Bitcoin renasceu das cinzas. O que reserva 2021 para a criptomoeda?

Das várias surpresas que nos trouxe 2020, o novo recorde da bitcoin foi uma delas. Porque disparou a moeda virtual mais popular do mundo e o que lhe reserva o novo ano de 2021?

Em 2020 aconteceu de tudo. Por isso, talvez não seja assim tão surpreendente que um dos maiores fenómenos tecnológicos e financeiros dos últimos anos tenha regressado para, uma vez mais, deixar boa parte do mundo de queixo caído. Poucos tinham ouvido falar da bitcoin quando, em meados de 2017, a criptomoeda iniciou uma escalada vertiginosa até tocar um máximo acima dos 19.000 dólares em dezembro desse ano. O preço deixou o mercado estupefacto e muitos viram no valor avultado deste ativo virtual o indício de que tudo podia não passar de mais uma “bolha”.

Os meses que se seguiram provaram que os receios não eram, de todo, infundados. Ao longo de 2018, a bitcoin viria a protagonizar uma surpreendente correção de mais de 83%, atingindo um mínimo de 3.157,98 dólares a 11 de dezembro desse ano. Investidores que tinham aderido à moda em pleno pico da euforia acabaram por perder centenas ou milhares de dólares, à medida que foram fechando posições e reconhecendo menos-valias.

Mas também foram muitos os que aguentaram e que sempre acreditaram num regresso da criptomoeda mais popular do mundo. Num ano de pandemia, marcado pelas dificuldades financeiras de muitas famílias e empresas, e depois de um crash global no valor dos ativos financeiros em março, a bitcoin renasceu das cinzas e saltou novamente para a ribalta.

A 30 de novembro de 2020, o preço da bitcoin atingiu os 19.873 dólares, um novo máximo histórico. Semanas depois, a criptomoeda acabou mesmo por se superar a si própria, ultrapassando a fasquia dos 20.000 dólares e sustentando a sua posição, ganhando ainda mais terreno e chegando a cotar nos 24.300 dólares no domingo de 20 de dezembro.

Contas feitas, só em 2020, a bitcoin quadruplicou de valor. E já depois do Ano Novo, neste sábado, 2 de janeiro de 2021, o valor da criptomoeda voltou a disparar para um patamar acima dos 30.000 dólares, chegando mesmo a tocar nos 31.312,62 dólares, segundo dados da CoinDesk. É um recorde absoluto, um valor nunca antes visto.

Evolução do preço da bitcoin em 2020

Fonte: CoinDesk

É impossível saber ao certo os motivos por detrás destas subidas — reguladores em todo o mundo têm alertado para os riscos inerentes aos ativos virtuais, incluindo o risco de manipulação do mercado. Mas tem surgido alguma literatura que tenta justificar a surpreendente recuperação da bitcoin em 2020.

Alguns investidores acreditam que a bitcoin tem vindo a ganhar pelos mesmos motivos que 2020 foi também marcado por máximos históricos do ouro. Com os mercados de capitais sujeitos a alta volatilidade, muitos procuraram refúgio nestes ativos sem correlação com as bolsas e o mercado obrigacionista. A diferença é que, enquanto o ouro ganhou cerca de 26% desde o início do ano, a bitcoin mais do que triplicou o seu valor.

Outro fator importante a ter em conta é que 2020 foi um ano de halving, o fenómeno periódico que corta para metade o ritmo de emissão de novas moedas. A 11 de maio, tal como previsto no código informático que serve de base ao funcionamento da bitcoin, a remuneração paga por cada conjunto de transações processado passou de 12,5 bitcoins para apenas 6,25 bitcoins, o que terá influenciado também o valor da moeda digital.

Este acontecimento técnico visa reduzir gradualmente a velocidade de emissão de novas unidades da moeda, eventualmente até ao ano de 2140, em que deverá ser atingida a oferta máxima de 21 milhões de bitcoins a circularem no mercado. Com a emissão limitada, as dinâmicas da oferta e da procura ditam que o preço tende a subir.

Outros motivos podem estar na base do crescimento da bitcoin: investidores institucionais têm integrado este tipo de ativos virtuais nos seus portefólios para efeitos de diversificação. Com a infraestrutura tecnológica da bitcoin a mostrar-se resiliente ao longo dos anos, alguns investidores com maior apetência ao risco têm mesmo desenhado portefólios exclusivamente assentes em moedas virtuais.

Sim, moedas virtuais no plural. Porque não foi só o preço da bitcoin a ganhar valor em 2020. O preço do Ethereum e da Litecoin, duas outras criptomoedas, também valorizou expressivamente no ano que agora terminou.

De resto, importa notar que o panorama das criptomoedas em 2020 é muito diferente do de 2017. Nesse ano, proliferavam as chamadas ICO (Inicial Coin Offerings), operações de emissão de novas criptomoedas com vista à angariação de fundos para projetos específicos. Muitas foram arrasadas com o passar dos anos e pouco ou nada valem hoje.

Disso também é exemplo o arrefecimento do mercado das ICO. Em 2017, 10 mil milhões de dólares foram angariados em 966 operações deste género e, em 2018, foram 2.284 operações de ICO e 11,4 mil milhões de dólares angariados, segundo o site especializado Coin Telegraph. Já nos primeiros dez meses de 2019, sobre os quais incide o mais recente relatório da PwC sobre o tema, foram registadas apenas 380 ofertas e angariados 4,1 mil milhões de dólares.

Apesar de ter sido criada para romper com o sistema financeiro centralizado, o mundo da bitcoin confunde-se cada vez com o sistema que outrora pretendeu tentar substituir. Além dos primeiros derivados financeiros da bitcoin, lançados em 2017, a Coinbase, a maior “carteira” de bitcoin e outras moedas virtuais, deu início em dezembro ao processo de entrada na bolsa dos EUA.

Por isso, para já, a bitcoin continua sem cumprir uma das suas promessas mais ousadas: a de substituição do dólar e de outras divisas físicas como moeda dominante. Ninguém é capaz de prever o futuro, muito menos o valor futuro dos ativos financeiros. Se o preço da bitcoin afundar durante o novo ano, será a repetição de 2018. Mas a verdadeira surpresa estará na sustentação dos preços atingidos no final deste ano. E, para já, o recorde acima dos 30.000 dólares deverá ser um bom presságio para os fãs deste ativo virtual.

Correção: Uma versão anterior indicava que a bitcoin tinha atingido um máximo histórico na ordem dos 18.000 dólares em 2017. Na verdade, o pico foi acima dos 19.000 dólares. Aos leitores, as nossas desculpas.

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