Savannah quer produzir 30 mil toneladas de lítio por ano em Portugal, a partir de 2022

David Archer, CEO da britânica Savannah Resources, diz ao ECO que a produção de lítio na Mina do Barroso pode ter início já no fim de 2022 e dará para construir 500 mil carros elétricos por ano.

No espaço de três anos, em 2023, Portugal poderá já estar a produzir na Mina do Barroso, concelho de Boticas, 30 mil toneladas de lítio, o suficiente para fabricar baterias necessárias para equipar meio milhão de carros elétricos por ano, o equivalente ao número destes veículos de baixas emissões poluentes que foram vendidos em toda a Europa em 2019. Este volume de produção (86% para exportação) significa que o lítio poderá contribuir com 110,2 milhões de euros por ano para a balança comercial e criar mais de 200 postos de trabalho diretos quando o projeto entrar em operação. O contributo anual para o PIB será de quase 34 milhões de euros.

O cenário é traçado por David Archer, CEO da Savannah Resources, empresa britânica cotada na bolsa de valores de Londres AIM (London Stock Exchange) que se dedica à prospeção e desenvolvimento de ativos mineiros em várias geografias. Neste momento, a empresa está a vender os seus ativos de cobre em Omã e também a avaliar os projetos de areias minerais em Moçambique. “É difícil apostar em várias frentes ao mesmo tempo. O foco vai ser maior em Portugal”, disse em entrevista ao ECO/Capital Verde.

“Esperamos poder começar a produção de lítio na Mina do Barroso no final de 2022, e atingir uma operação de larga escala em 2023. É uma boa perspetiva porque até lá a produção e venda de veículos elétricos vai aumentar dramaticamente. A nossa produção anual de lítio chegará para fabricar mais de meio milhão de carros elétricos por ano e reduzir 100 milhões de toneladas de CO2. Em Portugal vamos produzir cerca de 200.000 toneladas de concentrado de espodumena, o que equivale a 30 mil toneladas de lítio por ano“, disse David Archer na entrevista.

De passagem por Lisboa, o CEO revelou que nos planos da empresa para o país está também a participação no novo concurso público para a atribuição de direitos de prospeção de lítio e minerais associados em nove zonas do país, que o Governo quer lançar ainda este ano, e a construção de uma central solar na região norte para produzir eletricidade renovável suficiente para suprir as elevadas necessidades energéticas de uma operação mineira que processará 1,5 milhões de toneladas de rocha por ano.

Sob protestos dos ambientalistas, da autarquia e da população local — que criou a Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso para tentar travar a mina –, desde 2017 a empresa já investiu 30 milhões de euros numa primeira fase de compra, avaliação e prospeção. Agora espera avançar, no final de 2021, com uma segunda fase que durará cerca de nove meses e incluirá a construção de uma fábrica (denominada lavaria) dentro da própria mina para a produção de um pó concentrado (com um teor de 6% de óxido de lítio), na qual vão ser investidos mais 110 milhões de euros.

Antes disso, há ainda um longo caminho a percorrer, mas David Archer diz-se confiante: até o fim de novembro está a decorrer o processo de resposta às dúvidas levantadas pela Agência Portuguesa do Ambiente ao Estudo de Impacte Ambiental (EIA) apresentado pela Savannah a 30 de maio, após o qual o documento seguirá para consulta pública. Depois disso, caberá à APA emitir uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA).

David Archer, CEO da Savannah Resources, em entrevista ao ECO/Capital Verde - 24SET20
David Archer, CEO da Savannah ResourcesHugo Amaral/ECO

O CEO explica que a Mina do Barroso, um projeto da Savannah Lithium, subsidiária da Savannah Resources“, não conseguirá satisfazer toda a procura europeia, mas ajudará a Europa a tornar-se parcialmente autónoma nas suas necessidades de lítio”. De acordo com os cálculos de Bruxelas, a Europa necessitará de 18 vezes mais lítio até 2030 e de até 60 vezes mais até 2050 para as baterias dos automóveis elétricos e para o armazenamento energético. Já o último relatório do Banco Mundial prevê que procura de lítio no mundo vai disparar 965% face à produção atual.

