Estudo da Médis revela que portugueses querem ser pró-Saúde

  • António Ferreira
  • 4 Maio 2021

Maioria dos portugueses tem ideia de que goza de estado de saúde e bem-estar razoável. Estudo desafia à indução de comportamentos mais saudáveis.

Projeto Saúdes Painel 1ª edição (da esquerda para a direita); Eduardo Consiglieri Pedroso; Augusto Mateus; Adalberto Campos Fernandes; Maria do Céu Machado; Rui Alves.


A Médis quis saber o que pensam os portugueses sobre a sua saúde
e, ao fim de um ano de investigação, obteve um retrato sociológico que considera ser inovador, “hiper-personalizado”. As seguradoras terão em consideração os hábitos de vida das pessoas para lhes oferecerem seguros com condições mais atrativas, indicou Eduardo Consiglieri Pedroso, presidente executivo da Médis no evento de apresentação do estudo.

“A relação entre a saúde física e mental não se estabelece apenas (ou sempre) por efeitos fisiológicos, mas também por influenciar a adesão [ou afastamento] a comportamentos de vida,” segundo o relatório “A Saúde dos Portugueses: Um BI em nome próprio”, apresentado pela Médis, prestadora de saúde do grupo Ageas Portugal, num evento híbrido (presencial e transmissão online).

O estudo é o primeiro da série Saúdes, que a marca de seguros Saúde do grupo Ageas acaba de inaugurar em parceria com a Return on Ideas (ROI). O trabalho “conseguiu descobrir padrões encobertos, correlações desconhecidas (…)”, realçou Maria do Céu Machado, catedrática jubilada e consultora científica do estudo.

A investigação, iniciada há cerca de um ano, teve conclusões apresentadas por Joana Barbosa, responsável pela área de investigação na ROI: “Concluímos que não era preciso descontar o efeito da pandemia” nas conclusões do estudo. O inquérito permitiu concluir que a pandemia “não interfere na avaliação da ideia que se tem sobre a saúde,” dado que para 69% dos entrevistados, a pandemia “não teve impacto na minha saúde” e 2% afirmou que a sua situação de saúde melhorou relativamente à pré-pandemia.

De acordo com os autores do estudo – Joana Barbosa, Clara Cardoso e Rui Dias Alves, todos da Return on Ideas (ROI), empresa responsável pela elaboração do relatório -, “os portugueses têm uma avaliação naturalmente subjetiva da sua saúde, naturalmente diferente da opinião médica, sendo que a primeira associação que se faz de saúde é o bem-estar físico”.

O relatório resulta de inquérito junto de 1000 entrevistados, com recurso a entrevistas telefónicas e cerca de 800 inquéritos online, entre outubro de 2020 e fevereiro de 2021. O estudo introduz o indicador de Potência Saúde, que os autores consideram inovador na abordagem aos comportamentos. O conceito de Potência Saúde (…) “é a força que é preciso fazer para pôr o carro a andar”, segundo analogia de Joana Barbosa, investigadora da ROI.

Fonte: “A Saúde dos Portugueses: Um BI em nome próprio”. Projeto Saúdes – Médis

Ao revelar uma “potência saúde média” que os autores qualificam como moderada, estando 46% da população abaixo do nível médio da escala (6,03), significa que, “uma parte importante dos portugueses tem atitude aquém do desejável ou possível, integrando poucos comportamentos efetivos de defesa ou melhoria do seu estado de saúde e bem-estar”.

Embora o potencial de saúde sofra de uma degradação natural, ao longo da idade, “ele pode em cada momento ser renovado e reconquistado pela integração de comportamentos que levem maior vitalidade e tempo de vida (com qualidade). Nessa medida, com exercício físico, a meditação e até dietas alimentares, “o indivíduo pode ser um produtor de saúde”.

Noutra parte do estudo este potencial de saúde corre por um “eixo contínuo de bem-estar.” A posição de cada indivíduo “não é vitalícia neste eixo, é uma condição de itinerância,” explicou Joana Barbosa.

A posição relativa no eixo induz comportamentos e o eixo vai naturalmente encolhendo com o tempo. O corpo e o cérebro “podem ser reprogramados” a cada momento da sua plasticidade (idade) e o desafio para cada pessoa é “posso negociar o meu bem-estar” ou, por outras palavras, até onde se pode expandir o potencial de saúde.

O estudo introduz o conceito de Biografia de Saúde, que assenta em 3 princípios: A cada saúde a sua história; faz uma interpretação hiper individualizada e a aponta para uma multiplicidade de afluentes que concorrem para um eixo contínuo de bem estar.

A(s) biografia(s) são o ponto de partida para conhecer a relação pessoal que cada cidadão tem com a saúde, pressupõe a visão que cada um tem da sua saúde é resultado de muitas influências. “A personalidade, a ideia que faz de si, o que gostaria de ser, a educação, os valores, a literacia, o rendimento, entre outros, são determinantes para o pensamento, a relação e a ação com a saúde”. Por isso, o estudo inclui muitos relatos na primeira pessoa.

O relatório, o primeiro da série Saúde, a publicar pela Médis a cada três anos, revela também que a componente mental na ideia de saúde “ainda é muito desvalorizada”. É a ideia de saúde física que impera. “11% da população sente que não controla a saúde por questões do foro psicológico, mesmo sem nenhuma doença diagnosticada (física ou mental)”, nota o estudo acessível online.

Mas o resultado da investigação também permitiu realçar a saúde mental como elemento “reconfigurante” da nova abordagem: “Há uma noção de risco, uma maturidade na compreensão da fragilidade da sua condição de saúde, que leva a que as pessoas se coloquem numa situação de fronteira com a doença, mesmo quando estabilizadas.”

