Dos resultados em campo (e fora dele) à pandemia. Há muitos riscos nas obrigações do Benfica

Benfica SAD volta ao mercado com uma emissão de obrigações para o retalho. Operação, com a qual pretende arrecadar 35 milhões de euros, traz riscos, especialmente por causa da pandemia.

Depois do regresso aos relvados, o Benfica volta também aos balcões dos bancos. Não vai pedir dinheiro à banca, mas sim aos seus clientes sócios, adeptos e simpatizantes. Pretende financiar-se em 35 milhões de euros, dinheiro que servirá, em grande parte, para reembolsar os investidores que detêm títulos e emissões anteriores.

A operação, que arranca a 29 de junho, apresenta, como já vem sendo habitual, uma taxa atrativa à luz da remuneração apresentada por produtos a que os portugueses confiam, tradicionalmente, as suas poupanças. Os 4% são, contudo, explicados pelo risco associado a este investimento, seja o do tipo de ativo em si, que é dívida, seja os associados ao do seu emitente, a SAD dos “encarnados”.

No prospeto de 127 páginas da operação enviado pela SAD à CMVM, 15 destas estão relacionadas exatamente com os riscos que fazer este investimento acarreta.

“A Benfica SAD considera que os fatores de risco que a seguir se descrevem sumariamente são os mais relevantes, pelo que a sua ocorrência poderá ter impactos substanciais e adversos nas atividades da Benfica SAD, na evolução dos seus negócios, nos seus resultados operacionais, na sua situação financeira, nos seus proveitos, no seu património e/ou na sua liquidez, bem como nas perspetivas futuras da Benfica SAD ou na sua capacidade de atingir os objetivos visados” diz no prospeto.

A SAD apresenta todo um capítulo com os tradicionais alertas sobre os resultados desportivos, mas também os financeiros. E, desta vez, há um grande alerta sobre os impactos da pandemia. Admite que podem ser significativamente adversos tendo em conta que deverá levar a que não haja, este ano, grandes negócios na época de transferências.

Veja os riscos:

Riscos relacionados com a Benfica SAD e a sua atividade

Pandemia pode ter “impacto significativamente adverso”

A SAD lembra que vivemos tempos de pandemia. E que esta “pandemia levou a que fosse declarado o estado de emergência em vários países, incluindo em Portugal, e obrigou à suspensão de todas as competições nacionais e europeias em que as equipas de futebol nacionais e europeias participam, de forma a reduzir a possibilidade de propagação desta doença aos trabalhadores e jogadores de futebol”.

“Essa suspensão, cujos efeitos ainda estão por determinar na sua totalidade, terá um impacto significativamente adverso no âmbito desportivo e, sobretudo, económico e financeiro a nível das receitas da Benfica SAD, incluindo a redução de prémios da UEFA, receitas de bilheteira e proveitos decorrentes das transações de atletas”, alerta a SAD.

Resultados nas competições desportivas podem não ser bons

“A Benfica SAD tem a sua atividade principal ligada à participação em competições desportivas nacionais e internacionais de futebol profissional, estando assim dependente da existência dessas competições desportivas, da manutenção dos seus direitos de participação, do desempenho desportivo e dos resultados alcançados pela sua equipa de futebol, nomeadamente da possibilidade de apuramento para as competições europeias, principalmente na UEFA Champions League”.

Neste sentido, o “desempenho desportivo poderá ser afetado pela venda ou compra dos direitos desportivos de jogadores considerados essenciais para o rendimento da equipa profissional de futebol, o que, em conjunto com os resultados obtidos nas competições nacionais e internacionais, têm um impacto considerável nos rendimentos e ganhos de exploração da Benfica SAD, designadamente os que estão dependentes das receitas resultantes das alienações de direitos de atletas, da participação da sua equipa de futebol nas competições europeias, designadamente na UEFA Champions League, e os provenientes de receitas de bilheteira e de bilhetes de época, entre outros”.

Competições europeias são chave nas contas

A SAD alerta para a importância que as competições europeias têm no desempenho financeiro. “Na época em curso, o SL Benfica já não se encontra a disputar competições europeias”, e considerando que “a presente edição da I Liga ainda se encontra a ser disputada, o SL Benfica não pode assegurar que acederá diretamente à edição da UEFA Champions League da época 2020/2021 (ou em edições futuras)”.

Neste sentido, o “emitente não terá direito às receitas inerentes à UEFA Champions League se não conseguir o acesso a esta competição, e tal situação poderá ter um impacto financeiro adverso no emitente”, diz a SAD.

Direitos televisivos também são risco

Uma parte significativa dos rendimentos de exploração da Benfica SAD resultam dos direitos de televisão e dos seus patrocinadores. Uma “menor projeção mediática e desportiva da equipa principal de futebol do SL Benfica poderá implicar uma menor capacidade negocial da Benfica SAD na sua relação com os seus parceiros e demais contrapartes, o que poderá afetar adversamente a sua atividade”, alerta a SAD.