“A Comissão Europeia está preocupada e quer garantir que a indústria automóvel europeia se mantém forte e robusta e faz a mudança para a mobilidade elétrica, a começar pela autonomia nas matérias-primas. Há algumas semanas, Bruxelas declarou que o lítio é um mineral estratégico, porque estão preocupados com a concentração excessiva da produção na China” disse David Archer.

No início de setembro, a Comissão Europeia apresentou um novo plano de ação para as matérias-primas essenciais, nas quais se inclui o lítio, e defendeu especificamente a exploração deste mineral no norte de Portugal, no âmbito da nova estratégia para reduzir a dependência externa. No entanto, Bruxelas apelou ao “diálogo com as comunidades locais”, assegurando que “os projetos de lítio não só são da maior importância, como também beneficiarão a região e o país”.

“Portugal é muito forte na energia renovável, nomeadamente a solar e a eólica, e para isso é necessário armazenar a energia [através do lítio], não só para o setor automóvel, como também para as baterias industriais”, defendeu o vice-presidente da Comissão Europeia, Maroš Šefčovič, sublinhando os planos do Governo português para criar um ‘cluster’ do lítio e da indústria das baterias elétricas no país.

Para isso, está já na calha um concurso público para a atribuição de direitos de prospeção de lítio e minerais associados em nove zonas do país, entre as quais as áreas de Serra d’Arga, Barro/Alvão, Seixo/Vieira, Almendra, Barca Dalva/Canhão, Argemela, Guarda, Segura e Maçoeira, onde a exploração de lítio é contestada por vários movimentos cívicos, associações ambientais e associações culturais. Apesar disso, David Archer não esconde o interesse da britânica Savannah Resources entrar no concurso e expandir a sua exploração mineira em Portugal além da Mina do Barroso.

Com uma licença de mineração de 30 anos, até 2036, atribuída pelo Governo, neste momento a Savannah já está a extrair quartzo e feldspato — minerais usados na indústria cerâmica portuguesa e espanhola. “O objetivo é expandir a operação, que neste momento não tem grande valor acrescentado, e torná-la em algo muito maior”, garante o CEO.

Além do aval de Bruxelas, a exploração de lítio no norte de Portugal conta ainda com o apoio do Governo e consta no plano de recuperação económica delineado por António Costa Silva.

“O Governo viu que há um mineral valioso no país e quer explorá-lo da melhor forma em benefício da economia e do país. Além de minerar a matéria-prima, seria interessante criar uma cadeia de valor, com uma refinaria em Portugal. Desenvolver uma nova indústria no país podia resultar num investimento de 400 ou 500 milhões de euros só na refinação e daí evoluir para uma fábrica de baterias elétricas. Portugal quer aumentar a sua atratividade ao investimento estrangeiro, por isso faz sentido”, garante David Archer.

A Savannah Resources fala de um “investimento sólido” em Portugal e o CEO está contente com a forma como o projeto está a evoluir. “Quando comprámos em 2017 não tínhamos ideia que se ia desenvolver tão bem. É o maior ativo de lítio da Europa. Já conseguimos provar que existem 30 milhões de toneladas de recursos minerais (material que contem 1,1% de lítio, que depois é limpo e concentrado a 6% na lavaria, através de um processo físico). Há urgência em obter lítio e este é o projeto europeu que está mais avançado e pronto a produzir. As vendas de carros elétricos vão começar a disparar e a indústria automóvel europeia quer evoluir”, diz.

Na visão de David Archer, “o norte de Portugal tem ainda muito a prometer” e a Savannah “está muito interessada” nas novas licenças de prospeção para mineração no país.Para já estamos concentrados neste projeto. A Mina do Barroso tem um tempo médio de vida de 15 anos, ainda vamos ficar por aqui algum tempo”, rematou o CEO.

No entanto, o plano de investimento do Governo para valorizar os recursos minerais estratégicos (como o lítio, nióbio, tântalo e terras raras) mereceu já a reprovação dos ambientalistas da Zero, entre outros, que exigem que a medida seja acompanhada de uma Avaliação Ambiental Estratégica para “avaliar corretamente a possibilidade de uma exploração sustentável, tendo em consideração as componentes ambientais, sociais e económicas, nas diferentes áreas do território”.

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