Prova dos 9: É verdade que “Portugal já desconfinou, só não está a trabalhar”, como diz a CIP?premium

A Confederação Empresarial de Portugal (CIP) quer um desconfinamento mais rápido do que o proposto pelos especialistas, por considerar que o país "já desconfinou, só não está a trabalhar". É verdade?

O Governo vai apresentar na quinta-feira um plano de desconfinamento para o país, quase dois meses depois de aplicar restrições para travar a terceira vaga da pandemia. Nenhuma medida está oficialmente confirmada, mas os especialistas propuseram uma reabertura bastante gradual, a começar pelas creches e jardins-de-infância e permitindo-se vendas ao postigo, mas ainda sem muitos dos setores de porta aberta.

O esperado levantamento das restrições dá-se numa altura em que Portugal regista algumas centenas de novos casos a cada dia e dezenas de mortes. Mas o alívio da situação pandémica é evidente e foi enaltecido pelos epidemiologistas na última reunião do Infarmed, que teve lugar esta segunda-feira. O problema continua a ser os internamentos em unidades de cuidados intensivos acima dos 200, número que é considerado elevado.

Neste contexto, o cenário de uma reabertura mais lenta não é consensual entre as organizações da sociedade civil. Nas últimas semanas, têm sido várias as vozes que apelam a um desconfinamento mais acelerado, como é o caso da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), que desenhou uma proposta de plano de desconfinamento a começar já no dia 15 de março com a reabertura de creches, jardins infantis, ensino básico até ao 6.º ano, cabeleireiros, livrarias e até alfarrabistas. As palavras da CIP foram duras.

A afirmação

"O país e os portugueses atingiram um elevado nível de fadiga pandémica. A perceção do menor risco está em forte correlação com a menor adesão às medidas restritivas. Portugal já desconfinou. Só não está a trabalhar!" - CIP na Proposta de Plano de Desconfinamento, de 8 de março de 2021.

Os factos

Presidida por António Saraiva, a CIP é uma confederação empresarial que tem por missão "a defesa do tecido empresarial nacional". Os números oficiais indicam que a organização "representa mais de 150.000 empresas, que empregam 1,8 milhões de trabalhadores e são responsáveis por um volume total de negócios que representa 71% do PIB nacional".

A Covid-19 foi detetada pela primeira vez em Portugal a 2 de março de 2020 e há mais de um ano que os portugueses têm as suas vidas bastante condicionadas pelas medidas que são tomadas para travar a pandemia. No caso concreto português, o país começou por confinar durante mais de um mês, entre meados de março e maio de 2020.

O cenário repetiu-se no início de 2021. Face ao avanço descontrolado da pandemia depois do alívio de medidas no Natal, o Governo viu-se obrigado a decretar um novo confinamento que vigora desde 15 de janeiro. Dura há mais tempo do que o anterior e é difícil encontrar quem não esteja ansioso para que a vida volte a assemelhar-se àquilo que era dantes.

A "fadiga pandémica" é o fenómeno de exaustão mental (e até física) que resulta da atual situação de confinamento prolongado e que pode levar a uma menor adesão às regras de confinamento decretadas pelo Executivo, visto que as mesmas não são naturais -- o ser humano é, por natureza, um ser social, precisamente uma das características aproveitadas pelo coronavírus para se replicar e proliferar.

Num sub-site da Direção-Geral da Saúde (DGS) sobre a saúde mental, criado no âmbito da pandemia, há referências ao flagelo da "fadiga pandémica": "Os especialistas em saúde mental dizem que não estão surpreendidos com a falta de cumprimento das regras de confinamento. Esses especialistas atribuem os comportamentos de alheamento àquilo que a Organização Mundial de Saúde chama 'fadiga pandémica'", lê-se numa publicação da DGS que cita uma reportagem da RTP.

Todavia, as últimas semanas mostraram que o confinamento surtiu efeito: os novos casos diários afundaram para algumas centenas (chegaram a ser 16.432 a 28 de janeiro) e há muitos menos portugueses a morrerem de Covid-19 (nesse dia de janeiro, a pandemia fez 303 vítimas no país). Semana após semana, há notícias do encolhimento da lista de concelhos em "risco extremo" (os que têm mais de 960 casos por 100 mil habitantes no acumulado dos últimos 14 dias) e, na segunda-feira, os portugueses souberam que já não há nenhum município neste escalão.