Fair play financeiro? Benfica não espera sanções

Os clubes de futebol são sujeito às regras e diretrizes de financial fair play emitidas pela UEFA, que visam garantir a “sustentabilidade económica das entidades que competem nas competições europeias”. Quem não as cumprir está sujeito a sanções, que podem incluir avisos, multas, retenção dos prémios devidos e, no limite, a proibição de participar nas competições organizadas pela UEFA, as quais poderão ter um impacto adverso na atividade da Benfica SAD”. Apesar lembrar que existe estas regras, a SAD diz que não é expectável que venha a incorrer em sanções.

Dependência das transferências. E com a pandemia, Benfica não espera grandes negócios

Todos os clubes estão dependentes das transferências de jogadores. E os valores a obter com essas operações “estão dependentes da evolução do mercado de transferências de jogadores, da performance desportiva e disciplinar dos jogadores, bem como da ocorrência de lesões nos mesmos e da capacidade da Benfica SAD formar e desenvolver jogadores que consiga transferir”, nota a SAD.

Habitualmente, as SAD realizam várias transferências, permitindo-lhes obter receitas avultadas com as mesmas. Mas, alerta a SAD dos “encarnados”, na sequência dos impactos inerentes à pandemia associada ao novo coronavírus, “não é expectável que ocorram alienações de direitos de atletas relevantes até ao final da época 2019/20, recorrente e significativa fonte de receitas do emitente”.

Riscos relacionados com a relação entre a Benfica SAD e outras entidades do Grupo SL Benfica

SAD e a relação privilegiada com o SL Benfica

Nos riscos, a SAD aponta um óbvio: “o desenvolvimento da atividade principal da Benfica SAD pressupõe a existência e manutenção da relação privilegiada com o SL Benfica, consubstanciada em contratos e protocolos que asseguram ao emitente, designadamente, a utilização da marca ‘Benfica’ pela equipa de futebol profissional e nos espetáculos desportivos, a gestão operacional do Estádio do Sport Lisboa e Benfica e ainda a gestão de um canal de televisão”. Neste sentido, “qualquer alteração com impacto na relação privilegiada que o emitente mantém com o SL Benfica, que não se estima vir a acontecer, poderá afetar significativamente a atividade do emitente”.

Dinheiro do Grupo SL Benfica em risco?

“Existem saldos líquidos a receber com entidades relacionadas com o Grupo SL Benfica que, a 31 de dezembro de 2019, ascendiam a 113,248 milhões de euros. O não pagamento destes montantes em dívida poderá ter um impacto financeiro adverso no emitente”, alerta a SAD.

Direitos de transmissão da Benfica TV e da Nos

A SAD do Benfica, “a Benfica TV, a Nos e a Nos Lusomundo Audiovisuais celebraram um contrato de cessão dos direitos de transmissão televisiva dos jogos em casa da Equipa A de Futebol Sénior da Benfica SAD para a Liga Nos, bem como dos direitos de transmissão e distribuição do Canal Benfica TV”. A contrapartida financeira global ascende ao montante de 400 milhões, sendo que o “recebimento dos créditos decorrentes deste contrato depende do seu cumprimento por parte da Nos e da Nos Lusomundo Audiovisuais”, podendo o incumprimento ter um impacto “financeiro adverso”.

Além da Nos, a SAD alerta que, mesmo não sendo acionista da Benfica TV, há um contrato assinado que “assegura à Benfica SAD a neutralidade dessa transmissão. No entanto, a cessação de qualquer dessas relações, que não se estima vir a acontecer, poderá afetar significativamente a atividade do emitente”.

Riscos relacionados com as operações financeiras da Benfica SAD

Benfica SAD e os risco de crédito

No campo das operações financeira, a SAD do Benfica alerta para o risco de crédito, que advém da incapacidade de uma ou mais contrapartes da Benfica SAD cumprirem com as suas obrigações contratuais. Este risco resulta, essencialmente, da possibilidade de não receber as verbas “decorrentes da alienação de direitos desportivos de jogadores e outras transações relacionadas com a atividade que exerce, nomeadamente a venda de direitos de transmissões televisivas, patrocínios, publicidade, rendas de espaço, camarotes e executive seats“.

Riscos de liquidez na SAD

“O risco de liquidez é definido como sendo o risco de falta de capacidade para liquidar ou cumprir as suas obrigações no prazo estipulado e a um preço razoável”, algo que não assusta de momento, tendo em conta que o passivo é inferior ao ativo. A diferença é, contudo, reduzida, daí que a SAD diga que esta é uma “situação que continuará a ser monitorizada”.

Riscos relativos a processos judiciais, arbitrais e administrativos

Como sempre, existem alertas a processos judiciais que podem afetar a capacidade de a SAD cumprir com as suas obrigações. Neste caso, a Benfica SAD diz que existem, mas “atendendo aos pressupostos e antecedentes das ações judiciais, aos pareceres dos consultores jurídicos da Benfica SAD e às demais circunstâncias que envolvem os processos, que não existem quaisquer ações de natureza judicial, arbitral ou administrativa (incluindo ações pendentes ou suscetíveis de serem empreendidas de que o emitente tenha conhecimento) que possam vir a ter, ou tenham tido no passado recente, um impacto significativo na situação financeira ou na rentabilidade do emitente e/ou do Grupo SL Benfica”.

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