, que será posteriormente comunicada ao mercado. De qualquer forma, segundo apurou o ECO, os principais acionistas “representados” no conselho estão alinhados com a comissão executiva na decisão de cancelamento dos dividendos. Os principais acionistas do BCP são a Fosun (27,25%), a Sonangol (19,49%), BlackRock (3,39%) e EDP (2,08%).

A discussão sobre a distribuição de dividendos no BCP tem outro enquadramento de fundo: o valor da ação, que está em níveis historicamente baixos e tem sido particularmente penalizado pela crise do coronavírus, e está ligeiramente acima dos 10 cêntimos. O BCP vale hoje em bolsa pouco mais de 1,6 mil milhões de euros. Mas a prioridade agora é outra. O ‘dividend yield’ já seria baixo e há por isso a convicção de que os investidores vão valorizar a mensagem de que é preferível, neste quadro, reforçar o capital face aos riscos do novo coronavírus. Aquando da apresentação de resultados, o BCP comunicou ao mercado que tinha rácios de capital robustos face às exigências regulatórias, com o rácio total fixado nos 15,6% — 2,3 pontos percentuais acima do exigido.

As orientações para os bancos não distribuírem dividendos já têm uma dimensão europeia. Esta quarta-feira, a sugestão partiu do CEO do UniCredit, Jean Pierre Mustier, enquanto presidente da Federação Bancária Europeia (EBF na sigla inglesa), e foi dirigida aos outros bancos da região: não paguem dividendos este ano e conservem o capital para fazer face à crise provocada pelo surto do coronavírus.

Aquela associação está a tentar obter um consenso entre os seus membros para que não remunerem os seus acionistas. Ao invés, Mustier pediu aos bancos que fiquem com o capital para poderem acudir os seus clientes, famílias e empresas, que atravessam agora maiores dificuldades por causa do travão da economia devido à propagação do novo vírus na região.

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