BCE desacelera compra de dívida apesar da turbulência nos mercados

As compras do Banco Central Europeu (BCE) desaceleraram nas duas últimas semanas. Os analistas questionam a estratégia face à turbulência dos mercados por causa das expectativas de inflação.

A expectativa de alguns investidores de que a inflação vai subir a médio prazo levou ao aumento dos juros nos prazos mais longos da dívida soberana na Europa. As taxas continuam em níveis historicamente baixos, mas a subida fez soar o alarme em Frankfurt, sede do Banco Central Europeu (BCE), com declarações a sair de imediato para abafar essa tendência. Contudo, na prática, o BCE desacelerou (em vez de acelerar) o ritmo de compra de ativos, que é um dos instrumentos que tem para influenciar a curva de rendimentos da dívida soberana europeia.

Os dados divulgados esta segunda-feira sobre o PEEP (programa de compras de emergência pandémica) mostram que na última semana de fevereiro a compra líquida de dívida ficou pelos 11,9 mil milhões de euros, desacelerando pela segunda semana consecutiva, tal como escreveu o Financial Times. O valor fica aquém dos 12 mil milhões de euros registados na semana anterior e fica bem longe da média de compras líquidas de 18,1 mil milhões de euros desde que o PEPP arrancou no ano passado.

A expectativa dos analistas, como demonstra a reação de Frederik Ducrozet, analista da Pictet, era que acontecesse exatamente o contrário. “Frankfurt, temos um problema. É a segunda semana consecutiva com compras líquidos do PEPP muito baixas, apesar da retórica ‘dovish’ [acomodatícia] do BCE“, escreveu Ducrozet no Twitter, argumentando que as “grandes amortizações” de dívida comprada no passado ou “fatores sazonais” não são uma desculpa para este desempenho do PEPP. “Onde há vontade, há um caminho”, afirmou.

O analista considera que se o BCE quer ser “credível” aos olhos dos mercados tem de investir de acordo com os objetivos que proclama. A falta de “consistência”, diz Frederik Ducrozet, poderá obrigar o BCE a fazer mais “eventualmente” para compensar a falta de ação neste momento. O analista especialista em política monetária recorda o discurso de Fabio Panetta em que este citou uma música do duo francês Datf Punk: “harder, better, faster, stronger“, disse o membro da comissão executiva num discurso recente sobre a necessidade de a política macroeconómica (monetária e orçamental) continuar ativa.

Da parte do BCE, a explicação é que as compras líquidas semanais estão a ser afetados por “fatores sazonais, em particular as amortizações”. “Recentemente têm sido feitas grandes amortizações que baixam as nossas aquisições líquidas e atrasam temporariamente o aumento do nosso stock de obrigações“, explicou fonte oficial do banco central, citada pelo FT.

No mercado secundário da dívida soberana houve um sell-off de obrigações (e consequentemente uma subida dos juros) dos prazos mais longos, devido à crescente expectativa de alguns investidores de que a taxa de inflação vai acelerar nos próximos meses por causa de um conjunto de fatores. Essa tendência foi mais intensa nos EUA, mas contagiou também os mercados europeus. Ainda assim, este deverá ser um dos focos da reunião de política monetária do conselho de governadores do BCE esta quinta-feira, principalmente na conferência de imprensa com a presidente Christine Lagarde.

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