Vieira, Moniz da Maia, Vasconcellos, Gama Leão: grandes devedores explicam perdas milionárias do Novo Banco

Hoje é ouvido Nuno Gaioso Ribeiro, do fundo Capital Criativo, que está a gerir a dívida que a Promovalor tinha no Novo Banco. Vieira vai ser ouvido. Moniz da Maia vai ao Parlamento na sexta.

Chegou a vez de os grandes devedores explicarem na comissão de inquérito do Novo Banco as perdas milionárias registadas pelo banco por causa dos créditos. Nuno Vasconcellos (Ongoing), Moniz da Maia (Sogema), Luís Filipe Vieira (Promovalor) e João Gama Leão (Prebuild) foram chamados pelo Parlamento. A estes grupos económicos, o banco ex-BES emprestou cerca de 2.000 milhões de euros. Contudo, a instituição financeira já perdia quase metade desse valor em 2015. A situação não melhorou desde então, com falências, reestruturações e créditos vendidos com descontos elevados.

Promovalor

Exposição em 2015: 466 milhões de euros

Imparidades em 2015: 55 milhões de euros (12% do crédito dado como perdido)

Quem é que o Parlamento quer ouvir: Luís Filipe Vieira e Nuno Gaioso Ribeiro (Capital Criativo)

Luís Filipe Vieira talvez seja a mais mediática das personalidades que a comissão de inquérito às perdas do Novo Banco vai ouvir não fosse ele o presidente de um dos grandes clubes de futebol em Portugal.

A Promovalor, o seu grupo económico, tinha uma exposição de 466 milhões de euros em 2015, para a qual o banco já havia registado imparidades de 55 milhões de euros. Em 2018, porém, essa dívida ascenderia já a 760 milhões de euros, com perdas por imparidade de 225 milhões, de acordo com o Correio da Manhã, citando a auditoria especial da Deloitte.

No fim de 2017, o grupo chegou a acordo com o Novo Banco para a reestruturação da dívida, tendo sido transferidos os ativos para um Fundo de Investimento Alternativo Especializado da Capital Criativo, que tem Nuno Gaioso Ribeiro, ex-administrador do Benfica, como CEO. Nuno Gaioso Ribeiro é ouvido no Parlamento esta terça-feira.

Neste momento, a auditora BDO deve estar prestes a concluir a auditoria específica pedida pelo Fundo de Resolução. Esta auditoria teve duas dimensões: a primeira parte abordou a concessão e recuperação dos créditos, sendo que esta análise ficou incluída na auditoria especial realizada pela Deloitte e que já foi entregue em agosto do ano passado: a segunda parte, que coube à BDO realizar, teve como objetivo analisar a operação de reestruturação do crédito, visando “obter uma opinião sobre os seus méritos, sobre o plano de negócios do fundo que foi constituído, e sobre as expectativas de recuperabilidade associadas”.

Luís Filipe Vieira aceitou ir à comissão de inquérito. A audição estava prevista para acontecer esta semana, mas o presidente do Benfica pediu adiamento pois tinha uma consulta médica.

Grupo Moniz da Maia

Exposição em 2015: 602 milhões de euros

Imparidades em 2015: 202 milhões de euros (33,6% do crédito dado como perdido)

Quem é que o Parlamento quer ouvir: Bernardo Moniz da Maia

O grupo do milionário Bernardo Moniz da Maia (que chegou a ser administrador no GES) devia mais de 600 milhões de euros ao Novo Banco em 2015, sendo que o banco já assumia perdas de 33% dessa exposição logo nessa data.

Os grandes créditos haviam sido cedidos à Sogema Investments Limited, com uma exposição de 363 milhões (imparidades de 174 milhões), e à Ybase Florestal, com uma exposição de 186 milhões (imparidades de 2,5 milhões), dados de 2015.

Bernardo Moniz da Maia vai ao Parlamento na próxima sexta-feira (é, para já, o único devedor do Novo Banco com audição agendada), embora a dívida da Sogema (cerca de 550 milhões, com quase 100% de imparidades) tenha sido alienada em 2019 ao fundo americano Davidson Kempner no pacote Nata 2.

Em 2016, numa tentativa de recuperar parte das dívidas, o Novo Banco arrestou a Bernardo Moniz da Maia um iate e um avião, no valor de 37 milhões de euros, de acordo com o Correio da Manhã. Mas grande parte do crédito ficou por cobrar.

Já em 2019, o Novo Banco pediu a insolvência da Totalpart por causa de dívidas de 16,5 milhões de euros da empresa e de 360 milhões de euros da Sogema Investments Limited.

Em junho do ano passado, o tribunal declarou a insolvência da Totalpart, mas na semana passada, como o ECO avançou, foi determinada a abertura de um “incidente de qualificação de insolvência” no processo da Totalpart para apurar se as razões da insolvência foram alheias à empresa ou por culpa dela.