Segundo sustenta o relatório, “a relação entre a saúde física e mental não se estabelece apenas (ou sempre) por efeitos fisiológicos, mas também por influenciar a adesão [ou afastamento] a comportamentos de saúde, seja na lógica da prevenção como da prevenção. É sabido que um doente deprimido tem mais probabilidade de não aderir a recomendações do médico do que um não deprimido.”

Quando questionados sobre onde situa o seu estado atual de Saúde (escala de 0 a 10), a média de respostas situou-se em 7,3, com 23% dos entrevistados a considerar-se “muito saudável” (intervalo 9-10), 29% “bastante saudável” (8), 31% “razoavelmente saudável” (6-7) e 17% “pouco saudável” (1 a 5). As mulheres afirmam ter pior saúde do que os homens, apesar de terem mais cuidados: vão mais a consultas de rotina, consomem menos álcool e tabaco e preocupam-se mais com a alimentação.

Vidas Pró-Saúde

E, é quando se questiona a saúde que cada um quer ter que o estudo propõe os “eixos da prevenção”, coincidente com eixo da potenciação. Aqui, o relatório distingue 7 segmentos distintos da população, estabelecendo uma fronteira entre os que “desistentes” (os que esforçam pouco ou muito pouco para serem saudáveis) e os “potenciadores” (os que têm o equilíbrio e saúde como objetivo central na vida).

Fonte: “A Saúde dos Portugueses: Um BI em nome próprio”. Projeto Saúdes – Médis

Nesta segmentação, o relatório revela que seis em cada 10 são cidadãos esforçados, estão empenhados ou movem-se pelo ideal de saúde, sendo que 31% estão empenhados em ter um estilo de vida saudável. Ser saudável é algo que “os define como pessoa”, determina o estudo. Em contraste os “desistentes” estão na cauda do esforço, afirmam os autores do relatório Saúdes.

Segundo conclui o BI da saúde portuguesa, “há um longo caminho a fazer em termos de estilo de vida saudável.” Mas há uma transformação em curso, em termos de atitudes, admitem os investigadores, sustentando os sinais de mudança com parcela de 23% que gostaria de se esforçar mais para ser saudável ou mais saudável e 50% gostaria de se esforçar mais, “mas considera-o difícil.”

No entanto, entre os desafios que o retrato sociológico coloca, “devemos perceber como se pode induzir comportamentos de vida mais saudáveis mais precocemente”.

Após apresentação do relatório, um painel de convidados comentou e debateu as ideias e conclusões do estudo. Na sessão coordenada por Rui Dias Alves, coautor do relatório, participaram Maria do Céu Machado, Augusto Mateus, Adalberto Campos Fernandes e Eduardo Consiglieri Pedroso.

Maria do Céu Machado, consultora científica do estudo da Médis, disse ter dúvida que a pandemia altere a ideia que as pessoas têm da sua saúde. “A pandemia é uma ameaça, mas que se espera seja controlada”. Salientado a importância do trabalho, a professora catedrática jubilada e presidente do conselho disciplinar da Ordem dos Médicos, afirmou que o trabalho “conseguiu descobrir padrões encobertos, correlações desconhecidas, tendências, preferências do cidadão e novas oportunidades”.

Augusto Mateus, economista e professor catedrático convidado do ISEG, relacionou saúde e economia. Uma das grandes consequências da pandemia “é a aceleração de uma mutação” e não a abertura de um processo rápido de recuperação. “2021 será o início rápido de uma grande transformação social”, projetou referindo a digitalização, sustentabilidade e formas de trabalho e de vida como elementos centrais. “Precisamos de apostar muito naquilo que é a resiliência, para aguentar melhor a transformação.” As rotinas saudáveis ajudam a essa resiliência, referiu.

Por seu lado, Adalberto Campos Fernandes antigo ministro e professor na Escola Nacional de Saúde Pública, comentou: “Muitas das coisas com a que a Saúde tem de lidar são geradas fora dela”. A sociedade “é doente por não ser capaz de criar condições para a felicidade, realização pessoal (…).” A pobreza material gera consequências, “até à perda do respeito por si próprio.” Mas nem tudo se esgota no rendimento, ressalvou recordando que a Suécia é disso exemplo.

“A dimensão do respeito que nos merecem as pessoas que sofrem (…) As mulheres sofrem muito mais do que os homens”, considerou, são temas que precisam de ser tratados. “A conta poupança saúde começa-se aos 30 anos,” para que se possa envelhecer, chegar aos 80 anos, com qualidade, acalentou.

Eduardo Consiglieri Pedroso (CEO da Médis) defendeu que “o sistema de saúde deve estar centrado na pessoa, o indivíduo. Enquanto operadores no setor da Saúde, esse é um dos nossos grandes objetivos”. O responsável da seguradora salientou dois aspetos práticos: “a segmentação pró-Saúde que o estudo trouxe”, diferente do que a indústria seguradora se habituou a considerar, e que nos permite, enquanto seguradora “no futuro ajudar os clientes a encontrar a sua saúde”.

Em segundo lugar, continuou, “criámos um indicador potenciação de Saúde”. Com o estudo, a Médis obteve “a perceção de como, enquanto organização, pode potenciar”. Numa base anual, a companhia irá promover este indicador, “criando serviços e programas que permita a cada cliente a melhorar a sua saúde e também criar KPI internos para atingirmos em termos estratégicos”.

Ainda de acordo com o presidente executivo da Médis, as seguradoras terão em consideração os hábitos de vida das pessoas para lhes oferecerem seguros com condições mais atrativas.

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