Português lança criptomoeda solidária que doou mais de 400 mil dólares em seis dias

Chama-se $Munch, usa um donut como símbolo e cobra uma comissão que, parcialmente, reverte para uma instituição de caridade à escolha dos utilizadores. Angariou mais de 400 mil dólares em seis dias.

“Entrei no mundo das criptomoedas como investidor”, conta Rodrigo Resende Silva. Ano e meio depois, decidiu lançar a sua.

O novo token (criptomoeda) com ADN português chama-se $Munch, funciona na blockchain da rede Ethereum e cada transação está sujeita a uma comissão pesada, de 10%. Mas 5% revertem a favor de quem já detém unidades desta criptomoeda e os restantes 5% são diretamente transferidos para uma entidade escolhida pela comunidade.

Nesta fase inicial, essa entidade é uma instituição de solidariedade social. Mais propriamente a GiveWell, uma plataforma internacional que se dedica a distribuir donativos de forma mais eficaz e impactante. Em apenas seis dias, as transações com $Munch renderam a esta entidade o equivalente a 477 mil dólares em criptomoedas, assegura o responsável, em conversa com o ECO.

A ideia de lançar uma criptomoeda solidária não é nova. “Já tinha havido tentativas mal concretizadas de implementar um modelo semelhante”, confessa Rodrigo Resende Silva, que trabalha na área da consultoria informática. No entanto, esses projetos transferiam os donativos para uma carteira de criptomoedas controlada pela equipa responsável pelo projeto. Ou seja, “as pessoas tinham de confiar que o valor ia ser doado”, refere.

Pelo contrário, o $Munch foi programado para enviar diretamente as criptomoedas para a instituição escolhida pela comunidade, o que significa que a equipa liderada por Rodrigo Resende Silva não tem acesso a elas, garante o próprio.

A cada transação, o valor da comissão é automaticamente transferido e convertido em ether, a criptomoeda da rede Ethereum, uma das mais populares e estabelecidas. Depois, a entidade beneficiária pode trocar os donativos por moeda fiduciária, como dólares ou euros, sem que isso afete o preço da criptomoeda $Munch, aponta o português, que está a viver em Londres (Reino Unido).

Sendo atualmente a GiveWell a entidade beneficiária, nada garante que isso assim continue. Todos os meses, os utilizadores podem votar na instituição que recebe os fundos. E quem tem mais moedas, tem mais direitos de voto.

Questionado sobre o que impede os utilizadores de escolherem como beneficiária uma entidade que não seja uma instituição de caridade, Rodrigo Resende Silva responde: “Nada impede. A questão é mesmo essa. A partir do momento em que temos este modelo, a comunidade vai ditar o seu futuro.”

A grande utilidade do token é a comunidade que está a criar e o montante que temos conseguido doar.

Rodrigo Resende Silva

CEO do projeto $Munch

Finanças descentralizadas, mas sempre com cautela

O surgimento da criptomoeda $Munch é mais um exemplo do crescimento do ecossistema DeFi, um termo que significa, em português, “finanças descentralizadas”. Em linhas gerais, o conceito refere-se aos projetos de criptomoedas que têm vindo surgir e a estabelecer-se nos últimos anos, focados especificamente na área financeira.

Alguns são como instrumentos financeiros derivados, outros tentam “imitar” os depósitos a prazo, com a promessa de yields que enchem o olho. E até já há ações de empresas reais que assumem a forma de tokens e podem ser transacionadas a qualquer hora, mesmo que as bolsas estejam fechadas. Como se fossem criptomoedas cujo valor é indexado ao valor de uma ação.

Mas atenção. Por norma, as promessas são de ganhos elevados e o rendimento passivo alicia muitos investidores particulares. No entanto, estes criptoativos não são regulados nem estão sujeitos a qualquer tipo de proteção. Uma vez investido o dinheiro, não há nenhuma garantia de que o investidor o consiga reaver, como já alertaram o Banco de Portugal e a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). Ou seja, facilmente um ganho expressivo se converte numa perda robusta.

“Se seguirmos os padrões de um bom investidor, ninguém deve meter o dinheiro que está a poupar para uma reforma num projeto de DeFi”, avisa o próprio Rodrigo Resende Silva. “Tem de ser uma porção mínima do que investimos, porque, idealmente, temos o nosso dinheiro confortável em ações ou fundos”, reconhece.

Para já, o $Munch, para além de distribuir uma fatia da comissão por instituições de solidariedade, distribui a outra metade pelos próprios “investidores”, pelo que há uma expectativa de crescimento, refere Rodrigo Resende Silva.

Para além disto, para que serve a criptomoeda $Munch? Neste momento, não serve para muito mais. Rodrigo Resende Silva admite que, apesar de a equipa estar à procura de aplicações para a criptomoeda, as transações que existem neste momento não são mais do que mera especulação: alguém que compra na expectativa de vender a um preço mais alto. Um fenómeno que, de resto, se verifica na generalidade das criptomoedas.

Os mais céticos perguntarão ainda o que ganha com isto a equipa responsável pelo projeto. Questionado acerca disto, Rodrigo Resende Silva explica: “Não ganhamos mais a não ser a percentagem que cada um de nós detém.”

Por outras palavras, a equipa é titular de criptomoedas $Munch e também é livre de investir nelas. Por isso, a sua valorização e o sucesso do projeto valoriza as suas próprias posições. “Imensamente. Ninguém está aqui para perder dinheiro”, conclui o responsável.

Às 17h35 de 21 de abril, cada moeda de $Munch valia 0,0000001186 dólares, uma queda intradiária de 46%, de acordo com o site CoinMarketCap. Há 100 biliões de unidades em circulação, o que confere ao projeto um valor de mercado na ordem dos 11,9 milhões de dólares.

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