Haverá uma menor perceção do risco, de tal forma que esteja a resultar numa menor adesão às medidas? O Governo tem vindo a monitorizar os indicadores de mobilidade e, na reunião do Infarmed, os especialistas admitiram que sim: verifica-se, de facto, uma maior mobilidade dos portugueses nas últimas semanas.

Alguma dessa informação é pública. A 3 de fevereiro, o ECO noticiava que os dados de mobilidade dos smartphones da Google mostravam Portugal confinado, mas a mexer mais do que no confinamento de 2020. As estatísticas, datadas de 29 de janeiro, permitiam concluir que os portugueses estavam a passar mais tempo em casa, mas estavam também a sair mais à rua (porventura devido a uma menor perceção do risco e pela massificação das medidas de proteção pessoal).

Nessa altura, a tendência de mobilidade em locais residenciais estava 26% acima do nível pré-Covid. Ora, no relatório mais recente, datado de 5 de março, a percentagem cai para 21%, um sinal de que os portugueses estão a passar menos tempo em casa. Além disso, o relatório atualizado da Google mostra uma recuperação na mobilidade em estações de transportes públicos e até em parques. No caso das merecerias e farmácias, a mobilidade está já 1% acima dos níveis pré-pandemia.

Para fazer a "Prova dos 9", importa ainda recordar que uma das principais alterações desencadeadas pela pandemia foi a massificação do teletrabalho. Ainda não existem estatísticas para o início do ano (são trimestrais). Mas as últimas, referentes ao período de outubro a dezembro de 2020, indicavam que 12,3% da população empregada de Portugal estava em teletrabalho.

Recuando ao primeiro confinamento, os dados do INE apontavam existir mais de um milhão de portugueses em teletrabalho no segundo trimestre do ano passado, 23,1% da população empregada do país.

Prova dos 9

A CIP começa por afirmar que "os portugueses atingiram um elevado nível de fadiga pandémica". A pandemia é uma experiência global à qual ninguém escapa e o fenómeno de exaustão está bem documentado a nível nacional e internacional.

Na segunda frase, a CIP alega que há uma "perceção" de "menor risco" e afirma que essa perceção explica "a menor adesão às medidas restritivas". Os factos descritos neste artigo mostram que o decréscimo dos números da pandemia reduz a perceção de risco dos portugueses e coincide com uma menor adesão das medidas restritivas, como mostram, por exemplo, os dados de mobilidade da Google.

A afirmação de que "Portugal já desconfinou" remete exatamente para essa retoma dos indicadores de mobilidade, um sinal de que os portugueses estão a passar menos tempo em casa. No entanto, não é totalmente certo afirmar que o país já está completamente desconfinado, como sugere a declaração. Pode haver uma parte do país que está efetivamente mais ativa, mas os dados mostram que a permanência em casa continua bastante superior ao que era "normal" antes da pandemia.

Por fim, a CIP indica que, apesar de o país já ter desconfinado, "não está a trabalhar". Sendo a confederação liderada por António Saraiva uma organização de defesa dos interesses das empresas, compreende-se que a declaração diz respeito aos vários negócios que as medidas restritivas do Governo impedem de funcionar. É o caso dos restaurantes, que não podem servir ao público, mas não só: bares e discotecas estão há mais de um ano sem poderem abrir portas e os cabeleireiros são uma das categorias de estabelecimentos que foram encerrados com o confinamento deste ano.

Porém, há uma grande percentagem de portugueses de outros setores que, efetivamente, nunca deixaram de trabalhar, uns por estarem em teletrabalho, mas outros, como os profissionais de saúde, que provavelmente nunca trabalharam tantas horas como agora. Como vimos, os dados do INE indiciam que há uma "fatia" relevante de empresas a funcionar e que o país não está parado.

Os dados da CIP também indicam isso mesmo. A confederação tem promovido inquéritos mensais aos seus associados e, em fevereiro, concluiu que 67% das empresas associadas estavam em funcionamento, o que, sendo uma descida significativa face ao inquérito anterior, é uma percentagem que está longe de permitir dizer que o país "não está a trabalhar", como escreveu a confederação na proposta de plano de desconfinamento.

Assumindo que as palavras da CIP não foram produzidas com o intuito de serem levadas à letra, a mensagem da confederação será a de que o confinamento em Portugal está a aliviar à medida que caem os números da Covid-19, enquanto o Governo continua a impedir alguns setores da economia de operarem. Isso é certo. Mas não há como afirmar que Portugal "não está a trabalhar", o que é contrariado mesmo pelos números da própria CIP. A afirmação é, por isso, quase certa.

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