Biden herda uma economia fragilizada pela Covid-19

Os EUA viviam até 2019 o seu maior ciclo de crescimento, mas a pandemia mudou as contas. O Presidente-eleito terá de lidar com uma economia em recuperação e com uma dívida e um défice brutais.

Está prestes a terminar o mandato de Donald Trump na Casa Branca. Quatro anos depois, os comandos dos EUA passam para o democrata Joe Biden, anunciado Presidente-eleito. Trump alega ter construído a melhor economia de sempre para o país, mas a realidade mostra que a história mudou em 2020, quando chegou a pandemia.

Os dados mais recentes são fortemente influenciados pela pandemia. No segundo trimestre do ano, os Estados Unidos sofreram a maior queda em sete décadas, com o PIB a contrair 31,4% (em termos anualizados, como é medido pelas entidades estatísticas do país) no período mais afetado pelo confinamento. A combinação de fortes contrações no consumo privado, exportações, inventários (stocks), investimento e consumo público levaram ao colapso do PIB.

A este seguiu-se uma recuperação expressiva no terceiro trimestre: a economia expandiu 7,4% face aos três meses anteriores, o que se traduziu num crescimento anualizado de 33,1%. Neste caso, é mesmo um máximo de sempre conseguido graças à subida de 40,7% dos gastos das famílias, a par do disparo de 82% no consumo de bens duradouros (que envolve a compra de carros, mobiliário ou computadores).

"É importante lembrar que não se trata puramente de uma corrida aos gastos após o confinamento, mas que as transferências massivas do Governo apoiaram o sentimento e impulsionaram a despesa.”

James Knightley

ING

É importante lembrar que não se trata puramente de uma corrida aos gastos após o confinamento, mas que as transferências massivas do Governo (com cheques de 1.200 dólares, apoios contra o desemprego e pagamentos federais de mais 600 dólares por semana) apoiaram o sentimento e impulsionaram a despesa”, explica James Knightley, economista-chefe internacional do ING.

Apesar da retoma, a economia norte-americana continua 3,5% abaixo dos níveis anteriores à pandemia. Durante os três primeiros anos de Trump na Sala Oval, o crescimento anual do PIB norte-americano foi de 2,5%, o que compara com uma média de 2,3% da Administração de Barack Obama. Isso não significa, no entanto, que Trump tenha totalmente razão já que, por um lado, parte deste crescimento foi herdado das políticas de Obama — até final de 2019, os EUA viviam o maior ciclo económico da sua história com um crescimento de uma década — e, por outro, porque, nos anos 1950, o PIB anualizado do país superava os 10%.

Trump pôs a economia dos EUA a crescer 2,5% ao ano antes da pandemia

Fonte: U.S. Bureau of Economic Analysis

É neste cenário que se inicia o novo mandato. “Desde o início do ano que o pano de fundo para as eleições mudou dramaticamente já que as políticas da próxima administração irão moldar a recuperação económica e construir as fundações para a próxima expansão. A primeira parte do próximo mandato presidencial será focado na reconstrução da economia”, sublinham os analistas David Kelly e Meera Pandit do JP Morgan.

O investimento em infraestruturas, que tem apoio bipartidário, parece estar garantido para as políticas públicas dos próximos anos. Despesa pública e impostos a famílias e empresas são as duas peças chave para estimular a retoma, sendo que ainda não é certa a evolução que a segunda vaga (e eventualmente outras subsequentes) vai ter e, consequentemente, como irá evoluir a economia.

Serão esses estímulos económicos que poderão ajudar as bolsas a continuar a recuperação e a retomar o rally que vivia e que em grande parte foi alimentado pelos cortes de impostos que Trump deu às empresas. Desde as últimas eleições, o financeiro S&P 500 valorizou 58%, o industrial Dow Jones 50% e o tecnológico Nasdaq… 136%.

"Desde o início do ano que o pano de fundo para as eleições mudou dramaticamente já que as políticas da próxima administração irão moldar a recuperação económica e construir as fundações para a próxima expansão.”

David Kelly e Meera Pandit

JP Morgan

Mesmo depois da economia estabilizar, a próxima Administração terá outro desafio pela frente: uma dívida e um défice brutais. A estimativa do think tank norte-americano Committee for a Responsible Federal Budget (CRFB) é que as medidas de combate à pandemia façam quadruplicar o saldo negativo das contas públicas este ano, para um recorde de 3,8 biliões de dólares, equivalente a 18,7% do PIB, antes de cair para 2,1 biliões de dólares em 2021. Para financiar este défice, a dívida poderá disparar para 100% do PIB, acima dos 80% antes do início da pandemia.

A necessidade de emitir nova dívida em grandes montantes, em conjunto com a política monetária da Reserva Federal norte-americana, poderão levar a uma aceleração da inflação com impacto negativo no dólar norte-americano. Em termos políticos, poderá obrigar à tomada de decisões pouco populares como a subida de impostos ou austeridade na despesa pública.

S&P 500 ganhou mais de 50% na última administração

Fonte: Reuters

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