Ongoing

Exposição em 2015: 605 milhões de euros

Imparidades em 2015: 400 milhões de euros (67% do crédito dado como perdido)

Quem é que o Parlamento quer ouvir: Nuno Vasconcellos

Era conhecida a relação de proximidade entre o grupo de Nuno Vasconcellos e o banco então liderado por Ricardo Salgado, antes da medida de resolução aplicada em 2014.

Em 2015, a exposição da Ongoing ao Novo Banco ascendia a 605 milhões de euros, sendo que o banco já reconhecia perdas de mais de 400 milhões em relação ao grupo naquela data.

Estas perdas diziam sobretudo respeito a papel comercial emitido pelo grupo (240 milhões de euros com imparidades associadas de 178 milhões) e à exposição de 232 milhões de euros que o banco tinha à Ongoing Strategy Investments (sobre a qual havia constituído imparidades de 194 milhões de euros), antiga acionista de referência da PT e que veio a apresentar falência em agosto de 2016 com dívidas totais de 1.200 milhões de euros.

Nuno Vasconcellos vive no Brasil há mais de dez anos onde também tem negócios, incluindo na indústria da comunicação social. Há dois anos foi notícia nos jornais brasileiros a tentativa de controlo de um parque temático em São Paulo, o Hopi Hari, um dos maiores da América do Sul.

Num artigo publicado no Observador (acesso livre) no ano passado, Nuno Vasconcellos fez uma aparição rara onde deixou críticas aos banqueiros portugueses e ao Banco de Portugal. “Entendo que alguns executivos, por razões políticas, gostem de ter um bode expiatório para esconder do povo português as terríveis decisões que tomaram ao criar o Novo Banco e deixar falir o BES — que arrastou em sua queda várias empresas que geravam empregos e recolhiam impostos em Portugal. A péssima gestão dos banqueiros e reguladores, como a do Banco de Portugal, não é de minha responsabilidade! A decisão saiu, sim, muito cara aos contribuintes portugueses, mas nada tive a ver com ela”, escreveu.

Sobre as dívidas bancárias, Nuno Vasconcellos assegurou que todo o crédito que lhe foi concedido era garantido por garantias reais, incluindo “empresas sólidas, como Zon [atualmente Nos] e Altice, terrenos valiosíssimos, na região central de Lisboa, quintas maravilhosas, empreendimentos turísticos com campos de golfe, entre outros”.

Em 2019, o Novo Banco esteve perto de vender o crédito da Ongoing (na altura ascendia a mais de 350 milhões, mais o papel comercial de 250 milhões) no pacote Nata II. Mas o Fundo de Resolução travou a venda devido ao elevado desconto de quase 100%. A dívida continua no balanço do banco e o Parlamento disse ter dificuldades em encontrar Nuno Vasconcellos para o notificar da audição.

Prebuild

Exposição em 2015: 308 milhões de euros

Imparidades em 2015: 197 milhões de euros (65% do crédito dado como perdido)

Quem é que o Parlamento quer ouvir: João Gama Leão

Em novembro de 2019, depois de o tribunal ter mandado penhorar rendimentos de João Gama Leão, limitando-o a 800 euros (o equivalente a “três remunerações mínimas garantidas” no Brasil, onde está a viver), o empresário confessou ao Expresso que não tinha quaisquer rendimentos. “Todo o património que tinha estava dentro das empresas. Como se diz no Brasil, vendo o almoço para pagar o jantar”, disse ao semanário.

Para trás, Gama Leão havia deixado em Portugal um império industrial com várias empresas como a Levira, Aleluia Cerâmicas, Viúva Lamego, Kind, Porama, ou ainda a rede de lojas de bricolage Izibuild (antiga Mestre Maco) e dívidas milionárias ao Novo Banco.

A falência da Prebuild deixou o Novo Banco a reclamar 334 milhões de euros, isto apesar de já o banco ter perdoado 80 milhões num Plano Especial de Revitalização acordado com os credores em 2015.

No final desse ano, o Novo Banco tinha créditos de 217 milhões de euros cedidos à Prebuild Global Supply (com imparidades de 179 milhões) e de 50 milhões de euros à Aleluia Cerâmicas (com imparidades de cinco milhões).

Tal como as dívidas da Ongoing, também as dívidas da Prebuild estiveram para ser vendidas na carteira Nata II, mas o Fundo de Resolução riscou o nome do grupo da lista final. E tal como acontece com Nuno Vasconcellos, também o Parlamento está com dificuldades em contactar João Gama Leão, que estará a viver em Campo Grande, a capital do estado de Mato Grosso do Sul.

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