Pandemia “calca” 70 anos de produção de sapatos em Portugal

Indústria perdeu 4 mil milhões de pares de sapatos em 2020, com Portugal a cair menos que Itália e Espanha. Exportações cresceram 11% até julho, mas “dificilmente” chegam este ano nível pré-pandemia.

O consumo mundial de calçado caiu 15,8% no ano que coincidiu com o surgimento da covid-19, o que significa que em todo o mundo deixaram de ser comercializados 4 mil milhões de pares de sapatos em 2020. Uma equivalência ajuda a perceber melhor o impacto da pandemia: representa 70 anos de produção de calçado em Portugal. E o cenário até chegou a ser mais sombrio, com perdas estimadas de 5 mil milhões de pares.

De acordo com o World Footwear 2021 Yearbook, o calçado nacional resistiu melhor do que os principais concorrentes internacionais. Em volume, os fabricantes portugueses registaram uma quebra de 13,2%, para 66 milhões de pares de sapatos. Isto é, cerca de metade da redução verificada em Itália (-26,8%, num total de 131 milhões de pares) e em Espanha (-26,5%, para 72 milhões de pares).

Quase nove em cada dez pares de sapatos são fabricados na Ásia, com o Vietname e a China à cabeça. Entre os principais produtores mundiais, Portugal continua a registar o segundo maior preço médio por par exportado (24,28 euros), logo a seguir a Itália. A indústria nacional destaca-se sobretudo no segmento específico do couro – ocupa a 9.ª posição, com uma quota de 3,1% – e no calçado impermeável, em que é atualmente o quarto maior fabricante à escala planetária (quota de 3,7%).

"Estamos a fazer os trabalhos de casa para que a recuperação chegue mais cedo na indústria portuguesa, previsivelmente já no próximo ano.”

Paulo Gonçalves

Porta-voz da associação do calçado (Apiccaps)

Um ano depois, os industriais portugueses regressam este domingo à maior feira de calçado do mundo, em Milão, com a comitiva reduzida a um terço e menos empresas de luxo. Ainda assim, confiantes na retoma da atividade internacional. Segundo os dados oficiais mais recentes, as exportações cresceram 11% até julho, face aos primeiros sete meses do ano passado, que fechou com uma quebra na ordem dos 16%. Mas ainda estão aquém dos números de 2019 e “dificilmente” chegarão a esse nível até ao final deste ano.

“Os estudos internacionais apontam para que a recuperação internacional do setor do calçado só aconteça em 2023. Nós estamos a fazer os trabalhos de casa para que essa recuperação chegue mais cedo na indústria portuguesa, previsivelmente já no próximo ano”, sintetiza o porta-voz da associação do setor (Apiccaps), Paulo Gonçalves, em declarações ao ECO.

Conforto balanceia quebra clássica

O setor está agora em fase de normalização, mas nem todos os segmentos de mercado estão a recuperar no mesmo ritmo. É o caso do segmento clássico, que, por regra, consegue praticar preços mais elevados e que foi “altamente penalizado no passado recente” porque quase deixou de haver casamentos, batizados, festas de finalistas e outras cerimónias. Ao invés, o calçado impermeável e de conforto, assim como o desportivo, estão em crescimento.

Uma das grandes apostas da indústria portuguesa de calçado ao longo da última década passou pela criação de marcas próprias, como tinha ficado definido no Plano Estratégico FOOTure 2020. Os dados do Gabinete de Apoio à Propriedade Industrial (GAPI) do Centro Tecnológico do Calçado mostram que foram criadas 272 novas marcas de calçado no país desde 2010, das quais 203 registadas como comunitárias e as restantes 69 apenas em Portugal.

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