Deloitte deteta 140 falhas nas regras de concessão de crédito desde venda do Novo Banco ao Lone Star

Auditora nota "uma melhoria dos processos" de concessão e acompanhamento de operações de crédito no Novo Banco em relação ao BES. Ainda assim, encontrou decisões que não seguiram as regras internas.

A Deloitte analisou mais de 2.000 atos de gestão na concessão de crédito por parte da equipa de António Ramalho desde que o Novo Banco foi vendido ao fundo americano Lone Star, em outubro de 2017, e identificou cerca de 140 decisões que não se seguiram o normativo interno do banco ou regulamentação.

A informação consta do relatório da auditoria que foi tornado pública esta terça-feira pelo Parlamento, numa versão confidencial, e surge depois de o Governo ter instado o banco a corrigir rapidamente várias questões de controlo interno que foram levantadas pela auditora, não obstante ter reconhecido melhorias no Novo Banco face às práticas que vinham do BES.

A Deloitte concluiu que as perdas 4.000 milhões de euros registadas pelo Novo Banco entre 2014 e 2018 tiveram sobretudo origem no período pré-resolução, atribuindo as responsabilidades à gestão de Ricardo Salgado. Também concluiu que mais de metade dessas perdas dizem respeito a processos de crédito que vieram a revelar-se ruinosos para o banco. A auditora faz uma avaliação muito negativa daquilo que foi a política de crédito durante o BES, que foi alvo de uma medida de resolução em agosto de 2014: concedeu empréstimos sem analisar o risco, sem ter informação suficiente sobre os devedores e sem exigir garantias.

O próprio Governo já tinha dado conta, há uma semana, do “conjunto de insuficiências e deficiências graves de controlo interno no período de atividade até 2014 do BES no processo de concessão e acompanhamento do crédito” que a Deloitte tinha detetado na auditoria. Porém, também acrescentou que, apesar dos “progressos realizados nestas matérias no período de atividade do Novo Banco”, era “imprescindível” que António Ramalho desenvolvesse “todas as ações necessárias para assegurar a rápida e integral correção das questões identificadas no relatório da auditoria especial”.

No dia seguinte, o presidente do Novo Banco afirmou que a consultora indicou “pequenas alterações” que vão ser implementadas. “Não há recomendações ao Novo Banco, mas notas sobre pequenas alterações e detalhes que deviam ser alterados”, disse, assegurando que “vão ser levadas extraordinariamente a sério”. “Há sempre coisas que podem melhorar”, reconheceu o gestor.

Com efeito, de um universo de mais de 2.000 atos de gestão relacionados com operações de crédito durante o período entre 18 de outubro de 2017 e 31 de dezembro de 2018, a Deloitte detetou 143 decisões que foram consideradas exceções no cumprimento do normativo e na suficiência da análise de risco disponibilizada.

Por exemplo, há algumas decisões de crédito (contratações ou alterações) que foram tomadas “sem informação ou com informação insuficiente sobre os ativos dados em garantia” (sete exceções de um universo de 15 atos de gestão analisados), embora muitos destes processos tenham as suas próprias características por terem sido herdados do BES, explica a Deloitte.

A auditora encontrou ainda situações em que as recomendações da direção de risco global do banco não foram consideradas na decisão de aprovação do crédito (8/16). Noutros momentos, as propostas de crédito foram aprovadas sem valorização dos colaterais associados à operação (17/26).

Também há situações em que o cliente não foi objeto de análise por parte do Grupo de Acompanhamento de Risco de Crédito do banco (36/85), criado em 2016, com a Deloitte a sublinhar que, dos 36 devedores identificados no período compreendido entre 18 de outubro de 2017 e 31 de dezembro de 2018, 13 devedores geraram perdas para o Novo Banco superiores a 25 milhões.

Embora tenha detetado todas estas exceções ao normativo, a Deloitte, que fez um levantamento das exceções para vários períodos da vida do banco, incluindo no tempo de Ricardo Salgado, concluiu que houve “uma melhoria dos processos” de concessão e acompanhamento de operações de crédito no Novo Banco.

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